Feliz 3 anos de ADEOV!


Eu não sou o tipo de cara que fica nervoso ou ansioso facilmente. Raras eram as situações em que eu sentia as mãos suadas e um nó na garganta que me fizessem perder o ar. Eu poderia contar em uma mão os momentos em que me senti tão despreparado para encarar uma situação nova, então não era o que poderia ser considerado um cara que temia novidades.

Me encontrava em um desses raros momentos de nervosismo. Mesmo fazendo muito frio naquela noite de dezembro, eu estava na varanda do flat que Bella e Alice passaram a dividir naquele início de ano letivo. Meus dedos já estavam congelando e eu sentia dificuldade em segurar o cigarro a cada tragada que dava, sentindo até meus lábios reclamando do vento gelado. Mas eu não conseguia dormir, só me vinha a cabeça meu compromisso do dia seguinte e isso me deixava ansioso como em raros momentos foi possível.

Lembrei bem do nervosismo de Bella quando eu anunciei que ela iria conhecer minha mãe, e na época eu achei engraçado como ela ficou toda ansiosa e com medo de Esme não gostar dela por algum motivo ridículo. Conhecer alguém não deveria ser estressante daquela forma, assim eu pensava. Minha opinião mudou quando foi minha vez de estar na berlinda e eu tive que arrumar uma mala para conhecer os pais de Bella. Agora eu sabia como era o tal medo de não ser bom o suficiente para os pais de quem você amava e temer que, de alguma forma, isso fosse afetar seu relacionamento.

Nós estávamos tão bem agora que não havia mais o que esconder. Tê-la de volta a minha vida trouxe aquele frescor que só Bella conseguia, me fazendo respirar em paz e não temer mais nada. Ela realmente me trazia de volta a vida, sem querer ser um cliché nem nada. Quando Bella finalmente se mudou de volta para Oxford no início do ano letivo da universidade, meu coração se sentiu calmo como há meses era improvável. Ela estava de volta aos meus braços, a minha vida, e ninguém iria ficar entre nós dois dessa vez. Pelo menos era isso que eu pensava, até Bella sugerir que fossemos passar o Natal em San Marino.

"Será a oportunidade perfeita para papai e mamãe te conhecer oficialmente." ela disse querendo me animar, mas como eu iria ficar relaxado sabendo que havia tanto em jogo?

Eu não era "material namorável", digamos assim. Nenhuma garota me levava para casa e apresentava aos pais, e eu realmente não me importava com aquilo. Eu era uma diversão pra essas mulheres que não queriam compromisso, não faziam questão de me ter fora do quarto. Minhas preocupações eram outras até Bella surgir, então me sentir ansioso daquela forma era uma novidade. Além do mais, os pais de Bella não era pais comuns. Eles eram da monarquia, o pai dela era rei de uma micro-nação! Dava para entender por que eu estava me cagando de medo? Era muita pressão para um encontro só, ainda mais quando seus súditos também tinham um interesse enorme em saber que eu era de verdade.

Mas eu estava fazendo aquilo por ela, porque a amava. Bella enfrentou seus anseios para conhecer Esme e agora era minha vez de suar frio, imaginar as piores situações possíveis em relação ao encontro e tentar fazer de tudo para que eles gostassem de mim de verdade. Eu sabia que sua mãe não era nada fácil e iria implicar com meu jeito de vestir, minha barba grande e o fato de eu ganhar a vida vendendo cerveja em um pub. E seu pai… Bem, ele iria lembrar automaticamente que eu era o cara traçando sua filhinha, então não iria estranhar se ele me olhasse com vontade de me matar.

Nem o meio maço de cigarro naquela noite me fez relaxar. Joguei a bituca pela varanda e retornei ao quarto quente o bastante por conta do aquecedor ligado, vendo através da luz da rua o corpo de Bella enrolado no cobertor quente. Ela dormia tão calmamente, como se nada fosse capaz de perturbá-la, que invejei um pouco seu estado de espírito. Não iria conseguir dormir nada aquela noite e no dia seguinte chegaria a San Marino com aspecto de um viciado em heroína, perfeito para conhecer os pais da namorada, não é mesmo? Precisava fechar os olhos e tentar dormir nem que fosse apenas três horas aquela madrugada. Já estava sob o cobertor macio quando senti a inquietação de Bella ao meu lado, esperando ela se acomodar contra meu peito como costumava fazer todas as noites que passávamos juntos. E quando ela fez aquilo, um pouco de sua calmaria foi transferida para mim e eu finalmente consegui dormir umas horinhas antes do despertador tocar.

O esquema de viagem para San Marino era totalmente diferente do que estava acostumado em meus tempos de mochilão pela Europa. Os seguranças de Bella estavam nos esperando na entrada do prédio com um Jaguar preto e colocou nossas malas enquanto sentávamos no banco de couro, tão macio que eu senti que estava envolvendo meu corpo. Vincent ia entre nós dois na malinha de viagem e resmungava me olhando pela telinha, me odiando como sempre. Até chegar ao aeroporto de Londres, Bella ficou lendo um livro no Kindle e eu tentei cochilar no curto tempo que tivemos.

Esperar até a hora de voar também foi uma surpresa pra mim. Ficamos na sala VIP reservada para os vôos de jatinho e eu moraria fácil naquele lugar com sofá confortável, um banquete de café da manhã e até mesmo massagista de plantão. Se em uma salinha de aeroporto era aquele luxo todo, não queria nem imaginar quando chegasse a sua casa em San Marino. E o que eu mais achava incrível nisso tudo era ver que Bella, criada com tudo do melhor a sua disposição, ainda assim preferia as coisas simples e não se deixava deslumbrar com nada. Nem com toda a comida chique no buffet e as pessoas querendo agradá-la o tempo todo: ela preferiu beber chá inglês e continuar sua leitura enquanto se recostava em mim. Aquela era a Bella que eu amava e me fazia esquecer que era da realeza, pois pra mim ela sempre seria uma mulher incrível cheia de vontade de conquistar o mundo.

Quero aproveitar esse momento e também confessar outra coisa: eu odiava andar de avião. Me chame de cagão ou sei lá mais o que, mas eu não curtia a ideia de estar a milhares de quilômetros no céu a mercê de uma falha que fizesse o avião cair. Não iria revelar a Bella que tinha esse medo todo de voar e mantive a postura indiferente conforme entramos no jatinho. Sentei na poltrona ao seu lado perto da janela e apertei o cinto de segurança sem pestanejar, olhando para fora em busca de qualquer pecinha na asa que me desse a certeza que o avião iria cair e nós pudéssemos desistir da viagem antes de decolar.

- Deseja algo para beber, alteza? - uma comissária perguntou a Bella se ajeitando ao meu lado.

- Água, obrigada. - ela respondeu sempre tão educada e calma.

- E o senhor? - a mulher me perguntou.

- Você tem vodka ou algo mais forte? - retruquei fazendo Bella me olhar confusa.

- Tenho espumante se o senhor quiser.

- Pode ser. Obrigado.

Quando a comissária se afastou, Bella continuou com seu olhar de surpresa ao pedido que eu fiz a mulher e meu autocontrole já não estava mais existindo conforme a decolagem ficava mais próxima. Era hora dela conhecer esse meu lado medroso...

- Eu odeio andar de avião. - falei soltando todo o ar pela boca. - Então eu prefiro ficar bêbado para voar do que encarar isso tudo sóbrio.

- Mas você não pode chegar em San Marino bêbado. - ela retrucou começando a se preocupar. - Papai e mamãe estão nos esperando, e haverá um jantar hoje a noite...

- Eu não vou ficar em um estado lastimável. Só vou beber duas taças de espumante pra relaxar mais um pouco.

- Não precisa ter medo de voar. A chance de ocorrer um erro e o avião cair é 1 em 1 milhão.

- E se eu for esse 1 em 1 milhão? Se essa porra cair, morreu você, eu, todo mundo.

- Edward. - Bella disse com sua voz doce super maternal e segurando minha mão. - Nós vamos chegar sãos e salvos em Florença, não se preocupe. E se morrermos, pelo menos estaremos juntos.

- Eu não quero morrer, ok? - falei apertando sua mão com força. - Só quero chegar logo em terra firme e acabar com essa tortura.

Quase quebrei a mão de Bella durante a decolagem, apertando com tanta força que ela não conseguia fingir que estava tudo bem com aquilo, sua expressão nítida de dor. Laurent e James me olhavam sem acreditar que eu, todo cheio de segurança e sempre protetor em relação a Bella, sentia tanto medo de estar sobre as nuvens. Mas não dava para fingir que eu não tinha esse medo mais que racional, então passei as duas horas de vôo apertando os dedos de Bella e tomando espumante direto na garrafa, que no primeiro balanço mais forte do avião eu pedi para a comissária.

Quando descemos no hangar em Florença, eu estava me sentindo péssimo de tanto nervoso que passei no vôo. Eu estava pálido, suado, todo dolorido de tão tenso que fiquei, como se tivesse passado dez horas dentro do jatinho. Bella continuava elegante e linda no vestido acinturado e carregando a bolsa de Vincent, uma verdadeira visão para os olhos. Mas os meus estavam mais preocupados em olhar onde estávamos indo ao nos afastar daquela máquina de tortura com turbinas.

- Eu não posso chegar em sua casa nesse estado. - falei indicando minha camisa suada e amassada.

- Você pode trocar de roupa no caminho até San Marino. - ela me informou enquanto caminhávamos para fora do hangar, sendo recebido por um vento bastante frio.

- Não dá pra voltar pra Oxford de trem? Ou navio? Qualquer meio de transporte que não seja avião.

- Edward, eu entendo que você não se sente confortável andando de avião...

- Desconforto não! É medo mesmo. - a corrigi rapidamente.

- Esse seu medo... Eu entendo, mas você não pode deixar de realizar tantos sonhos por causa dele. Como vai ser quando você precisar rodar o mundo expondo suas obras?

- Isso está longe de acontecer...

- Não está e você precisa começar a se acostumar com essa vida de viagens.

Como sempre, ela estava visualizando meu futuro como artista e expondo ao redor do mundo. Desde que vendi meu primeiro quadro, na exposição de verão, alguns olhares curiosos caíram sobre mim e eu ganhei mais notoriedade. As cinco mil libras do primeiro quadro vendido me rendeu o tal jantar com Bella, alguns meses de aluguel sem precisar fazer tantos turnos no pub e algumas notas guardada no banco para o futuro. Mas não fiquei famoso e passei a vender cinco quadros por semana, longe disso. Ainda tinha que me formar, me especializar muito antes de ter o nome reconhecido no cenário artístico. Mas para Bella eu já era um Pollock praticamente, e isso me deixava feliz de ver que ela era minha maior fã. E musa também.

San Marino era totalmente diferente do que eu imaginava; muito menor e com mais cara de cidade antiga. Passamos por ruas muito estreitas e eu observava tudo curioso, vendo que Bella estava incrivelmente feliz por estar em casa. Ela tinha um brilho único nos olhos e sorria sem parar, explicando rapidamente o que era cada lugar que passamos. Nas duas semanas que ficaríamos na cidade, Bella prometeu que me mostraria todos os lugares importantes e se possível iríamos conhecer também outras cidades da Itália. Por mais que eu estivesse animado para ter essas mini-férias ao seu lado por um país tão interessante, não poderia deixar de imaginar como seria com a imprensa local tão interessada em nosso relacionamento que, até aquele dia, ainda era só especulação já que Bella não tinha feito uma aparição oficial comigo ainda.

A oportunidade para acabar com a curiosidade geral surgiu quando chegamos ao "castelo da família real", ou sei lá como aquela casa gigantesca era chamada. Havia uma quantidade considerável de pessoas esperando do outro lado da rua, atrás de barricas de ferro colocadas talvez para organizar melhor e garantir a segurança de todos, e eu fui pego de surpresa. Não espera que fosse ser estilo quando algum membro da família real inglesa fazia aparições e as pessoas se amontassem no frio só para acenar para eles, mas aparentemente estava enganado. Bella realmente era o tipo de princesa que as pessoas faziam questão de acompanhar cada passo.

- Alteza, a senhorita Juliet pediu que vossa alteza a esperasse antes de sair do carro. - Laurent informou a Bella, que assentiu antes de voltar a olhar pela janela fechada.

- Eu não fazia idéia que fosse ser assim. - ela murmurou me olhando como se pedisse desculpas. - Se você quiser, eu saio sozinha e você só deixa o carro quando estiver dentro da propriedade do castelo.

- Não, eu posso fazer isso. - a garanti mesmo que no fundo não quisesse tanto ser o centro das atenções. - Uma hora nós vamos ter que fazer isso, não é?

- Obrigada. - ela disse me beijando rapidamente.

A porta do carro foi aberta e uma mulher loira entrou, sentando ao lado de Bella sem dizer nada. Ela estava séria, vestida de preto, com um fone bluetooth preso a orelha e uma pasta na mão. Só podia ser Juliet, a RP de Bella que ela tanto odiava.

- Boa tarde, alteza. - cumprimentou Bella com uma reverência com a cabeça e me encarou. - Senhor Cullen.

- Edward. - corrigi essa formalidade que me irritava. - Pode me chamar de Edward.

- É um prazer finalmente conhecê-lo e bem vindo a San Marino. - Juliet continuou abrindo a pasta e mexendo em uns papéis. - Alteza, a mídia e alguns súditos estão desde cedo aguardando vossa chegada quando surgiu o rumor que o senhor Cullen viria também.

- Edward. - corrigi mais uma vez e fui ignorado.

- Todos estão curiosos para essa primeira aparição que vossa alteza fará com o senhor Cullen...

- Edward! - falei mais firme e Bella tocou meu braço como se pedisse que eu desistisse e não causasse uma cena por aquilo.

- Qual protocolo deveremos seguir, Juliet? - ela perguntou parecendo preocupada com a situação.

- Sugiro que o senhor Cullen saia antes e abra a porta para vossa alteza, demonstrando cavalheirismo. Depois vocês acenam para os súditos enquanto os fotógrafos tiram as primeiras fotos de vocês como um casal e então podem entrar no castelo. Certo?

- Certo. - ela concordou e senti sua mão ainda em meu braço realizar um aperto rápido. - Tudo bem para você?

- Tudo. Vamos lá. - respondi vestindo um sorriso tranquilo e já começando a me preparar.

- Então vamos lá. - Juliet concluiu a pequena reunião e abriu a porta. - Boa sorte.

Não sabia muito bem o que me esperava quando eu abri a porta do carro e dei de cara com as pessoas. Ajeitei meu casaco, que estava ficando muito quente já que não fazia tanto frio como estava em Oxford, e olhei rapidamente para o outro lado da rua. As pessoas acenavam, gritavam meu nome e o de Bella, até mesmo balançavam algumas bandeirinhas azul e branca. Por um segundo, eu quis sair correr e desistir daquilo tudo, mas então lembrei por quem eu estava fazendo sacrifícios e foquei no próximo passo; abri a porta de Bella e segurei sua mão para ajudá-la a sair do carro.

Foi aí que a multidão ficou louca. A futura rainha daquele país minúsculo estava de volta e eles não poderiam estar mais satisfeito em vê-la de tão perto. Bella agia com tanta naturalidade ao acenar de voltar e sorrir, que me perdi um pouco naquele encanto de princesa que ela exercia sobre todos em um radio de 10 quilômetros. Não era como se ela gostasse da atenção e das pessoas a elogiando o tempo todo, mas sim de saber que eles queriam seu bem, torciam para ela e por suas conquistas. Foram pessoas que estavam de olho em Bella desde que ela nasceu e de certa forma a viram crescer, então meio que se sentiam pais e mães dela também.

- Sorria e acene de volta. - escutei Juliet murmurar atrás de mim.

Saí do estado enfeitiçado que fiquei e acenei discretamente, sem direção certa, apenas balançando a mão de um lado para o outro. Minha mão segurando a de Bella suava tanto que ela apertou um pouco para me acalmar, mas estar sob aqueles holofotes e olhares curiosos era muito novo. Me senti ansioso como antes de andar de avião, e não queria imaginar quando entrássemos e eu encarasse seus verdadeiros pais.

Ainda bem que aquela pequena cena demorou breves minutos, pois meu braço não aguentava muito tempo acenando e os fotógrafos eram realmente irritantes. O grande portão de ferro foi aberto e Bella me conduzia pela propriedade por um caminho de pedras, passando por um jardim imenso cheio de flores cobertas por uma cama fina de gelo e árvores "peladas" por conta do inverno. Sua casa, ou mansão para ser mais apropriado, era o tipo de construção que atravessou séculos e abrigou diversos membros daquela família ao longo das gerações de reis e rainhas. Era como estar dentro de um livro de história, só que dessa vez eu estava vivendo ao vivo aquilo tudo.

Havia muito mais seguranças conforme nos aproximamos da escadaria principal e eu já avistava a pequena comitiva que nos esperava. Podia ver seus pais parados de maneira elegante mais a esquerda, dois homens que eu não fazia ideia de quem eram e uma senhora sentada em uma poltrona, que eu assimilei logo com a descrição que Bella deu de sua avó com mesmo nome.

- Bella, só uma pergunta antes de chegarmos lá. - falei o mais baixo possível.

- Qual?

- Eu estou fedendo? Porque eu já suei tanto de nervosismo que não sei se meu desodorante vai aguentar.

- Você está bem, não se preocupe. - ela respondeu rindo e beijando minha bochecha. - Só está cheirando ligeiramente a espumante, mas acho que não vão perceber.

Ela me conduziu pela escadaria até estarmos frente a frente com seus pais. Em uma situação normal de reencontro entre pais e filha, eles iriam se abraçar sem cerimônia algum, mas com Bella era diferente. Primeiro, ela abraçou a mãe rapidamente e depois o pai, depositando um beijo em seu rosto. Ninguém dizia nada e eu observava um pouco afastado, até mesmo esquecendo que fazia parte daquela situação. Voltei a realidade quando Bella segurou minha mão e me aproximou do grupo.

- Esse é Edward. - ela disse sorrindo mesmo que eu sentisse sua mão contra a minha suando de nervosismo. - Edward, esses são meus pais; Renée e Charlie.

- Muito prazer… - disse esticando a mão para aperta a de seu pai. - Desculpe, eu não sei se te chamo de senhor ou majestade, é um pouco confuso pra mim.

- Pode me chamar de senhor mesmo. - Charlie respondeu retribuindo o cumprimento com firmeza, mostrando quem mandava no pedaço. - É um prazer finalmente conhecê-lo, Edward. E seja bem-vindo a San Marino.

- Obrigado. E muito prazer, senhora Swan. - completei apertando a mão de Renée, que até o momento não estava me lançando um olhar de reprovação.

- Igualmente, Edward. - ela disse dando um sorriso que era indêntico ao de Bella.

- Você ainda precisa conhecer meus tios e vovó Isabella. - Bella murmurou em meu ouvido enquanto caminhávamos para perto do restante do grupo. - Daqui a pouco essa formalidade toda vai passar.

- Sem pressa, minha querida.

Seus tios eram tensos e sérios demais, me incomodando um pouco o jeito que me olhavam tão analíticos. Mas ainda bem que nosso contato durou poucos minutos e logo eu estava vendo Bella abraçar a avó de maneira tão aconchegante que eu sorri com a cena. Vovó Isabella se levantou com a ajuda de Bella e cochilou algo para ela com os olhos em mim, a fazendo rir e ruborizar com seu comentário. Eu não sabia exatamente como cumprimentá-la - com um abraço, aperto de mão, sei lá - mas ela me surpreendeu ao pousar a mão em meu rosto e sorrir.

- Então você é o rapaz que está fazendo minha neta feliz? - perguntou me deixando sem reação, e Bella rindo.

- Sim, é ele. - Bella respondeu ficando totalmente vermelha de vergonha.

- Pensei que não fosse conhecê-lo nunca, que só teria uma vislumbre de vocês juntos através daquelas fotos em Londres…

- Ok, vovó. Não vamos entrar nesse assunto. - Bella a interrompeu antes que o clima pesasse de vez. - Que tal entrarmos para mostrar a Edward a casa?

Os seguranças nos acompanhavam atentamente com os olhares quando entramos pela porta enorme de madeira antiga, me vendo dentro de um castelo real pela primeira vez na vida. Nem mesmo no Palácio de Buckingham eu havia visitado em minha vida, então deixei um pouco de lado meu preconceito com monarquia em geral e fiquei deslumbrado pelos ambientes cheios de história e detalhes, que meus olhos de pintor não deixavam escapar. Vi de longe algumas obras nos longos corredores e esquecia o que Bella estava falando em nosso caminho, me surpreendendo quando ela parou de andar e me deixou seguir sozinho sem saber para onde estava indo.

- Você está distraído com os quadros, não é? - ela perguntou vendo que eu tirei rapidamente os olhos de uma obra um pouco distante de onde estávamos.

- Você mencionou que seu pai colecionava quadros quando nos conhecemos, então eu só conseguia pensar nisso quando você disse que viríamos para cá.

- Você ainda lembra o que eu falei quando nos conhecemos?

- Claro, minha querida. - respondi pousando uma mão em sua cintura e a puxando para mais perto. - Sou capaz de lembrar cada palavra que você já me disse ao longo desse ano juntos.

- Sério? - Bella retrucou desconfiada.

- Não, mas as coisas importantes eu lembro. E certamente iria lembrar que seu pai aprecia arte.

- Estou tão feliz que você finalmente conheceu minha família. - ela confessou laçando meu pescoço com os braços. - É como ter aquele pedacinho, que vivia vazio em meu coração, finalmente preenchido. Nunca pensei que pudesse ter você aqui em San Marino, convivendo com meus pais, sem precisar esconder o que temos.

- Eu também estou feliz de estar aqui. Principalmente por te ver tão feliz assim.

- Eu te amo, Edward. - Bella sussurrou ficando próxima demais dos meus lábios para que eu me controlasse.

- Eu também, minha querida. - falei antes de beijá-la sem me importar onde estávamos.

Mas as paredes daquele castelo realmente tinham olhos, pois bastou eu começar a me aprofundar demais no beijo para ouvir alguém pigarreando. Era James, um dos seus seguranças, nos alertando que os pais de Bella estavam chegando no corredor e era melhor eu me controlar um pouco.

- Bella, já mostrou o castelo todo para Edward? - sua mãe perguntou em um tom leve de voz, diferente da tensão que eu esperava. - Aposto que ele irá adorar os quadros que Charlie tem no escritório.

- Ele já viu alguns pelos corredores. - Bella disse segurando minha mão e limpando discretamente o batom que eu borrei.

- Aquele é um quadro da geração Macchiaioli? - perguntei me referindo a um quadro de um homem em pé em frente ao mar.

- Sim. De Giovanni Fattori, para ser mais exato. - Charlie respondeu deixando um sorriso se espalhar discretamente em seu rosto. - Tramonto sul mare: Pôr-do-sol no Mar. É um dos poucos quadros de Fattori que não estão no Museu de Arte Moderna de Florença.

- Impossível não reconhecer as características do movimento, principalmente os traços de en plein air.

- É tão bom conversar com alguém que realmente entende de arte.- ele disse pousando a mão em meu ombro e apertando firmemente. - Nós teremos muito o que conversar nessas duas semanas.

- Sim, senhor. - concordei rindo meio envergonhado e vendo que Bella não parava de sorrir com minha interação com seus pais.

- Vocês podem conversar mais tarde, durante o jantar. - Renée anunciou enlaçando o braço do marido. - Bella e Edward precisam descansar um pouco da viagem.

- Vou te mostrar seu quarto. - Bella disse imitando o gesto da mãe.

Imaginei que não fosse dividir a mesma cama com Bella durante minha estadia em sua casa, então não achei nada absurdo quando ela me levou até o quarto de hóspede do lado oposto de onde era seu quarto. O aposento era ridiculamente enorme e com decoração bem estilo monarquia que vemos em filmes, tendo até mesmo uma cama com dossel maior que meu apartamento. Minha mala já estava posicionada aos pés da cama e eu senti uma brisa gelada entrando pela porta da varanda. Lá fora estava fazendo um sol fraco, mostrando um pouco da vista incrível de San Marino vista do ponto mais alto.

- Você vive em um filme sobre monarquias do século XV. - comentei olhando ao redor. - É como se eu tivesse em uma cena de Maria Antoinette, ou algo assim.

- Mas, definitivamente, a vida noturna do castelo não é igual a de Versalles.

- Então, passaremos as próximas semanas em quartos separados e com uns cinquenta seguranças me impedindo de entrar em seu quarto? - perguntei com um olhar sugestivo, a fazendo rir.

- Infelizmente. - ela respondeu pousando a mão em meu peito. - Mas… Isso não me impede de fugir para a ala leste do castelo, não é mesmo? Nada que a calada da madrugada não ajude.

- Estarei esperando nessa confortável cama com vinte travesseiros.

- Deixa de ser exagerado. - Bella disse beijando meu rosto. - São apenas dez travesseiros nos quartos de hóspedes.

Boquiaberto por causa daquele exagero, fui deixado no quarto para descansar antes do jantar. Todo o estresse de voar e conhecer os pais me deixou cansado de verdade, e assim que deitei na cama para experimentar seu nível de conforto, soltei um gemido baixo de relaxamento e fechei os olhos. Aquele castelo era tão calmo e silencioso que não demorou muito; em minutos estava roncando e dormindo sobre um edredom extremamente macio.

Foi a mão de alguém acariciando meu cabelo que me fez despertar, sabendo exatamente de quem era. Só Bella tinha aquela "mania" de deslizar os dedos entre meus fios bagunçados e me causar um prazer indescritível, daqueles que era impossível controlar os sons que eu reproduzia. Quando me virei após soltar um gemido de prazer, a encontrei sentada na cama e sorrindo pra mim.

- Dormi muito? - perguntei sem saber que horas seria.

- Um pouco. - ela respondeu acariciando meu rosto. - O suficiente para já ser hora de se arrumar para o jantar.

- Já? - retruquei notando que ela estava usando um novo vestido e maquiagem.

- Não se preocupe; ainda temos meia hora até ser preciso descer para o jantar. Vá tomar um banho enquanto separo algo para você vestir.

Até mesmo para jantar em sua própria casa, Bella precisava estar impecável, e consequentemente eu também. Me vi usando camisa de botão, calça jeans e sapato para dividir a mesa de jantar com seus pais aquela noite. Seria uma jantar bastante intimista, a oportunidade perfeita para eles me bombardearem com perguntas sobre minhas intenções com sua filha e meus planos para o futuro. Eu odiava ter que dar qualquer tipo de satisfação para alguém, mas entendia que seus pais precisavam saber quem era o homem namorando sua filha. E não era uma filha normal; era a futura rainha daquele país. Só me restava responder todas as perguntas e mostrar que eu não era um vagabundo qualquer interessado no trono deles.

Mas para minha surpresa, o jantar foi tranquilo. Em nenhum momento Charlie e Renée me fizeram sentir desconforto ou pressão, apenas conversavam com Bella sobre as novidades em San Marino ou se atualizavam em sua vida acadêmica, vez ou outra me introduzindo no assunto. Me ocupei com os pratos deliciosos que eram colocados em minha frente, um mais diferente que o outro, e na taça de vinho que eu demorei tempo demais para finalizar. Enquanto eu levei o jantar todo com a mesma taça, Bella e seus pais pareciam beber o vinho como se fosse água, logo sendo necessário abrir outra garrafa. E eu que levava a fama de bêbado na mídia sanmarinence.

- Agora que já terminamos o jantar, que tal eu levar Edward para conhecer meu escritório? - Charlie sugeriu, me fazendo engasgar de surpresa. - Para termos umas conversa mais séria, de pai para genro.

- Papa, pare de assustar Edward dessa forma. - Bella pediu vendo que eu estava verde de nervosismo com aquela história de conversa séria.

- Ele só quer te mostrar os quadros, Edward. - Renée me garantiu, sorrindo de maneira simpática.

Não estava muito convencido de que ele queria só mostrar seus quadros, mas o segui até o escritório mesmo assim. Fomos acompanhados de perto por dois seguranças e mais outros dois estavam na porta do local nos esperando. Charlie fez um gesto para que eu entrasse primeiro e fechou a porta num baque alto em meio a sala silenciosa. O primeiro quadro foi facilmente reconhecido por meus olhos; A Camponesa, de Giuseppe Abbati, outro artista do movimento Macchiaioli.

- O senhor realmente gosta dessa geração de artista italianos, não é? - perguntei apontando para o quadro.

- Meu avó conheceu alguns artistas dessa geração, então herdei alguns quadros que não ficaram em exposição ou foram postos à venda. - ele explicou se aproximando de sua mesa imponente. - Acho que tenho algumas fotos dele com Abbati e Cabianca guardadas em alguma gaveta…

Ele não estava brincando e eu tive a sorte de ver o que estudei por tantos anos ao meu alcance, através de uma foto em que o bisavó de Bella compartilhava uma mesa com artistas importantes para aquele país e o mundo das artes. Charlie me mostrava com orgulho as obras raras que tinha em seu acervo e me apresentava aos novos artistas italianos que, assim como eu, estavam lutando para ter qualquer tipo de reconhecimento. A diferença era que eles estavam no escritório de um rei, enquanto meu único quadro vendido até hoje estava na sala de estar de um cara com dinheiro demais.

Todas as paredes do escritório estavam cobertas por quadros de tamanhos variados, e havia um mezanino com obras mais importantes que ele guardava com carinho. O assunto "artes" foi o divisor de águas para nossa relação começar a ser desenvolvida e logo a formalidade foi deixada de lado, principalmente quando Charlie me ofereceu uma dose de uísque para apreciar melhor as obras.

- E esse quadro aqui, não sei se você conhece, mas é de Lorenzo Viani.

Ele disse se referindo a pintura de três homens presos a correntes, que foram pintadas de maneira tão fraca que quase não eram perceptíveis. Na hora que meus olhos bateram no quadro, eu tentei reprimir uma risada irônica que quis deixar meus lábios, mas Charlie captou rapidamente minha intenção e me olhou desconfiado.

- Existe algo engraçado neste quadro?

- Não no quadro, mas… - comecei explicando de maneira que não fosse ofendê-lo e destruir tudo que já havia conquistado. - Só achei um pouco "interessante" um quadro de um artista anarquista que retratava a pobreza estar em um escritório de um rei.

Ele olhou para o quadro e depois me encarou sério, sem falar nada. Pronto, agora eu tinha estragado tudo de vez. O pai de Bella iria me odiar pelo resto da vida, fazer nosso relacionamento um inferno e tudo porque eu não conseguia manter minha boca calada por um minuto. Por mais que realmente fosse irônico o retrato da pobreza estar ostentando em um escritório, junto com dezenas de obras de valores ridículos de altos, eu não precisava bancar o anarquistazinho justamente naquele momento. Os pais de Bella já tinham uma breve idéia de meus atos rebeldes na juventude - como a imprensa local fez questão de mostrar em uma breve reportagem sobre mim há algumas semanas - e a última coisa que eu precisava fazer era pior a situação com meus comentários.

Mas fui surpreendido quando Charlie soltou uma gargalhada e bateu no meu ombro. Aquele uísque estava fazendo algum tipo de efeito colateral bizarro, pois ele deveria estar querendo me matar, não dando risada do que falei.

- Você tem razão. - Charlie disse seguindo para a escada, descendo do mezanino. - É irônico demais isso.

Preferi me manter calado a partir daquele momento, o seguindo para encher meu copo com mais uísque e sentar na cadeira que ele apontou. Estava ainda mais nervoso agora, pois definitivamente eu não sabia lidar com pais de namorada. Quando pensei que Renée fosse me tratar com desdém, ela foi incrivelmente simpática e não disse nem fez nada que me deixasse desconfortável. E quando achei que Charlie fosse me esganar por ter sido tão condescendente com sua posição social, ele simplesmente achou graça e concordou. Meu cabeça estava dando um nó e eu tomei um gole grande para tentar relaxar.

- Eu gostei de você, Edward. - Charlie disse sentando ao meu lado. - Não gostava nem um pouco no começo, quando a única referência que eu tinha de você era agarrando minha filha em uma varanda de hotel.

- Sobre isso, senhor. Eu não imaginei que fossem nos fotografar…

- Não precisa se preocupar. - ele me interrompeu com um gesto de mão. - Bella errou ao esconder isso por tanto tempo, mas não é culpa dela nem sua a mídia ter feito isso. Acredite em mim; eu sei bem como a imprensa pode ser cruel. E eu não queria ver minha própria filha ser vítima disso tudo, principalmente por não conhecer o tal homem das fotos. Você poderia ser um golpista ou alguém querendo me atingir através de Bella, então eu tinha que defendê-la enquanto pudesse.

- Eu entendo, senhor. Mas, posso ser sincero?

- Claro.

- Bella não precisa de proteção. Ela é a pessoa mais forte e decidida que eu já conheci, e é isso que eu mais admiro nela. Bella podia muito bem se esconder nesse castelo até ser coroada rainha, mas escolheu encarar o mundo e viver algo que ela sonhou. O senhor como pai pode só enxergá-la como sua garotinha, que talvez te procurasse quando tinha um pesadelo, mas ela sabe o que quer para sua vida.

- Foi por isso que eu gostei de você. - ele disse sorrindo. - Você não tem medo de ser sincero, mesmo quando conversa com o pai de sua namorada. Você tem sua opiniões e pode não concordar com as minhas, mas de forma respeitosa sabe expressá-las e se mantem firme no que acredita . É alguém assim que eu quero ao lado de Bella quando ela precisar assumir o trono.

- Obrigado, senhor. - falei me sentindo mais aliviado e relaxando mais um pouco. - Eu amo, Bella. Sendo ela herdeira de um trono ou não. E eu estou disposto a fazer parte do mundo dela, mesmo sendo tão louco e diferente do meu mundo.

- Você irá se acostumar, não se preocupe. Renée se acostumou com os anos, principalmente depois do casamento.

- Sobre essa questão do casamento…

- Relaxe. Casem quando vocês quiserem casar. Só não enrole minha filha por 10 anos como eu vejo esses namorados de hoje fazendo.

Ainda era cedo para falar de casamento e tanto Bella quando eu concordávamos com isso, mas era mais que natural o assunto ser levantado agora que éramos um casal público. A partir daquele dia, todos os lugares que fossemos vistos juntos ou entrevistas que Bella daria, a pergunta seria feita; quando vocês irão se casar?

Eu não sabia quando, nem como. A única coisa importante era saber que eu a tinha em minha vida e ninguém ficaria entre nós dois. Era só sobreviver a aquelas duas semanas, em que ela estaria dormindo do outro lado do castelo, e logo estaríamos de volta a Oxford, onde ela dormiria em meus braços todas as noites e eu mal acreditaria que aquela garota incrível adormecida ao meu lado era realmente minha.

Eu era o cara mais sortudo do mundo por ter Bella.