Capítulo 7: Desfechos

Enquanto Melvin ameaçava os outros na sala, na parte detrás da casa, Faith estava a colocar vários objectos de valor dentro de um saco que encontrara.

"Ainda bem que o Bill e a filha dele conseguiram levar a deles avante e decoraram a casa com algumas coisas caras." pensou Faith. "Agora dá jeito, porque assim há coisas de valor para roubar. Vão render um bom dinheiro."

Enquanto Faith punha no saco um pequeno quadro com aspecto de ter sido caro, a porta das traseiras abriu-se e Rosemary entrou, seguida pelo seu gato, Yuri. Ao ver ali uma pessoa de costas para si, a pôr coisas num saco, Rosemary deu um passo em frente.

"Ei! O que se passa aqui?" perguntou ela.

Faith virou-se e encarou Rosemary. Não esperava vê-la ali e ser apanhada de surpresa. Estando de máscara posta, Rosemary não a reconheceu. Faith avançou para ela, deixando o saco para trás e rapidamente Rosemary saiu a correr pela porta das traseiras com Faith atrás de si.

"Ai credo, um ladrão! Socorro!" gritou Rosemary.

Faith correu rapidamente e saltou para cima de Rosemary. Ambas caíram no chão. Faith não podia deixar que Rosemary fosse a correr pedir ajuda, senão o plano acabaria por falhar. Rosemary debateu-se e começou gritar.

"Cale-se!" gritou Faith, tentando esmurrá-la.

O gato Yuri, que as tinha seguido, eriçou o pêlo e saltou para as costas de Faith, cravando aí as unhas. Faith gritou de dor. Randy, que estava à porta dos estábulos, ouviu o barulho de Rosemary e Faith a gritar e correu rapidamente em direcção à casa.

Rosemary conseguiu empurrar Faith para o lado e levantou-se. Faith também o fez, de maneira atabalhoada e tentou bater novamente em Rosemary. Agora já preparada, Rosemary foi mais rápida e deu-lhe um murro primeiro. Faith deu um passo atrás. Randy apareceu a correr nesse momento. Faith olhou para ele e alarmou-se.

"Esta pessoa estava a assaltar a casa dos patrões e atacou-me!" gritou Rosemary. "Agarra-a Randy!"

Faith começou a correr, para fugir dali, mas Randy foi atrás dela e apanhou-a quase de imediato. Faith debateu-se, tentando que Randy a soltasse, mas ele não a largava.

"Larga-me seu bruto! Deixa-me ir!" gritou Faith, continuando a debater-se.

Num gesto rápido, Randy tirou-lhe a máscara.

"Faith?" perguntou ele, surpreendido.

Rosemary também aproximou-se deles, com o seu gato a segui-la.

"Ah, sua badalhoca, voltaste para assaltar a casa, não foi?" perguntou Rosemary. "Além de porca ainda és ladra."

"Vocês vão arrepender-se. Deixem-me ir embora!" exclamou Faith, tentado libertar-se de Randy, que lhe agarrava um dos braços. "Larga-me senão…"

"Senão o quê? Pensas que me intimidas?" perguntou Randy, com um olhar duro. "Andavas a roubar os patrões, depois do que fizeste na semana passada? Expulsaram-te da quinta e não devias cá ter voltado. Agora vamos ter uma conversinha com os patrões e provavelmente com a polícia também."

Segundos depois, ouviu-se um tiro e logo de seguida ouviu-se um segundo tiro. Faith, Rosemary e Randy olharam para a casa, de onde tinha vindo o barulho dos tiros.

"Ai credo, foram tiros!" exclamou Rosemary. "Faith, tu trouxeste cúmplices? Agora fazes parte de algum bando que se dedica a assaltar casas? Responde!"

"Eu... mas não pode ser... ele não tinha uma arma... acho eu." balbuciou Faith.

"Quem é que veio contigo, rapariga? Quantos são? Responde depressa senão levas um par de estalos." ameaçou Rosemary.

"O Melvin. O Melvin, o ex-namorado da Allison, veio comigo. Mas ele disse que queria apenas pregar um susto à família, mais nada…"

Rosemary e Randy entreolharam-se e de seguida, deixando Faith para trás, correram os dois para a casa, enquanto o gato Yuri se afastava para o meio do arvoredo. Faith hesitou, mas saiu também dali a correr, na direcção oposta, para fugir antes que a apanhassem novamente.

"Tenho de sair daqui e depressa." pensou Faith. "Deixámos o carro estacionado bem longe, mas não vou esperar pelo Melvin e vou fugir já. Felizmente as chaves ficaram comigo. Que raio lhe passou pela cabeça? Tiros? Bom, pode não ter sido ele a dispará-los… mas eu não quero meter-me mais nisto. Só queria roubar algumas coisas, mas é melhor fugir sem nada do que ir presa."

A Vida da Família Lewis

Dentro da casa, um vaso tinha sido quebrado por uma bala. A outra tinha acertado no braço direito de Allison, que estava caída no chão. Naomi e Brianna estavam baixadas sobre ela, em pânico. Bill encarava Melvin.

"Ai, dói-me muito." queixou-se Allison. "E tanto sangue!"

"Minha querida, ai, a minha querida filha está ferida." disse Brianna, um pouco chorosa.

Saía bastante sangue da ferida no braço. Naomi despiu o casaco que tinha e pressionou-o contra o ferimento da bala, tentando que não sangrasse tanto.

"Seu louco!" exclamou Bill, continuando a encarar Melvin. "Como é que se atreve a disparar sobre a minha filha?"

"Ora, calado velhote. Eu acertei no braço porque quis. Podia tê-la matado logo. E vou fazê-lo. Vou matar-vos a todos. Se está assim tão disposto, será então o primeiro a morrer." disse Melvin, com um sorriso malicioso. "Não tenho problema nenhum em matá-lo em primeiro lugar, se bem que as regras de etiqueta dizem que as mulheres são sempre primeiro."

Melvin apontou a arma a Bill, que não fraquejou. Brianna começou a chorar copiosamente. Rosemary e Randy entraram pelas traseiras da casa e ouviram barulho na sala. Aproximaram-se discretamente da porta da sala e viram Melvin com a arma.

"Ele vai matá-los." sussurrou Rosemary, em pânico. "O que podemos fazer?"

Randy olhou mais para dentro da sala e viu Allison, caída e ferida, com uma mancha de sangue na roupa. Naomi tentava acalmar a amiga, que gemia com dores.

"Ele magoou a Allison." disse Randy, ficando subitamente furioso.

Num gesto rápido, puxou para trás o casaco que trazia, revelando um pequeno revólver que trazia num coldre. Tirou-o do coldre e avançou para dentro da sala.

Melvin detectou um movimento e virou-se para onde Randy estava. Antes que ele pudesse fazer alguma coisa, já Randy disparara. A primeira bala acertou na perna de Melvin e a segunda no seu ombro direito. Melvin gritou e caiu ao chão. A sua pistola saltou para longe.

"Ninguém magoa a Allison." disse Randy, voltando a colocar o revólver no coldre.

Por um momento, todos ficaram chocados e parados. Depois, Bill avançou e pegou na arma que Melvin tinha trazido. Apontou-lha.

"Agora esteja quieto, Melvin, senão não vou hesitar em disparar e matá-lo pelo que fez à minha filha." disse Bill, em tom ameaçador.

Melvin também não parecia agora ser uma ameaça para ninguém. Estava caído no chão, a gemer ainda mais que Allison e a sangrar bastante. Rosemary entrou na sala e ao olhar para Melvin e depois Allison, abanou a cabeça.

"Vou chamar uma ambulância e a policia também." disse ela, saindo de seguida da sala.

Randy aproximou-se rapidamente de Allison e ajoelhou-se ao pé dela.

"Allison, estás bem?" perguntou ele.

"Não, não vês que tenho uma bala no braço e estou para aqui a esvair-me em sangue? Obviamente que não estou bem. Estou péssima." queixou-se Allison e depois a sua expressão suavizou-se um pouco. "Mas tu salvaste-me. Atiraste sobre o Melvin."

"Ai, você foi tão corajoso." disse Brianna, quase abraçando Randy. "Obrigada, obrigada. Salvou as nossas vidas. É um herói, um verdadeiro herói."

Naomi também acenou afirmativamente com a cabeça. Depois olhou para Melvin, estendido no chão.

"Como é que eu alguma vez pude gostar dele?" perguntou-se ela. "Era um vigarista e também um assassino. Queria matar-nos a todos. Ah, mas não vai escapar da justiça agora!"

A Vida da Família Lewis

Passaram-se duas semanas desde o incidente com Melvin e Faith. A ambulância tinha chegado naquele dia e levado Melvin e Allison para o hospital. Allison andava agora com o braço direito ao peito e apesar de estar a recuperar, queixava-se muito de tudo, ainda mais do que o normal. Melvin ficara pior em termos de saúde, mas isso não fora impedimento para que o acusassem de tentativa de homicídio sobre Brianna, Bill, Allison e Naomi, além de invasão de propriedade privada, posse ilegal de arma e tentativa de roubo.

Randy prestara depoimento na polícia, como testemunha e também por ter atirado sobre Melvin, mas a situação ficara rapidamente resolvida com a ajuda do dinheiro e influência de Bill, que tratara da situação de Randy como auto-defesa, pelo que o juiz lhe dera razão e não o condenara a nenhuma pena. Melvin estava agora preso preventivamente e a aguardar julgamento. Já Faith, conseguira mesmo fugir. Tinha acabado por não roubar nada, mas sendo que estivera envolvida com o plano de Melvin, mesmo sem saber as suas verdadeiras intenções, decidiu fugir para longe.

Acompanhou pelos jornais o que se passara no caso. Então, decidiu ir para o estrangeiro. Ao tentar atravessar a fronteira, a polícia estava presente e não a deixou. Tentou então sair do país por meios ilegais, entrando num barco cheio de pessoas que também queriam ir, ilegalmente, para outro país. A meio da viagem, o barco naufragou e Faith conseguiu sobreviver, sendo arrastada para uma ilha deserta, onde até hoje permanece.

Na tarde do dia actual, Allison e Randy estavam na sala da casa da quinta, frente a frente com Bill e Brianna, que pareciam curiosos sobre o porquê da filha ter querido falar com eles, com Randy presente. Depois de ter sido baleada por Melvin e salva por Randy, Allison tomara uma decisão. Queria ficar com Randy, mesmo que no futuro tivesse de abdicar de muitas coisas que gostava, porque na verdade era Randy de quem mais gostava e conseguiria viver sem o resto, mas não sem ele. Naquela tarde, Allison e Randy tinham decidido contar à família de Allison que estavam juntos.

"Então o que é que se passa, Allison?" perguntou Bill. "O que é que nos queres dizer?"

"E porque é que o Randy está aqui presente?" perguntou Brianna. "Ah, não me diga que afinal aceitou que lhe déssemos um cheque por nos ter salvado a todos. Não quis aceitar quando lhe propusemos, mas o dinheiro faz muita falta. Pensou melhor, não foi? Custa-me andar a dar assim dinheiro, mas neste caso dou-o de bom grado, porque você nos salvou. Nunca me vou esquecer disso."

"Não é nada disso, dona Brianna." disse Randy. "Eu não preciso que me paguem nada, nem me dêem nada por vos ter salvado, como já tinha dito antes. O que aconteceu é que eu e a menina Allison temos algo para vos revelar."

Bill e Brianna entreolharam-se, confusos. Allison estava bastante nervosa, pois não queria que os pais reagissem mal. No seu intimo esperava que o facto de Randy os ter salvado fosse suficiente para que o aceitassem. Contava que Bill fosse fácil de convencer, mas já Brianna…

"Acontece que queríamos revelar-vos que eu e a Allison estamos a namorar." disse Randy.

Durante alguns segundos ninguém disse nada.

"Estão a namorar? Com quem?" perguntou Brianna.

"Estamos a namorar um com o outro, mamã." respondeu Allison, exasperada.

"Desculpe? Estão a namorar um com o outro? A menina está a namorar com o Randy?" perguntou Brianna, abrindo a boca de espanto. "Você está a brincar comigo? Isto é alguma partida?"

Randy pôs o braço à volta da cintura de Allison e ela encostou a cabeça no ombro dele.

"Não, isto é a verdade. Nós gostamos um do outro e estamos juntos." disse Randy.

"Exactamente. É amor verdadeiro, mamã. Mesmo verdadeiro. O Randy é um cavalheiro, corajoso e como vê, nada interesseiro." disse Allison, olhando para a mãe e depois para o pai. "Vá, digam qualquer coisa."

Bill abanou a cabeça e depois acabou por sorrir.

"Se vocês gostam um do outro, acho muito bem que estejam juntos. Parece-me que desta vez arranjaste um bom namorado, Allison." disse Bill. "Não podia pedir melhor."

"Ai, desculpem lá, desculpem lá mas isto não me entra na cabeça. Vocês são muito diferentes um do outro. Como é que podem estar para aí a namorar?" perguntou Brianna. "Allison, você gosta de perfumes caros e não de cheiro a cavalo. Nem sequer gosta assim muito do campo nem nada. Como é que agora está a namorar com o Randy?"

"Somos muito diferentes, é verdade, mas não dizem que os opostos se atraem?" perguntou Allison. "Mamã, eu quero que aceite e me apoie na minha decisão."

Brianna abanou a cabeça, pouco convencida.

"Não sei se terá feito bem, querida. Desculpe Randy, não é nada contra si pessoalmente, que é um bom rapaz e salvou-nos e tudo, mas namorar com a minha filha… a Allison está habituada a ter tudo do bom e do melhor, a gastar imenso dinheiro." argumentou Brianna.

"Eu vou mudar, mamã. Vou ser mais contida e contentar-me com menos. Pensei muito depois do que aconteceu com o Melvin. Os bens materiais não são tudo na vida. O que importa são os sentimentos." disse Allison.

Brianna ficou a olhar para a filha durante alguns segundos e depois sorriu.

"Allison, nem a estou a reconhecer. Eu tentei convencê-la a ser poupada e nunca quis, mas agora, por causa do Randy, quer mudar? Pronto, se é para ficar mais poupada, acho muito bem." disse Brianna. "Espero que vocês sejam felizes, mesmo sendo tão diferentes."

"Nós apoiamos-vos." disse Bill, olhando de seguida apenas para Randy. "Randy, espero que trates bem da minha filha. Estou a contar com isso e que a protejas sempre de todo o mal."

"Assim farei, com a minha própria vida se for necessário." disse Randy.

A Vida da Família Lewis

Na semana seguinte, Bill decidiu dar um jantar na quinta e queria que Allison e Randy estivessem presentes, para ser o primeiro jantar em que estariam todos juntos à mesa. Allison, nervosa com aquela situação, decidiu convidar Naomi também. Naomi e o seu agora namorado, Fred, chegaram à quinta quase à hora do jantar. Fred tinha cabelo ruivo, muitas sardas, mas era uma pessoa alegre e sempre bem-disposto. Á hora do jantar, os seis, Allison, Randy, Naomi, Fred, Bill e Brianna sentaram-se à mesa e Rosemary serviu-lhes o jantar.

"Ainda vão precisar de mim?" perguntou Rosemary. "É que tenho um encontro marcado com o Larry e ele já deve estar à minha espera. Vamos jantar fora e depois vamos ao cinema."

"Pode ir, Rosemary." disse Bill. "Nós depois vamos buscar a sobremesa nós próprios, não se preocupe. Divirta-se."

Rosemary despediu-se deles e saiu pela porta da cozinha, indo preparar-se para o seu encontro com Larry. Os Lewis ainda não tinham contratado uma nova empregada para substituir Faith, pelo que Rosemary ainda estava ali a trabalhar aos fins-de-semana e não se importava nada, já que estando ali podia ver Larry com mais facilidade.

Na sala de jantar, todos começaram a comer. Fred começou a falar de futebol americano, conversa que interessou a Bill e Randy, pelo que os três começaram a falar animadamente. Brianna ia olhando para Randy, que estava a ter alguma dificuldade em usar os vários talheres que estavam na mesa. Tentando picar uma almôndega que estava no prato, Randy não conseguiu e a almôndega saltou do prato, indo parar dentro do copo de água de Brianna. Noami teve de se conter para não começar a rir-se.

"Peço imensa desculpa, dona Brianna. Foi sem querer. A almôndega parece que estava viva e saltou do prato." disse Randy.

"Não tem problema, eu vou buscar outro copo lá dentro." disse Brianna, levantando-se da mesa.

Bill começou novamente a falar, tentando que Randy voltasse à conversa e não ficasse demasiado embaraçado. Allison suspirou. Quando Brianna regressou com um novo copo de água, Randy estava a mencionar um grande passe de um jogo recente e mexeu os braços. Sem querer acertou com o braço em Brianna, que deixou cair o copo de água. Além do copo cair ao chão e se partir em vários pedaços, Brianna ficou com o seu vestido encharcado. Allison e Randy levantaram-se da mesa de imediato.

"Ai, estou toda molhada!" queixou-se Brianna, encarando Randy. "Já viu o que você fez?"

"Desculpe, não foi por querer." disse Randy.

"O vestido seca-se, mamã." disse Allison. "Foi um simples acidente. O Randy não teve culpa, nem fez por mal."

"Mas já é o segundo acidente, seguido. Parece que não sabe comportar-se como uma pessoa civilizada num jantar normal." disse Brianna.

A sala de jantar ficou subitamente silenciosa. Fred mordeu o lábio, tendo pena de Randy. Naomi abanou a cabeça e Bill levantou-se do seu lugar.

"Vá lá Brianna, também não é preciso seres dura com o rapaz. Não fez por mal." disse ele.

"Eu vou-me embora. Isto foi má ideia." disse Randy, começando a caminhar para a porta. "Não devia ter vindo aqui jantar com vocês. Só faço asneiras."

"Não te vás embora." pediu Allison. "Fica por favor."

Randy saiu porta fora, com Allison atrás de si.

"Coitado." disse Fred.

"Dona Brianna, ele não fez mesmo por mal." disse Naomi. "Ficou muito embaraçado."

"Brianna, não devias ter respondido aquilo ao rapaz. Já viste como é que ele ficou. O nosso jantar ficou arruinado." disse Bill. "O Randy, já que está a namorar com a Allison, agora pertence à família."

Brianna hesitou e depois saiu rapidamente da sala de jantar. Allison estava na sala de Randy, agarrando-se ao braço dele, para tentar evitar que ele se fosse embora.

"Eu vou-me embora. Não quero envergonhar-me mais, nem ser um embaraço para a tua família." disse ele.

"Mas não és, Randy, não és. Foi só um acidente. Lembras-te quando subi pela primeira vez para cima de um cavalo? Se não fosses tu a segurar-me, caía logo. Não me sentia à vontade com isso. Este jantar tem imensos talheres e claro que não estás habituado a isso e portanto ficaste mais nervoso, mas não podes desistir assim e ir embora. Fica, por favor."

Nesse momento, Brianna aproximou-se deles.

"Randy, onde é que pensa que vai? O nosso jantar ainda não acabou." disse ela.

"Mas…"

"Mas nada. Há comida na mesa e não se pode estragar, que seria um desperdício. Detesto desperdícios, percebe? Portanto, desculpe se fui muito brusca. Eu vou mudar de vestido e quero que, quando eu voltar à sala de jantar, estejam já todos sentados para continuarmos a refeição." disse Brianna. "Se quiser, até lhe ensino para que é que serve cada um dos talheres. Não vale a pena estar nervoso. Está bem?"

Randy hesitou, mas depois acabou por acenar afirmativamente.

"Óptimo. Então vá, toca a voltar para a mesa." disse Brianna, olhando de Randy para Allison. "Não é um simples jantar que está a ser um pouco acidental que nos vai fazer ficarmos aborrecidos. Sabe uma coisa, Randy? Você salvou-me a vida a mim e à minha família. A partir daí, consigo desculpar qualquer atrapalhação que possa ter à mesa."

Brianna começou a subir as escadas para o primeiro andar, para se ir secar e trocar de vestido, enquanto Randy e Allison regressavam à sala de jantar. Brianna abanou a cabeça.

"Ele é muito diferente da minha filha." pensou ela. "Mas se gostam um do outro, eu tenho que aceitar. Só espero que ele não provoque mais nenhum acidente nesta noite. Os copos estão caros e a água também!"

A Vida da Família Lewis

Tinham-se passado seis meses. Melvin, com alguma pressão e influência da parte de Bill, fora julgado e depois de um julgamento algo polémico tinha sido condenado a vários anos de prisão. E no dia de hoje, a quinta dos Lewis está em festa, com um casamento duplo. A quinta tinha sido totalmente decorada para a ocasião, sem olhar a custos, algo que fez Brianna estremecer. Tinha sido colocado um pequeno altar perto da casa. Antes do altar tinham sido colocadas várias cadeiras, uma passadeira vermelha ao centro, flores e tudo o mais.

Os dois casamentos tinham decorrido em simultâneo e depois dos sim, o padre declarara-os casados. A parte detrás da casa tinha sido enchida por mesas redondas, bem decoradas e tinham sido contratados vários empregados para servir a comida. Todos estavam alegres naquele dia, celebrando a felicidade dos dois casais, Randy e Allison, Fred e Naomi.

"Ai, que emoção, ver a minha filha casada." disse Brianna, que estava sentada ao lado do marido, na mesa principal, onde também estavam os lugares dos noivos.

"É verdade, é verdade. É uma grande alegria." disse Bill. "O Randy é bom rapaz e neste meses pudemos ver que ele e a Allison fazem um casal perfeito."

Randy tinha pedido Allison em casamento, com a convicção de que seriam muito felizes e Allison aceitara logo. Pela mesma altura, Fred também decidira pedir Naomi em casamento e então as duas amigas tinham decidido partilhar a sua felicidade naquele dia especial, portanto tinham marcado o casamento em conjunto. Bill e Brianna tinham cedido de imediato a quinta para se poder realizar o enlace e Bill quisera o melhor e mais caro para o casamento, indo contra a ideia de Brianna de fazer um casamento mais económico.

Agora os casais já estavam ambos casados e a dançarem num espaço que tinha sido deixado vago para esse efeito. Tinha sido contratada uma banda de música country, a preferida de Randy.

"Estou muito feliz, Randy." disse Allison, enquanto os dois dançavam.

"Eu também estou, meu doce." disse Randy, sorrindo intensamente. "Agora que casámos, podemos já pensar em ter uns filhos."

"Filhos?" perguntou Allison, arregalando os olhos. "Randy, estamos casados há menos de um dia e já estás a pensar em filhos?"

"Claro. Tem de se planear o futuro." respondeu Randy.

"Pois tem, mas também não é preciso planearmos com tanta antecedência." disse Allison. "Uma coisa de cada vez. Eu amo-te, tu amas-me e para já ficamos por aqui. No futuro pensamos em filhos. Agora quero apenas aproveitar a minha nova vida de casada."

Randy acabou por acenar afirmativamente. Ali perto, Naomi e Fred também estavam a dançar, bem agarrados um ao outro. Fred estava delirante com o casamento e não parava de sorrir a toda a gente. Além disso, havia mais algo que ele e Naomi ainda não tinham contado a ninguém.

"Tens a certeza que não queres contar a ninguém agora?" perguntou Fred.

"Não. Fica para outra altura. Agora é o momento para celebrar os casamentos." respondeu Naomi, ao ouvido do marido. "Mais tarde, eu conto que estou grávida."

Enquanto os noivos e alguns outros convidados continuavam a dançar, uma jovem aproximou-se da mesa principal e sorriu a Bill.

"Quer vir dançar comigo?" perguntou ela.

"Ei, mas o que é isto?" perguntou Brianna, zangada. "Vá dar uma volta, sua lambisgóia. A única que dança com o meu marido sou eu. Vá, andor daqui para fora."

A jovem pareceu aborrecida e saiu dali rapidamente. Bill abanou a cabeça.

"Brianna, não era preciso tratares a rapariga daquela maneira." disse Bill.

"Ora, não venha para cá nenhuma mulher meter-se consigo, porque você é meu e de mais ninguém." disse Brianna, levantando-se. "Venha dançar Bill."

Bill acenou afirmativamente e os dois foram dançar. Bill estava contente por Brianna não ter voltado a desconfiar dele e apesar de ela ser um pouco ciumenta, pelo menos mostrava que gostava bastante dele.

Alguns minutos depois, as duas noivas estavam a preparar-se para atirar os bouquets. As jovens e mulheres solteiras tinham-se posto já num lugar, prontas para agarrarem os bouquets. Todas queriam agarrá-los, para que fossem as próximas a casar, mesmo aquelas que nem sequer namoravam ainda. Rosemary estava no meio das outras, perto de uma irmã de Naomi, uma tia solteirona de Randy, entre outras convidadas.

"Tenho de apanhar o bouquet. Estou farta de ser solteira." disse a tia solteirona de Randy.

"Olhe que não é só por apanhar o bouquet que as coisas acontecem." disse Rosemary. "Para casar, é preciso ter alguém. Claramente, você é uma encalhada."

"E você é muito mal-educada." disse a tia de Randy. "Ninguém a deve querer a si também."

"Ah, está enganada. Eu tenho namorado."

Allison pôs-se de costas e atirou o bouquet. Ele voou no ar, Rosemary saltou e apanhou-o. Logo de seguida, Naomi atirou o seu também. Rosemary empurrou a tia solteirona de Randy e apanhou-o também. Triunfante, exibiu os dois bouquets.

"Vêem? Sou a próxima a casar. Dois bouquets não enganam!" exclamou Rosemary.

A tia de Randy lançou-lhe um olhar furioso e afastou-se. Rosemary foi de seguida sentar-se ao pé do seu namorado, Larry, o capataz da quinta. Tinham acabado por se entender e agora já namoravam a sério há alguns meses.

"Larry, apanhei os bouquets." disse Rosemary. "Portanto, vê lá se aparece entretanto um pedido de casamento, que eu não gosto de esperar muito pelas coisas."

"Está bem, meu docinho de coco barrado com mel." disse Larry, abanando a cabeça.

"Já agora, não há por aí algum amigo teu que queira dançar com aquela tia solteirona do Randy?" perguntou Rosemary. "A mulher é feia como tudo, mas também merece alguém para lhe aquecer o coração."

"Só se for o Walmer, que está ali sentado ao fundo, sozinho. Ele tem aquela grande borbulha na cara e os dentes um bocado podres…"

"Não importa. A tia do Randy está tão desesperada que se agarra a qualquer um. Vai lá dizer-lhe para ele a convidar para dançar."

A festa de casamento continuou. Brianna pôs-se à conversa com a mãe de Randy, uma mulher baixa e com poucos estudos, que parecia ser boa pessoa.

"E temos de estar de olhos bem postos nos nossos maridos." disse Brianna. "Eu confio no meu, mas não confio é nessas lambisgóias que há por aí. Sabe, tive aqui uma empregada que se atirou ao meu marido. Claro que foi despedida e entretanto já a substituímos por uma velha e feia, que assim é mais seguro. Não concorda?"

"Acho que sim. Mas o meu marido também é assim um bocado para o feio e bebe muito, portanto não tenho de me preocupar que ninguém mo quer roubar. Isso queria eu." disse a mãe de Randy.

A noite chegou e a festa continuou, com mais música e comida. Quando chegaram as onze da noite, os noivos começaram a despedir-se para partirem em lua-de-mel. Os dois casais iram para destinos diferentes, mas tinham os voos marcados para daí a duas horas, portanto tinham de se arranjar para irem viajar.

Depois dos noivos se despedirem dos convidados, regressaram para dentro da casa da quinta e vestiram as suas roupas de viagem. Depois reuniram-se com as pessoas mais chegadas na sala da casa.

"Façam boa viagem e liguem quando chegarem." disse Brianna.

"Está bem. Faremos isso, mamã." disse Allison, abraçando a mãe.

Naomi também se despediu dos pais e prometeu que daria noticia assim que o avião aterrasse.

"Não querem mesmo que vamos convosco até ao aeroporto?" perguntou Bill. "Não nos custo nada."

"Não é necessário." respondeu Randy. "Eu levo a carrinha e portanto não é preciso irem connosco, mas obrigado pela oferta."

"Cuida bem da minha filha, Randy."

"Assim farei, pode ter a certeza."

"E tenham cuidado."

"Credo papá, também vamos só de lua-de-mel." disse Allison. "Não nos vamos meter no meio de problemas nenhuns, portanto, não precisa de estar preocupado."

Pouco depois, os noivos tinham partido. Os convidados também começaram a ir-se embora. Rosemary ficou contente porque ao ir embora com Larry, pois iam passar a noite na casa dele, viu que a tia solteirona de Randy estava muito animada ainda a dançar com o amigo de Larry. Algum tempo depois, Brianna e Bill despediram-se do último convidado e depois sentaram-se na sala de estar da casa.

"A nossa vida mudou muito." disse Bill. "Desde que ficámos ricos, tudo mudou e continua a mudar."

"É verdade. Comprámos uma nova casa, agora temos esta quinta, a nossa filha casou e quando voltar, já não vai viver connosco." disse Brianna.

"Não fiques triste com isso."

"Triste? Eu não estou nada triste. Ela vai fazer a sua vida e nós a nossa." disse Brianna, sorrindo ao marido. "Espero que ela se aguente a viver uma vida mais simples. Afinal, a casa do Randy não é nenhum palácio. Enfim, Bill, tomei uma decisão. Agora vamos começar a viajar mais. Quero conhecer algumas partes do país onde ainda não fomos."

"Mas isso vai custar dinheiro e tu não gostas de gastar nada."

"Mudei de opinião." disse Brianna. "Quer dizer, há alguns meses o Melvin podia ter-nos matado aqui mesmo, nesta sala. E haveria muitas coisas que não haveríamos de ter feito. Portanto, vamos fazê-lo. Agora que a Allison já está encaminhada e que já não vai gastar tanto dinheiro, como sempre fez, podemos gastá-lo connosco."

"Está bem, se é isso que queres, vamos viajar os dois." disse Bill. "Vai ser divertido. Como uma segunda lua-de-mel."

Brianna sorriu e de seguida ela e Bill foram deitar-se. Ninguém sabia o dia de amanhã, mas todos tinham já alguns planos para o futuro. Melvin planeava fugir da prisão, io que não seria nada fácil de concretizar. Faith queria sair da ilha deserta ou que então aparecesse algum naufrago esbelto para não ficar sozinha na ilha. Bill e Brianna queriam viajar pelo país e aproveitarem o tempo juntos. Allison e Randy queriam ser felizes e estavam decididos a fazer tudo para que isso acontecesse. Rosemary queria casar com Larry e Larry já começara à procura de um anel adequado para a pedir em casamento. Naomi e Fred queriam um bom futuro para o rebento que aí vinha a caminho. Alguns teriam sucesso no que pretendiam, outros não, mas todos dariam o seu melhor para atingirem os seus objectivos.

Fim