Título: A Vida da Família Lewis

Autoria: FireKai

Número Total de Capítulos: 7

Aviso: Esta história foca-se na família Lewis, composta pelo casal Lewis e a filha e foi originalmente publicada num dos meus fotologs

Sumário: A família Lewis podia ser como tantas outras, mas não é. A filha Allison procura o amor, a mãe Brianna suspeita de que o marido pode andar a traí-la e a empregada só quer é dinheiro. Com esta família a diversão não pára e tudo pode acontecer.

A Vida da Família Lewis

Capítulo 1: A Família

Allison Lewis entrou em casa e fechou a porta atrás de si. Suspirou, parecendo bastante cansada. Com vinte e cinco anos, Allison tinha cabelo loiro pelos ombros e olhos verdes. Estava vestida de maneira discreta mas bastante elegante. Dois anos antes, os pais de Allison tinham ganhado a lotaria e ficado muito ricos. Tinham comprado aquela casa, bastante grande e cheia de confortos e a vida nunca mais fora a mesma para aquela família.

Allison terminara os estudos e sendo que os pais eram ricos, não estava muito preocupada em encontrar um emprego. Porém, Allison sempre fora uma romântica e agora, desde que a sua família começara a ter dinheiro, os problemas que Allison tinha com as relações tinham ficado ainda mais complexos.

"Filha, é você?" perguntou uma voz, vinda da sala de estar.

Allison suspirou e encaminhou-se para a sala. Tal como o resto da casa, tudo estava decorado com requinte e bom gosto. Cortinas finas, sofás de boa qualidade, um plasma bastante grande e tudo o mais. Brianna Lewis, a mãe de Allison, com quarenta e cinco anos e cabelo loiro encaracolado, estava sentada num dos sofás, a folhear uma revista. Brianna.

"Ah, era mesmo a menina." disse Brianna, sorrindo à filha. "Então querida, onde foi? Saiu cedo hoje. Normalmente levanta-se mais tarde, por volta da hora do almoço porque assim só toma uma refeição de manhã e não engorda tanto. E até é bom, porque gasta-se menos dinheiro em comida."

"Hoje apeteceu-me levantar-me mais cedo e fui dar um passeio, mamã. Nada demais. Fui ter com a Naomi e fomos às compras, só isso." mentiu Allison.

"Às compras? Mas não a vejo com saco nenhum."

"Acabei por não comprar nada, mamã. Não havia nada que me agradasse."

Brianna pousou a revista e sorriu, satisfeita.

"Ainda bem, ainda bem querida. Não fique como o seu pai, que não tem cuidado nenhum com o dinheiro." disse Brianna. "Afinal, nós ficámos ricos, mas não é para esbanjar tudo, se não qualquer dia estamos pobres outra vez."

"Mamã, não seja assim. O dinheiro também não se gasta todo sem mais nem menos. Temos de aproveitar. Uma ida ao spa hoje, umas roupas finas e bonitas amanhã…"

"Querida, pare com isso! Uma pessoa tem de ser poupada!" exclamou Brianna. "A vida está difícil e os luxos são isso mesmo, luxos. Há que pensar bem antes de gastar dinheiro. Olhe o que aconteceu à minha amiga Giselle, que era muito rica e agora tem de ir comer à sopa dos pobres."

"Mas isso foi porque o marido lhe roubou o dinheiro todo e fugiu."

"Não importa. De um dia para o outro o dinheiro vai-se, pelo que há que ter cuidado onde o gastamos."

Allison decidiu não argumentar com a mãe, pois achava que o dinheiro devia ser bem empregue em coisas que se gostasse, em vez de se estar sempre a pensar em poupar. Por seu lado, Brianna sempre vivera com algumas dificuldades. Casara com Bill Lewis e os dois tinham trabalhado para se sustentarem, tinham vivido numa pequena casa e tinham criado a filha o melhor que tinham podido. A sorte tinha-lhes batido à porta e, enquanto Bill decidira logo ter o que queria, Brianna costumava estar de pé atrás.

Fora ideia de Bill comprar aquela casa e decorá-la com tudo do bom e do melhor. Brianna não ficara satisfeita com tantos gastos de dinheiro. Tinham também contratado uma empregada e a princípio Brianna não ficara nada satisfeita por ter de pagar um ordenado que achava desnecessário, mas depois acabara para reconhecer que a empregada fazia muita falta na casa.

Brianna deixara de trabalhar e Bill criara uma empresa de construção, que estava a resultar e todos estavam contentes com isso. Apesar de serem muito diferentes em opiniões de gastar dinheiro, Bill e Brianna gostavam bastante um do outro.

"Agora vou para o meu quarto, mamã. Estou com uma ligeira dor de cabeça." disse Allison.

"Querida, quer que eu mande a Rosemary levar-lhe alguma coisa? Um comprimido para a dor de cabeça ou então..."

"Não preciso de nada, mamã. Vou só descansar."

"Está bem, descanse então. E como não vai tomar o comprimido, poupamos em medicamentos. Estão bastante caros."

Allison saiu rapidamente da sala e foi até ao seu quarto. O quarto estava decorado em tons de amarelo. Allison sentou-se na sua cama e suspirou. Depois de pensar um pouco, pegou no telefone e ligou à sua melhor amiga, Naomi Illian, uma jovem negra e vivaça. Ao terceiro toque, Naomi atendeu.

"Então, conta-me lá, como é que correu o teu encontro com o Melvin?" perguntou Naomi, do outro lado da linha.

"Não correu nada bem, se queres que te diga a verdade." respondeu Allison. "Eu acho que ele talvez esteja apenas interessado no meu dinheiro, Naomi."

"Achas que sim? Mas ele é tão querido e podre de bom! Eu acho que se calhar estás a exagerar. Porque é que achas que ele está interessado apenas no teu dinheiro?"

"Ora, de cada vez que vamos sair, ele arranja sempre desculpas para não pagar a conta. Está sempre a dizer que gostaria disto e daquilo, claramente para eu lhe comprar o que quer. E nunca me disse que me ama nem nada."

"Isso pode só querer dizer que ele tem pouco dinheiro, o que não é mentira e também que gostava de ter mais coisas. E quanto a não te ter dito que te amava, tu alguma vez lhe disseste isso a ele?"

"Na verdade, não. Porque eu nem sei bem o que sinto por ele."

"Então pensa bem. Se estás com ele só por ele ser bonito ou pelo sexo, é uma coisa. Se queres uma relação importante, então tens de saber se gostas dele, porque se não gostares então não vale a pena continuarem a namorar."

Allison suspirou, abanando a cabeça.

"Tens razão, Naomi. E obviamente que eu não estou com o Melvin por causa de sexo, que ideia! Não sou assim tão desesperada que estivesse com um homem só por causa disso. Se estivesse desesperada, mais valia passar o dia a fazer compras no centro comercial. É muito mais interessante e revitalizante. Enfim, eu vou pensar realmente bem no quero e no que sinto."

"Faz isso. E olha se não quiseres o Melvin é só dizeres. Eu não me importo de ficar com ele para mim."

A Vida da Família Lewis

Algumas horas depois, à hora do jantar, a família estava reunida à mesa, na sala de jantar. Bill, um homem de estatura média, com cabelo escuro a ficar grisalho e um bigode farfalhudo, estava terminar de comer e olhou para o seu relógio de pulso.

"Está à espera de algum telefonema ou assim, querido?" perguntou Brianna. "Já olhou várias vezes para o relógio."

"Não estou à espera de nenhum telefonema, mas tenho... uma reunião combinada." disse Bill, algo hesitante. "Portanto, tenho de me apressar. Sabes como é Brianna, muito trabalho."

Pouco depois, Bill saiu de casa. Brianna olhou para a filha e abanou a cabeça.

"É terça-feira e o seu pai saiu outra vez. Já se está a tornar um hábito." disse Brianna. "E acho que ele me está a mentir. Filha, se calhar o seu pai tem uma amante e anda a trair-me."

"Mamã! Como é que pode dizer uma coisa dessas?" perguntou Allison, chocada.

"Já anda a sair às terças-feiras há uns dois meses. Desde essa altura que sai todas as terças-feiras, sem excepção. Ainda por cima inventa que tem reuniões ou jantares com clientes e volta tarde e às vezes a cheirar muito a tabaco. O que é que hei-de pensar? Que ele anda a ter reuniões com chaminés?"

"Se calhar o papá está a dizer a verdade." disse Allison. "Mamã, vocês gostam tanto um do outro e dão-se muito bem. De certeza que o papá não ia andar a trai-la. Eu ponho as minhas mãos no fogo por ele."

"Veja lá se não se queima, querida. Eu gostava de acreditar que ele me diz a verdade, mas estou a ficar com muitas dúvidas." disse Brianna. "Afinal, a minha amiga Lorette também andava desconfiada que o marido a traía, porque ele saía várias noites por semana e tinha razão."

"Mamã, o marido da Lorette alugava um quarto de hotel e ia para lá ver filmes pornográficos. Não é bem uma traição."

"É a mesma coisa! Andava a ver filmes com outras mulheres. Ai, se o seu pai estiver a fazer o mesmo, eu dou cabo dele! Os alugueres de quartos de hotel e de filmes pornográficos de ser bastante elevado e há que poupar!"

Entretanto, a empregada, Rosemary Lowman, uma mulher de cerca de cinquenta e poucos anos, rechonchuda e vestida com uma farda escura, surgiu e começou a recolher a loiça usada.

"Mamã, se está com dúvidas, tem de confrontar o papá com isso e pronto." disse Allison, com simplicidade. "Vai ver que ele não está a mentir. Agora, eu vou sair com a Naomi. Tenho de me ir arranjar."

Allison saiu da sala de jantar e foi até ao seu quarto. Brianna abanou a cabeça e olhou para Rosemary.

"Rosemary, acha que o meu marido me anda a trair?" perguntou ela.

Rosemary olhou para a patroa e pestanejou algumas vezes, antes de dizer alguma coisa.

"Não me parece, dona Brianna." respondeu ela.

"Porque é que não lhe parece?"

"Acho que o patrão Bill não é esse tipo de homem."

"Você está do lado do meu marido, é isso?"

"Eu estou apenas a responder à sua pergunta, minha senhora." disse Rosemary. "Mas como a menina Allison estava a dizer, é melhor falar com o seu marido e esclarecer tudo."

Brianna abanou a cabeça e levantou-se.

"Já me está a dar uma enorme dor de cabeça, mas tenho de aguentar porque tomar comprimidos é um luxo. De qualquer das maneiras, eu hei-de confrontar o Bill." disse ela, saindo de seguida da sala de jantar.

Rosemary abanou a cabeça. Já trabalhava para a família havia mais de ano e meio, logo depois de eles terem enriquecido e sabia que, apesar de serem boas pessoas, todos eram algo complicados, principalmente Brianna e Allison.

"A menina Allison não faz nada da vida, ainda sempre por aí pensativa e meio aparvalhada com paixonetas que não dão em nada. Além de que anda sempre a comprar tudo e mais alguma coisa e a preocupar-se com a sua beleza. A dona Brianna, sempre a rezingar pelas despesas e a meter coisas na cabeça. E depois o senhor Bill, que tem estas saídas estranhas e gosta de andar por aí a gastar dinheiro." pensou Rosemary. "São todos meio doidos... mas gosto deles na mesma."

A Vida da Família Lewis

Alguns minutos depois, Allison saiu de casa e conduziu até um pequeno bar. Encontrou a sua amiga Naomi à sua espera. Naomi tinha a mesma idade de Allison, era um pouco mais alta, a sua tez de pele era escura e o cabelo era encaracolado. Ao contrário de Allison, Naomi trabalhava para se sustentar, já que os pais não tinham tido a sorte de ganhar a lotaria.

"E então, não atendi os telefonemas do Melvin." disse Allison. "Não sei o que lhe ia dizer. Nem tenho a certeza do que sinto nem nada."

"Ok, vou dizer-te isto e não é só por achar o Melvin giro e querer ficar com ele para mim, mas se não sabes o que sentes, é porque não gostas dele. Se gostasses, irias sabê-lo." disse Naomi. "Talvez seja melhor terminares tudo com ele."

"Não sei... ele até já foi lá a casa e já o apresentei aos meus pais. A minha mãe gostou muito dele e tudo." disse Allison, suspirando. "Tenho de pensar no que vou fazer. Nunca tenho sorte ao amor."

"Realmente, é verdade. Já namoraste com aquele Nelson, todo giraço, mas depois roubou-te dinheiro da carteira e acabaste com ele. E também namoraste com o Tyson, mas descobriste que ele andava com mais outras duas ao mesmo tempo." disse Naomi. "Ah, sem esquecer o Roger, que se meteu contigo e depois descobriste que afinal ele era gay. E o Lawrence, que enquanto namorava contigo decidiu que ia para padre. Pois é, tens mesmo azar."

Allison acenou afirmativamente, relembrando as suas relações anteriores, que tinham acabado em desastre.

"Eu queria era encontrar algum homem de jeito." disse Allison. "E que me arrebatasse o coração. Ai, ai..."

"Se não for o Melvin, não percas a esperança." disse Naomi. "No meio de tantos homens que há por aí, algum há-de ser o certo."

Allison encolheu os ombros, abanando a cabeça.

"Se isto acaba mal com o Melvin, vou ter de comprar outro guarda-roupa. Das últimas vezes, quando um namoro meu terminou, fui comprar imensa roupa no centro comercial. Já não tenho muito espaço onde colocar mais roupa. Se isto acaba mal, vai-me sair caro, vou ficar desgostosa e ainda tenho de ouvir a minha mãe por causa dos gastos."

A Vida da Família Lewis

Na manhã do dia seguinte, Brianna e Bill levantaram-se cedo e depois de estarem despachados, foram até à sala de jantar. Rosemary já tinha posto a mesa, com todo o tipo de coisas para o pequeno-almoço, desde torradas, croissants, pães-de-leite, ovos, manteiga, geleias, bolos, leite, café, entre outros. Bill serviu-se de café e torradas. Brianna pegou num croissant e nessa manhã estava tão nervosa que não reclamou que havia, como sempre, imensa comida na mesa e que nunca comiam muito, pelo que era um desperdício de comida. Alguns segundos depois, Brianna, hesitante, decidiu confrontar o marido.

"Bill, eu quero saber onde é que você vai todas as terças-feiras à noite." disse ela, encarando o marido.

Rosemary pousou um bule com chá na mesa e saiu rapidamente da sala de jantar, antes que a metessem no meio da confusão que já esperava que viesse a seguir.

"Como eu já te disse, Brianna..." começou Bill.

"Não me venha com a conversa das reuniões e dos jantares com clientes, que eu não engulo essas desculpas!" exclamou Brianna. "Bill, você anda a trair-me, não anda? Admita, vá."

"Eu? A trair-te? Mas que raio de ideia! Eu nunca te traí, Brianna. Eu amo-te e sempre te fui fiel. Tão fiel como o mais fiel dos cães ao seu dono… hum, não foi a melhor das comparações, mas espero que tenhas percebido a ideia."

Brianna abanou a cabeça, nada convencida.

"Você anda sempre a sair às terças-feiras à noite e está a esconder-me coisas." acusou ela. "Eu posso ser loira, mas não sou burra. Diga-me onde vai."

Bill hesitou, mas abanou a cabeça em negação.

"Eu não tenho de te contar sobre todos os passos da minha vida." disse ele, de modo sério. "Agora... vou trabalhar. Perdi o apetite."

Bill levantou-se da mesa.

"Bill, espere lá! Não se vá embora assim!" exclamou Brianna, enquanto Bill saía da sala de jantar. "Volte! Agora diz que não tem fome mas depois ainda vai ao café comer e gastar dinheiro."

Logo de seguida, Brianna abanou a cabeça tristemente e limpou uma lágrima que lhe surgira no canto do olho.

"O meu marido anda a trair-me… que desgosto. Depois de tantos anos de casados… mas isto não fica assim. Eu não irei ficar na escuridão e ser enganada. Eu vou descobrir tudo!" pensou ela.

Quando Allison se levantou e desceu para tomar o pequeno-almoço, encontrou a mãe algo agitada, com um cartão na mão.

"O que se passa, mamã?" perguntou ela. "Porquê toda esta agitação? Está com a mesma expressão e agitação que ficou quando há uns tempos apanhou um choque eléctrico. Não me diga que colocou outra vez a mão na tomada eléctrica sem querer."

"Não é nada disso, filha. Eu descobri uma prova de que o seu pai me anda a trair!" exclamou Brianna, mostrando o cartão à filha. "Logo depois do pequeno-almoço, fui procurar nos bolsos do casaco que o seu pai vestiu ontem e encontrei este cartão."

Allison pegou no cartão. Tinha um pequeno logótipo, um número de telefone e um nome, Cara e Coroa. Allison virou o cartão do avesso mas não havia nada mais escrito.

"Vê querida? Eu bem sabia que tinha razão." disse Brianna, erguendo a cabeça com altivez. Depois, pareceu abalada. "Tantos anos de casamento e afinal ele anda mesmo a trair-me e eu tenho uma prova..."

"Isto não quer dizer nada, mamã. Até pode ser o nome de um restaurante qualquer."

"Ai sim? Mas o seu pai disse que tinha ido a uma reunião, portanto, obviamente que mentiu e não foi coisa nenhuma."

"O cartão já podia estar no bolso do papá antes ou pode tê-lo obtido ontem sem ter sido na sua saída há noite." argumentou Allison. "Há imensas probabilidades, mas também não as vou dizer todas, senão fico com a cabeça à roda."

Brianna não estava a ouvir o que a filha estava a dizer, mas sim já a imaginar tudo o que se estava a passar.

"Cara e Coroa, vê-se logo que deve ser um daqueles estabelecimentos nocturnos." disse Brianna. "Com mulheres agarradas aos varões a despirem-se por dinheiro. Daí o nome. A coroa deve querer dizer o dinheiro e não é só as caras que lá mostram!"

"Mamã..."

"Não vale a pena dizer nada, querida. Eu sei a verdade e uma pessoa que sabe a verdade não pode ser desviada do seu caminho. Li isto num folheto grátis que me deram quando passei em frente ao centro comercial. Só o aceitei porque era grátis, porque não ia gastar dinheiro nestas coisas das frases interessantes." disse Brianna, divagando. Depois, voltou a ficar mais sério. "Hoje à noite vou resolver tudo com o seu pai."

A Vida da Família Lewis

Eram quatro da tarde quando a campainha tocou. Rosemary foi abrir a porta e viu que era Melvin que estava do outro lado da porta. Melvin Clark, o namorado de Allison, era um jovem alto, de vinte e oito anos, com cabelo e olhos escuros.

Melvin irradiava confiança e era bastante convencido. Quando o conhecera, Rosemary achara logo que ele não era um bom rapaz, mas não era de admirar, já que Allison parecia ter sempre azar na escolha de namorados.

"Eu venho falar com a Allison." disse Melvin, entrando na casa. "Vá chamá-la. Eu vou esperar na sala."

Melvin avançou para a sala. Rosemary torceu o nariz.

"Que arrogante. Deve pensar que é o dono da casa." pensou ela, caminhando até ao quarto de Allison. "Espero que a menina Allison se livre dele rapidamente. Ela merece bem melhor, apesar de ser meio desmiolada. Eu dava a este Melvin um grande pontapé no rabo, que é o que ele merece."

Chegada ao quarto de Allison, Rosemary bateu à porta e depois de Allison a mandar entrar, Rosemary informou-a de que Melvin tinha aparecido para a visitar.

"E deixou-o entrar, Rosemary?" perguntou Allison.

"Não é que eu tenha deixado, mas ele entrou por si mesmo e foi para a sala de estar." disse Rosemary. "Não me deu oportunidade de dizer grande coisa. Mas se quiser da próxima vez eu vou buscar o rolo da massa e dou-lhe com ele na cabeça e ponho-o à porta à espera que diga se ele pode entrar ou não."

Allison suspirou, com um sorriso a aparecer-lhe nos lábios devido ao que Rosemary dissera.

"Acho que não vai ser necessário, Rosemary, mas de futuro, se precisar de alguém para lhe bater com o rolo da massa, já sei quem chamar. Bom, eu vou falar com ele."

"Se precisar de mim, já sabe que é só gritar e eu venho logo com o rolo da massa para o expulsar."

Rosemary e Allison desceram as escadas até ao rés-do-chão e enquanto Rosemary se dirigia à cozinha, Allison entrou na sala. Melvin sorriu ao vê-la, caminhou para ela e beijou-a.

"Estava preocupado, porque não tens atendido os meus telefonemas… não sabia se havia algum problema com o teu telemóvel ou se era do meu. Se calhar era do meu. Pro acaso estou a precisar de um novo." disse Melvin. Vendo que Allison não reagia, avançou. "Portanto, vim ver se estava tudo bem."

"Sim, sim, hum... tenho estado com alguma dor de cabeça e tenho estado a descansar." mentiu Allison. "Desculpa se não atendia as chamadas."

"Não tem problema, querida. Mas podias ter-me dito. Sabes que eu me preocupo muito contigo." disse Melvin.

Allison sorriu-lhe. Logo de seguida, Brianna entrou na sala de estar e ficou contente ao ver Melvin. Cumprimentou-o efusivamente e ele fez o mesmo.

"Fico muito contente por estar aqui, Melvin. É muito bem-vindo." disse Brianna. "Que tal tomar um café connosco?"

"Adoraria." disse Melvin, sorrindo. "Mas café com pouco açúcar, que o açúcar está caro."

"Exactamente! Ai você é um rapaz poupado que sabe da vida. Rosemary, venha cá!"

Alguns segundos depois, Rosemary surgiu e Brianna deu-lhe ordens para trazer café e um bolo que tinha sobrado do pequeno-almoço. Quando ela voltou, serviu o bolo e café.

"Espero que o Melvin queime a língua com o café." pensou Rosemary, saindo da sala de estar e deixando Melvin, Allison e Brianna de novo sozinhos na sala.

"Ainda bem que veio aqui visitar-nos. Já não o via há algum tempo." disse Brianna. "A minha filha é discreta com a vossa relação, mas eu sei que ela gosta muito de si. É um amor avassalador, para durar… não é como uns e outros que pensamos que são até à morte e depois vamos a ver e há traições… mas não vamos falar nisso. O que importa é que você e a minha filha formam um casal esplêndido."

Melvin sorriu a Allison e ela retribuiu-lhe o sorriso, mas sem grande entusiasmo. Depois de mais alguns minutos de conversa, praticamente apenas entre Brianna e Melvin, ele despediu-se e foi embora.

"Filha, a menina tem muita sorte em ter este namorado." disse Brianna. "Ele é uma pessoa excelente, preocupa-se consigo e apesar de não ter muito dinheiro, pronto, se a trata bem, é o que importa. E claro, não esquecendo que ele é poupado, o que é uma qualidade muito importante nos dias de hoje."

"Não sei se será isso tudo, mamã. Quer dizer, não sei bem o que sinto por ele."

"O amor constrói-se, querida. E às vezes destrói-se, como o seu pai está a fazer, aquele bandido, a trair-me!" exclamou Brianna. "Mas agora isso não vem ao caso. Aproveite esta relação e vai ver que vai ser feliz."

Allison abanou apenas a cabeça. Tinha realmente muitas dúvidas sobre a sua relação com Melvin.

"Não é que ele não seja querido, mas será que gosta mesmo de mim? Não será apenas pelo dinheiro?" perguntou-se Allison. "Mas ele preocupa-se comigo... para já é melhor continuar com ele e ver no que isto dará. Não me quero arrepender por não lhe dar hipóteses… e enquanto estou com ele, o meu cartão de crédito fica mais calminho e a mamã agradece."

A Vida da Família Lewis

Quando Bill chegou, perto da hora do jantar, encontrou Brianna à sua espera na sala de estar. Bill pousou a sua pasta numa mesa e quando foi para dar um beijo à esposa, ela esquivou-se.

"Bill, não me venha agora com beijos." disse Brianna, de modo sério. "Eu bem sabia que me andava a trair e agora tenho a prova. Eu sou como uma grande detective que quando procura, encontra. E eu encontrei! Se calhar até devia ter seguido uma carreira como detective… bom, agora não importa. Tenho uma prova da sua traição, Bill!"

Brianna estendeu a Bill o cartão que encontrara.

"Então, agora vai dizer-me que não me anda a trair? De certeza que está metido com alguma badalhoca que anda a dançar agarrada a um varão e a tirar a roupa." disse Brianna. "Como é que ela é? Alta e loira? Ou morena? Ou se calhar é ruiva e tem aqueles peitos enormes de silicone. Admita, Bill, admita!"

"Não admito nada, porque isso são ideias da tua cabeça. Estás a fantasiar."

"Este cartão não é ideia da minha cabeça!"

"Pois não, mas não é o que estás a pensar. Porém, também não tenho de te contar tudo. O casamento é baseado na confiança e tu tens de confiar em mim."

"Ai sim? Se alega agora que o casamento é baseado em confiança, porque é que me anda a esconder coisas? Eu estou tão desiludida, Bill. Ainda mais desiludida do que quando comprámos aquele frigorifico naquela loja esquisita, por um preço muito barato e depois viemos a descobrir que era feito de papelão e madeira pintada e estragou-se todo."

Bill revirou os olhos, mas manteve-se firme na sua decisão.

"Brianna, desta vez eu não te vou contar o que estou a fazer, porque não é nada de mal, nem te estou a trair, garanto-te. Portanto, tens de confiar em mim e mais nada."

Bill virou costas e saiu da sala de estar, deixando Brianna bastante irritada.

"Isto não fica assim." pensou Brianna. "Não, não fica. Não vou deixar o Bill trocar-me por uma lambisgóia que passa os dias agarrada a um varão a tirar a roupa e dançar e que tem peitos de silicone."

Alguns minutos depois, Allison, Bill e Brianna estavam já sentados à mesa da sala de jantar. Rosemary veio servi-los e ela e Allison notaram que havia um grande silêncio entre Bill e Brianna.

"Quer mais arroz, dona Brianna?" perguntou Rosemary.

"Não, que não posso comer muito, senão engordo. Sabe o que é que eu quero, Rosemary?"

"Não faço ideia, mas tenho a certeza que me vai dizer." disse Rosemary, revirando os olhos.

"Eu quero é que o meu marido admita o que anda a fazer!" exclamou Brianna, encarando o marido.

"Lá estás tu outra vez! Eu nunca te traí!"

Irritada, Brianna levantou-se, pegou num saleiro e atirou-o contra Bill. Ele desviou-se por pouco e o saleiro embateu numa parede, partindo-se em vários cacos e espalhando sal por todo o lado. Allison soltou uma exclamação de surpresa.

"Estás doida?" perguntou Bill, aborrecido. "O que é que te deu agora, para andares a atirar com o saleiro contra mim?"

"Você é que me está a pôr assim!" exclamou Brianna, pegando num prato. "Estou num estado de nervos enorme por sua causa, Bill. Portanto, vou partir coisas!"

"Pare, dona Brianna!" exclamou Rosemary.

Logo de seguida, Brianna lançou o prato contra Bill, mas mais uma vez ele desviou-se e o prato partiu-se no chão.

"Mamã! Pare já com isso!" exclamou Allison, levantando-se, alarmada.

"Estou com raiva, portanto vou partir o que me apetecer!" exclamou Brianna.

"Olhe que eu já tenho muita coisa que fazer e estou farta de andar por aí a limpar tudo." disse Rosemary. "E depois do jantar, vou-me embora, portanto não apanho os cacos até amanhã. Eu já limpo a casa toda e não preciso de mais coisas para limpar. Se quer partir coisas, porque é que não vai a um restaurante partir a loiça de lá? Pelo menos não seria eu a ter de limpar tudo depois."

"Brianna, para de atirar as coisas, que foram caríssimas!" exclamou Bill.

Brianna, apercebendo-se de que realmente aqueles pratos tinham sido bastante caros, mais uma extravagância de Bill, parou antes de atirar mais um prato.

"Pois, ai, estes pratos são realmente caríssimos. Se eu atirar mais alguma coisa, atiro algum bibelô comprado numa loja chinesa ou então aquele conjunto de pratos horrorosos oferecidos pela minha tia Luciny. São mesmo feios." disse Brianna.

Allison aproximou-se da mãe, tocando-lhe no ombro.

"Mamã, não vai atirar mais nada a ninguém, ouviu?" perguntou ela, aborrecida. "Isto está a ir longe demais."

"Pois está sim!" exclamou Bill. "Já disse que não te ando a trair, Brianna, mas se queres acreditar nisso, então acredita. Eu vou dormir no quarto de hóspedes esta noite e fico lá até tu refrescares as ideias, que bem precisas."

Bill saiu da sala de jantar. Rosemary torceu o nariz e acabou por se decidir a ir buscar uma vassoura e uma pá para apanhar os cacos, para não deixar o trabalho para o dia seguinte. Brianna afundou-se numa cadeira e começou a chorar.

"Ai, que desgosto, que desgosto." disse ela, entre soluços. "Tantos anos casados e o seu pai traí-me e nem tem a coragem de me dizer a verdade cara a cara. Continua a mentir."

"Talvez a mamã esteja enganada." disse Allison.

"Quem me dera, mas não estou. Não viu que o seu pai continua a não dizer onde vai? Isto é um típico caso de adultério, como se vê nas novelas da noite. Os maridos sempre a mentir e as mulheres acreditam neles. Eu amo o seu pai, mas não aguento isto. Se isto continua assim... peço o divórcio."

Continua…