4 vezes Amor

House cambaleva em alguma cidade deserta do sul da Austrália depois de ter bebido a noite toda. Durante aquela semana ele se embebedou dia sim, dia não, a realidade era muito cruel e beber aliviava suas mágoas.

O caminho que fazia do bar até seu hotel era sempre o mesmo, uma rua suja e escura, com bêbados caídos e mendigos dormindo em cabanas feitas de jornal e papelão.

Tudo corria exatamente como nos dias anteriores até ele ser surpreendido por um homem estranho, de roupa preta e óculos escuros, que estava encostado em um poste não muito longe dele.

"A dor piora a cada dia, não?"

House passou por ele sem lhe dar atenção, pensando que ele estava falando de sua perna manca que latejava cada dia mais.

"E não há nada que você possa fazer para remediar isso."

Ele não estava nem um pouco interessado naquela conversa, mas sua perna doía o suficiente para ele andar cada vez mais devagar, sendo praticamente obrigado a escutar o que o homem estava lhe dizendo.

"Se você pudesse mudar alguma coisa no seu passado pra tê-la de volta, você faria?"

House começou a se irritar e decidiu responder para ver se o homem se calava.

"Eu não sei do que você está falando."

"Eu falo sobre Lisa Cuddy."

Um choque percorreu o corpo de House ao ouvir esse nome, o que esse homem poderia saber sobre ela ou eles?

Ele estava do outro lado do mundo e ninguém sabia de sua história.

"O que você sabe sobre ela?"

"Eu sei muito mais do você pensa, doutor House. Venha comigo, eu posso te ajudar a aliviar a dor."

Por mais bêbado que estivesse, House sabia que aquilo não era uma alucinação, aquele homem realmente sabia alguma coisa sobre eles e o fato de poder aliviar sua dor fez com que House tivesse curiosidade em seguí-lo para ver onde essa história iria dar.

Os dois foram até o final da rua e entraram em uma casa aparentemente abandonada. House se sentia em um filme de terror, aquilo estava estranho demais.

Eles passaram por uma grande porta de metal e entraram em uma sala fria, com móveis escuros e apenas luz de velas.

"Sente-se."

House se sentou em uma poltrona de veludo vermelha e esperou que o homem se senta-se à sua frente.

"Eu tenho uma proposta pra você."

"Eu não quero saber de proposta nenhuma até que você me explique quem é você e o que você sabe sobre mim."

"Fique calmo, doutor House, eu quero apenas ajudar. Meu nome é Morpheus e eu sou apenas um viajante com poderes sobrenaturais."

"Certo, agora é a parte em que eu dou risada? Porque isso só poder ser brincadeira."

"Como eu saberia sobre você?"

"Não sei, mas eu não acredito em coisas sobrenaturais."

"Deveria... Eu conheço uma forma de mudar o passado, você gostaria de ter feito as coisas certas, não gostaria?"

"E como você faria isso?"

Morpheus deu um sorriso estranho, e retirou do bolso três pílulas azuis.

"Eu te darei três chances de mudar o passado. Você poderá testar apenas três momentos em que você gostaria de ter feito algo diferente, no final você decide com qual história quer ficar."

"Tudo isso tomando essa pílula?"

"Exatamente. Você escolhe um momento, age de forma diferente e vê as consequências disso."

"E se eu não gostar?"

"Se você não gostar você testa outro momento. Só lamento serem poucas chances."

"E se eu decidir ficar com alguma história, o que você ganha em troca? Presumo que você não esteja fazendo isso apenas para ajudar o próximo."

Morpheus encarou seus olhos com um brilho assustador no olhar.

"Eu quero o seu dom."

"O quê?"

"É simples, você terá sua vida perfeita e nunca mais praticará medicina."

"Você só pode estar louco. Eu nunca faria um acordo desses."

House se levantou da cadeira enfurecido e caminhou para a porta.

"Nem por ela?"

Ele se virou e encarou Morpheus com seus olhos ardendo de raiva.

"Não ouse mencionar o nome dela nessa história patética."

"Vocês poderiam ser felizes."

Por um momento House considerou aquela proposta, ele tinha magoado Cuddy tantas vezes e de um jeito tão forte que ter a possibilidade de fazer tudo certo lhe deixava esperançoso.

Ele se acalmou e voltou a sentar.

"Eu imaginei que você fosse aceitar."

House respirou fundo e arrancou a primeira pílula da mão de Morpheu.

"Vamos House, escolha um momento em que você gostaria de ter feito a coisa certa e seja feliz."

Ele pegou um copo d'água e engoliu a pílula de uma só vez.

House estava vendo televisão quando sua campainha tocou, ele se levantou meio devagar, segurou sua bengala e foi atender a porta.

Uma linda menina de cabelos pretos e olhos azuis pulou em seu pescoço.

"Pai!"

Ele mal conseguia respirar, apenas a apertou com todas as forças e sorriu, enquanto segurava em seus cabelos.

"Mel. Que surpresa, meu bem. Você foi pra faculdade e parece que não tem mais família."

"Ah Gregory House, como você é dramático, eu sempre te ligo, pára com isso."

"Não o suficiente."

Ele fez uma carinha de chateado e ela sorriu, entrando abraçada com ele.

"Eu sinto tanto a sua falta, você nem imagina."

Ela deixou sua bolsa no sofá e eles foram para a cozinha comer alguma coisa. House sempre ficava radiante quando Melissa voltava pra casa, ela era sua única filha e isso o fez mimá-la bastante.

Quando terminaram de comer ela foi até a sala pegar sua bolsa e retirou um convite.

"Tenho novidades."

Ele começou a abrir o convite desconfiado e antes que pudesse levar um susto Melissa contou do que se tratava.

"Eu e o Peter vamos nos casar."

"O quê?"

House quase derrubou o café que estava tomando, ele era extremamente ciumento.

"Mel, casar? Você só tem 22 anos, é muito nova."

Ela sabia que ele diria exatamente isso e revirou os olhos.

"Como assim 22 anos? A mamãe tinha essa idade quando se casou com você."


Michigan 1986

Cuddy acordou de conchinha com o menino mais bonito da faculdade depois da noite mais perfeita de sua vida.

A sensação de estar se apaixonando por alguém e ser correspondida era indescritível. Aquela dança, aquele beijo, aquelas mãos, ele era tão diferente do que tinha se mostrado na livraria, era tão delicado e carinhoso.

Tudo bem que ele já tinha transado com metade da faculdade e todas diziam que com ele as coisas não passavam de uma noite, mas a noite que tiveram tinha sido tão mágica que ela acreditava que com ela seria diferente.

Ele ainda estava ali, agarrado à ela, poderia ter ido embora e não foi, tinha algo de especial acontecendo.

House já tinha acordado há um tempinho, mas fingiu que estava dormindo apenas para continuar abraçado com ela. A coisa mais certa que fez naquela semana foi descobrir Lisa Cuddy na aula de Endocrinologia e seguí-la até a festa.

Ele pensava que conhecia todas as meninas de Michigan, mas tinha deixado passar uma das mais lindas. O engraçado era que não era só beleza, ela tinha alguma coisa de diferente, talvez encantadora seja a palavra certa, além de inteligente e divertida.

Isso nunca tinha acontecido com ele, mas Cuddy conseguiu enfeitiçá-lo no primeiro sorriso e ele simplesmente não teve vontade de ir embora.

Pela primeira vez em 25 anos ele teve vontade de ficar, de abraçar, de sentir.

Cuddy se remexeu na cama e chamou por ele suavemente.

"Greg? Você já acordou?"

Ele a trouxe mais perto de si e sussurrou em seu ouvido:

"Deixa eu ficar aqui abraçado com você só mais um pouquinho, vai?"

Cuddy se derreteu com aquela voz em seu ouvido, ela queria poder ficar o dia inteiro ali, mas já tinha amanhecido e sua colega de quarto poderia aparecer.

"É melhor você ir embora, a Jen pode chegar a qualquer momento e ela é muito chata, vai infernizar a minha vida se souber que eu passei a noite com você."

"Por que? Ela me conhece?"

"Qual mulher nessa faculdade não te conhece?"

Ela sorriu enquanto tentava se soltar de seus braços com uma maior força mental do que física. Ela, definitivamente, não queria sair dali.

"Você não conhecia."

Ele a soltou e deixou que ela se enrolasse no lençol enquanto ia preparar um café.

"Eu soube quem você era no meu terceiro dia de faculdade."

Ela finalmente contou e sorriu ao ver a reação dele.

"Então por que você não se apresentou? Nós podíamos ter aproveitado tudo isso há mais de uma semana."

"Nós ainda temos muito tempo, não temos?"

Ele piscou para ela e se levantou, colocando sua cueca e sua calça jeans.

Cuddy estava começando a fazer café quando ele se aproximou atacando-a com beijinhos nas bochechas.

"Eu não vou poder esperar, preciso realmente ir agora, não sabia que era tão tarde."

Ele apontou para o relógio que já marcava 11 horas.

"Tudo bem, nos falamos depois."

"Eu te ligo, pode ser?"

"Claro."

Eles deram um beijo de despedida cheio de vontade e quase interminável, até ela conseguir empurrá-lo.

"Tchau, Greg."

Ele deu uma mordidinha em sua bochecha e foi até a porta, colocando sua camiseta.

"Tchau, Lisa."

House chegou em seu dormitório com a cabeça nas nuvens, seu companheiro de quarto logo percebeu que ele estava diferente.

"Ta pensando em que?"

"Oi? Não, em nada.."

"Você está estranho, Greg, nunca te vi assim. Comeu alguém ontem à noite e ainda ta sob o efeito da endorfina?"

House ficou estranhamente irritado com a brincadeira. Comer não era uma palavra que se remetia ao que ele fez com ela, ele não estava vendo aquilo como apenas uma noite de sexo.

"Eu não comi ninguém e não gosto desse tipo de brincadeira. Presta atenção no que você fala."

Jack se assustou com a reação dele. Comer era o termo que ele mais usava com as meninas daquela faculdade.

"É alguém especial, então? Calma, cara, eu não sabia. Você nunca levou ninguém a sério."

House ficou um pouco constrangido com a atitude que teve, mas já tinha assumido pra si mesmo que Cuddy era especial.

"Sendo sincero, é. É alguém especial, sim."

"Uau, isso é... inacreditável."

"Pra tudo sempre ter uma primeira vez."

House sorriu e voltou a pensar em Cuddy.

"Já pediu ela em namoro?"

"Não, mas..to pensando em voltar lá e fazer isso agora, não consigo esperar mais."

"Boa Sorte."

Jack deu um tampinha nas costas dele e House saiu quase ao mesmo tempo em que o telefone tocou.

"Alô?"

House já estava no meio corredor quando Jack foi até a porta e gritou seu nome.

"Telefone pra você."

Ele voltou meio à contragosto.

"Quem é?"

"O reitor."

House bufou e pegou o telefone.

"Sim, sou eu. Sim.. Tudo bem. Claro, Amanhã estarei lá. Tchau."

"O que ele queria?"

"Detenção. Vou ter que passar mais uns dias ajudando na biblioteca."

"Eu achei que se você tivesse mais uma detenção você seria expulso."

"Eu também, mas parece que o reitor está de bom humor."

Ele levantou as mãos se fazendo de desentendido e saiu, para, finalmente, ir até o quarto de Cuddy.