Antes de tudo começar, um breve esclarecimento: nada disso me pertence. Desde Tiago Potter à Torre de Astronomia, é tudo obra de nossa estimada JK Rowling.

Capítulo I – Sobre eles e elas.

Desde que se entendia por gente, Ana Dupré acreditava ter sido malignamente amaldiçoada. Até então, em seus 17 anos de vida, nunca tinha encontrado ninguém tão desastrada e sem jeito quanto ela mesma. Já tinha tentado tratamento com poções e até terapia trouxa, mas parecia que a maldição era irreversível. Alguns diziam que era pura distração, outros simplesmente diziam: "ninguém é perfeito, não é?". Isso porque a baixinha era, de fato, invejável. Apesar de seus 1,55m, era a prova de que os melhores perfumes estão nos menores frascos. Natural da França, com descendência alemã, a menina possuía um incrível rosto angelical, marcado por bochechas rosadas, olhos azuis e uma boca perfeitamente desenhada. Inteligente, meiga e divertida, tinha três paixões declaradas: moda, música, e sua gata rabugenta.

As paixões, no entanto, pareciam atrapalhá-la em sua recente empreitada: chegar até o Expresso de Hogwarts. Sua altura e fragilidade, acoplados com o tamanho de sua bagagem, impediam que a loira prosseguisse por entre o mar de pessoas. Com enorme satisfação, avistou, uns cinco passos à frente, a solução de seus problemas.

- Emilyyyy, socorro! - A loira gritou, balançando desajeitadamente os braços.

Emily Strike era quase o oposto de Ana. Alta e esguia, possuía olhos e cabelos negros, que insistiam em ser presos em um coque frouxo. Enquanto a maioria das meninas se preocupava em estar sempre linda, Emily parecia pouco se importar. Ironicamente, toda a suposta simplicidade formava um conjunto espetacular e misterioso. Como se não bastasse, seus olhos transmitiam uma inteligência assombrosa. No fim das contas, Emily Strike poderia ser apontada como uma obra de arte: bela, intrigante, e inacessível para a esmagadora maioria. Poucos felizardos tinham a graça de descobrir a divertida e encantadora Emily.

- Oh meu deus, a cada ano que passa você aumenta a quantidade de tralha! Sinceramente, Ana, pra quê tanta mala? É só uma escola. –A morena falou, começando a empurrar o carrinho da amiga com natural facilidade.

- Emily, você me conhece! Eu não consigo decidir entre minhas roupas, e acabo querendo trazer tudo.

- Ainda não entendo o porquê de eu ser amiga de uma Barbie. – Emily falou, revirando os olhos.

- Ainda nem começou o ano e já está se fazendo de durona? – Lílian Evans se intrometeu na conversa.

Pra completar o trio de amigas, nada como uma ruiva de olhos verdes. Estudiosa, doce e responsável, tinha pânico de chamar atenção. Tinha um fraco por coisas diferentes, e não suportava senso comum. Por isso, tinha as amigas que tinha – e os inimigos, também.

- Ah, Lil, ela merece. Não consegue dar dez passos sem tropeçar, e decide empilhar um imóvel nesse carrinho? – Emily falou, divertida.

Após finalmente se acomodarem no último vagão, as meninas puderam conversar à sós.

- Gente, sabe o que eu tava pensando enquanto vinha pra cá? – Ana falou, distraída com a paisagem.

- Que você é uma exceção, já que loiras bonitas não devem ter a capacidade de pensar? – Emily falou, sem tirar os olhos de suas palavras cruzadas. Aquilo era um hábito: adorava qualquer tipo de jogos.

- Deixa de ser chata, Emily! – Lílian falou, aos risos. – Fala, Ana, o que foi?

- Esse ano é um marco. Passado e futuro se misturam de uma forma tão... Assustadora.

- Ok, pode esquecer, você não é uma exceção. – Emily falou, rindo. – Que história é essa?

- Ah, não sei... De repente me peguei pensando em tudo que a gente passou nessa escola, e ao mesmo tempo, no que viria pela frente. Não sei, não me sinto preparada pra deixar a proteção dos diretores e professores. Não sei o que vou fazer daqui pra frente.

- Ora, mas é claro que sabe! Vamos morar todas juntas no coração de Londres, termos nossas carreiras e sermos felizes. – Lílian falou, positiva.

- Vocês não pensam em casar, não? – A loira perguntou.

- A tonalidade de seus fios está afetando a autenticidade de seus neurônios. Casar, flor? Pra quê? – Emily perguntou, indignada.

- Eu quero casar. – Lílian falou, tímida.

- Eu também!

- Eu não. – Emily limitou-se a dizer, olhando pra paisagem.

- Como não? Prefere ficar velha e solitária, ter um monte de sobrinhos, virar fumante, alcoólatra, obesa e diabética? – Ana perguntou horrorizada, no que a ruiva começou a rir.

- Prefiro morrer de overdose a morrer de desgosto. – Emily falou, seca.

- Do que exatamente você está falando? – Lílian perguntou, séria.

- Nada. Esqueçam.

- É a sua irmã, não é? Já fazem tantos anos, e você sempre se esquiva do assunto. – Ana perguntou, cuidadosa.

- Não vamos falar sobre isso.

- Tudo bem, a gente respeita. Quando quiser conversar, seremos seus ouvidos. Prometo inclusive não fazer comentários. – Lílian falou, compreensiva.

- A ausência de comentários é particularmente tentadora.

- Ah, Emily, bota logo isso pra fora! Ficar guardando essa mágoa só vai te impedir de viver bons momentos. – Ana falou, docemente.

- Ok, tudo bem. Eu tinha uma irmã mais velha que não era bruxa. O fato de ter sido a única da família a não apresentar poderes mágicos nunca a afetou: sempre bem resolvida, conquistou uma carreira brilhante e um marido perfeito. Namoraram desde novinhos, acho que por uns nove anos. Casaram-se, e dois anos depois, a notícia: ele tinha uma amante. A partir de então, eu vi minha irmã definhando, por conta de um mal que vende tantos livros, lota tantas sessões de cinema, e faz tantos floristas felizes: amor. No fim das contas, minha irmã morreu de câncer, de repente. Ainda não se sabe a causa dessa doença, mas eu posso jurar que decepção amorosa provoca surgimento de células cancerígenas. Eu gosto de viver. Estou muito bem sem um amor, obrigada.

Fiéis ao trato de não tecer comentários, Lílian Evans e Ana Dupré emergiram em pensamentos sem dizer palavra, enquanto o dia escurecia lá fora, e os alunos já se apressavam a trocar suas vestes.

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Pedro Pettigrew havia ficado para trás – outra vez. Ele nem se importava mais. Depois das longas férias de verão, comendo a comida que ele próprio cozinhava, não pretendia ir para o dormitório antes que tivesse provado todas as delícias do banquete de boas vindas. Entre uma dentada e outra, observava as pessoas alvoroçadas contando sobre suas deslumbrantes férias cheias de glamour e viagens. Ficou repassando mentalmente os dias quentes em que cuidava da irmã mais nova e administrava os remédios da mãe. Sentiu mais fome.

Enquanto isso, Remo Lupin caminhava vagarosa e nostalgicamente pelo castelo. Ao avançar pela fabulosa construção, se recordava de cada momento vivido naquele indescritível lugar. Em seu interior, torcia pra que ainda voltasse ali muitas vezes no futuro. Quem sabe como um professor, não pôde deixar de pensar.
Chegando ao dormitório, arrumou sistematicamente suas coisas, enquanto sua mente repassava mentalmente os trejeitos daquele encantador anjo. De todas as pessoas que conhecia, ela era de longe a mais impressionante. E nada mais paradoxal do que um lobisomem, fadado às reclusas em noites de lua cheia, apaixonar-se pela setimanista mais inacreditavelmente doce do castelo. C'est la vie.

Ainda imerso em dramáticos pensamentos, Remo Lupin acenou para o amigo que entrava no dormitório de cara fechada.

- Eu adoro mulher, mas como são CHATAS! – Sirius Black vociferou, enquanto atirava a camisa em cima da cama.

O moreno era impactante. Existia algo de muito instigante entre o olhar sombrio, azul acinzentado, e o sorriso quase de escárnio que brincava na face milimetricamente coerente do maroto. Ele parecia o retrato falado da cafajestagem. Alto, forte e com um físico definido, parecia ter sido feito exclusivamente para ser exposto, dividido e usado – e era como acontecia. Possuía uma displicente autoconfiança e se sentia o dono supremo da verdade. Sua personalidade peculiar era fruto de complicados problemas familiares, resolvidos de forma a transformar qualquer tipo de ressalva, mágoa e dor em ódio. De alguma forma, a tática funcionava.

- Ora, ora, o que temos aqui, senão o cachorro atormentado por seu maior vício! – Tiago Potter saiu do banheiro enxugando os cabelos.

Tiago Potter era, como o amigo, arrebatadoramente bonito. Não se podia destacar o ponto alto de seu sucesso. Os cabelos espetados e displicentes faziam um perfeito par com os olhos castanho esverdeados e o sorriso perfeitamente branco e alinhado. A barba por fazer conferia um ar de seriedade desmentidos pelos olhos travessos e – para espanto de muitos – dóceis. Apesar de sempre ter se divertido com a população feminina do castelo, nos últimos anos fora fisgado pela dona dos cabelos vermelhos mais perigosos de toda a Hogwarts. Havia algo de especial e diferente naquela que não se deixava levar por nada que sempre funcionou com todas as outras. É certo que suas amigas também eram irredutíveis. Emily, com aquele jeitão não-me-toques, espantosamente dividia a função de batedora do time da casa com Sirius. Aninha, em toda a sua perfeição e doçura, desencorajava a todos os garotos que acreditavam não ter chance com a menina. Outra possível opção seria o fato de que vivia escoltada por seus queridos melhores amigos, Tiago e Sirius. Já a ruiva... Era intocável. Tudo sobre ela era curioso. Podia ser ao mesmo tempo doce e azeda. Inteligente, e amiga de Severo Snape. De tantas contradições, parecia um quebra-cabeça. A vontade de decifrá-la, depois dos incansáveis foras, fez com que Tiago Potter permanecesse com as investidas. Ainda que nem de longe pudessem ser considerados próximos, o moreno se empenhou em observá-la de maneira atenta, assinando enfim sua sentença de morte. A cada nova constatação que fazia sobre a ruiva, o moreno se via cada vez mais envolvido, ainda que não admitisse.

- Já chega pra mim, eu cansei. Durante seis longos anos construí uma inegável reputação nesse castelo, e é hora de eu me aposentar. Nunca pensei que fosse me ouvir falando isso, mas preciso de uma namorada. – Sirius falou, seguro de sua decisão.

- Não, não acredito. Aluado, ouviu isso? O cachorro tá querendo uma dona! – Tiago falou, entre risos.

- Imagina ele de coleirinha? Ohn, que fofo, Almofadinhas! – Remo falou, zombando do amigo.

- Podem rir o quanto quiser. Eu vou namorar a garota mais sensacional de toda a Hogwarts.

- Opa, a Lílian não!

- A Ana é minha! – Antes que percebessem, Pontas e Aluado deixaram escapar o que nunca antes havia sido discutido.

- Aaaaah, que idiotas! Os dois já têm endereço certo, e ainda estão sozinhos. Vocês são dois incompetentes mesmo! Pontas nem tanto, já que a ruiva é dura na queda, mas a Aninha, Aluado? Ela é claramente louca por você! Cai pra dentro, lobão! – Sirius gargalhou, fechando a porta do banheiro atrás de si.

Nessa atmosfera, Pedro Pettigrew entrou no dormitório.

- Que caras são essas? – Perguntou o recém-chegado.

- Nada não. – Responderam os dois em uníssono.

A familiar sensação de exclusão foi rapidamente desviada quando Pedro finalmente fechou os olhos, no primeiro dia de seu último ano naquela escola. Antes de adormecer, pensou em compartilhar tudo que passava em casa desde a morte de seu pai, mas preferiu deixar pra lá. Ficar se lamentando não mudaria nada. Tinha sorte de ter os amigos que tinha, e poder passar a maior parte do ano longe de casa.

N.A: Esse capítulo introdutório é mais para apresentar os personagens, mesmo. A história começa no próximo capítulo - e eu espero que gostem.

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