Título: O Pai de Todos os Problemas

Autoria: FireKai

Género: Yaoi, não gosta, não leia.

Casal: Seto Kaiba e Joey Wheeler

Número Total de Capítulos: 3

Aviso: Yu-gi-oh e as suas personagens não me pertencem.

Aviso 2: A história passa-se quando Seto e Joey já têm cerca de vinte anos. Além disso, visto que não encontrei referência a um nome para o pai do Joey, nesta história ele chama-se Jake Wheeler.

Sumário: Yaoi, Seto x Joey. Devido a algo inesperado, Joey e o seu pai acabam por ir viver para a mansão dos irmãos Kaiba. Porém, o pai de Joey não aceita a relação entre Joey e Seto e irá tomar medidas para os separar. Irá o seu plano resultar?

O Pai de Todos os Problemas

Capítulo 1: O Acidente

A chuva abatia-se com força sobre a cidade Dominó. Aliada a ela, o vento e os relâmpagos eram uma constante naquela noite de Inverno. Como passava já da meia-noite, na mansão dos irmãos Kaiba, todos estavam deitados.

Alguns criados estavam deitados nas camas, mas acordados devido ao barulho da tempestade lá fora, Mokuba dormia profundamente no seu quarto e Seto estava também a dormir.

O quarto de Seto, tendo as paredes pintadas de azul-escuro, as cortinas corridas e as janelas fechadas, estava totalmente às escuras. Seto mexeu-se na cama, mas não acordou, apesar do seu sono estar a ser agitado.

Desde que se conseguia lembrar, Seto nunca conseguia dormir durante toda a noite sem acordar. Quando fora adoptado por Gozaburo, Seto acordava à noite, preocupado com Mokuba e ia ao quarto dele ver se estava tudo bem. Gozaburo ameaçava que se Seto não fizesse tudo o que ele queria, algo mau aconteceria a Mokuba, pelo que mesmo de noite, o receio permanecia.

Quando se tornara o presidente da Kaiba Corporation, Seto acordava muitas vezes com ideias sobre o trabalho ou algo que possivelmente se esquecera de fazer. Pegava no telemóvel ou no portátil e tratava de tudo, sacrificando horas de sono.

E agora, uma nova mudança na sua vida por vezes também o fazia acordar de noite. Joey. Desde que começara a namorar com ele e até mesmo antes disso, quando descobrira e aceitara o que sentia pelo outro rapaz, Seto começara a sonhar com ele. Os sonhos nem sempre eram iguais, mas muitas vezes era Joey que surgia neles.

Desde sonhos sem qualquer sentido, a sonhos eróticos, passando por pesadelos em que, de algum modo, Seto perdia Joey de forma definitiva. Naquela noite, era um pesadelo que estava a atormentar Seto. Ouviu-se um estrondo de um trovão na mesma altura em que Seto acordou, algo sobressaltado pelo pesadelo e não pelo trovão. Sentou-se na cama.

Seto respirou fundo algumas vezes. Tinha a testa coberta de suor. Olhou para o relógio que tinha na mesa-de-cabeceira. Eram quase três da manhã. Seto acendeu a luz do candeeiro que estava em cima da mesa-de-cabeceira e deixou-se ficar quieto e pensativo.

"Porque continuo a ter pesadelos como este?" perguntou-se Seto. "Estou com o Joey e está tudo bem entre nós. Será isto uma mensagem do meu subconsciente? Terei medo que ele me deixe? É uma possibilidade, porque nada dura para sempre. Mas não deveria estar a preocupar-me com isso... mas estou. É isso que significa gostar de alguém? Ter medo de perder essa pessoa e preocuparmo-nos com ela? Sim, obviamente que é isso. Se o sinto em relação ao Mokuba, alguém que gosto muito, é normal que o sinta em relação ao Joey."

Seto ficou pensativo durante mais algum tempo. Como todas as relações, a sua relação com Joey tinha altos e baixos, mas na verdade Seto não se sentia minimamente arrependido de estar com o loiro e se ter apaixonado por ele.

"É estranho que agora me apeteça ouvir a voz dele." pensou Seto. "Claro que não lhe posso ligar quase às três da manhã. Isso é ridículo."

Seto ficou a pensar em que Joey o estava a mudar, para melhor, esperava ele. Seto passara a ser uma pessoa que demonstrava mais os seus sentimentos e isso fizera com que ele próprio começasse a pensar mais no que sentia. E agora, sentia a falta de Joey.

"Talvez um dia possamos deitar-nos juntos à noite e acordarmos juntos pela manhã como duas pessoas... normais, com vidas normais." pensou Seto.

Na sua vida, as coisas nunca tinham sido muito normais, mas agora desejava ter um pouco mais de normalidade na sua vida. Tinha dinheiro, saúde, Mokuba era a sua família e agora tinha amor. Apesar de nunca estar efectivamente satisfeito com tudo, pois queria sempre mais e mais, naquele momento Seto podia dizer que estava satisfeito com a sua vida. Um novo ribombar de um trovão foi ouvido e Seto interrompeu os seus pensamentos. Acabou por se levantar da cama e dirigir-se a uma das janelas do quarto. Espreitou para fora da janela, mas apenas conseguia ver chuva a bater no vidro e alguns clarões.

Nesse momento, o telemóvel de Seto começou a tocar. Seto franziu o sobrolho, surpreendido. Quem poderia estar a ligar-lhe a uma hora daquelas? Seto caminhou rapidamente até à sua mesa-de-cabeceira, onde estava o telemóvel e pegou nele. No visor surgia o nome de Yugi. Seto atendeu a chamada, com muita curiosidade.

"Yugi? Porque me estás a ligar a estas horas?" perguntou Seto, num tom neutro.

"Desculpa estar a ligar-te agora. Devo ter-te acordado, mas isto é importante. É sobre o Joey."

"O que se passa?" perguntou Seto. "O que aconteceu?"

"O Joey está no hospital. Soube há alguns minutos. O telhado da casa dele cedeu por causa da chuva, mais precisamente sobre o quarto do Joey. Ele estava a dormir e levou com telhas e bocados do tecto."

"O quê?" perguntou Seto, alarmado. "Mas como é que ele está?"

"Está a ser observado. Foi para o hospital. O pai dele ligou-me a avisar-me e achei que gostarias de saber." disse Yugi. "Vou já sair para ir ao hospital ter com ele."

"Diz-me em que hospital ele está." pediu Seto.

Depois de Yugi lhe dar essa indicação, Seto informou que estaria lá o mais rápido possível. Vestiu-se apressadamente, pegou no telemóvel e na carteira e saiu porta fora. Entrou na garagem e saiu com um dos carros, em direcção ao hospital.

Enquanto Seto conduzia em direcção ao hospital, passando pelas ruas desertas, mas tendo sempre atenção à chuva, que continuava a cair com abundância e aos relâmpagos que passavam pelo céu, ia pensando inevitavelmente em Joey.

"Será que ele está bem? Levar com pedaços do tecto em cima, além de telhas... não, não pode estar bem. Ele é forte, mas não é indestrutível." pensava Seto. "Raios, eu devia ter previsto isto! A casa dele não é muito boa. O prédio já não é novo e não é cuidado. Com um tempo destes, devia ter previsto que algo mau pudesse acontecer ao Joey se permanecesse lá."

Seto sentia-se responsável por não ter tirado Joey daquela casa. Afinal, se quisesse, poderia ter convidado o loiro para ir morar com ele na mansão. Espaço era algo que não faltava. Mas Seto não o fizera. Nunca tinham realmente falado a sério do assunto, porque Joey dissera que o pai precisava dele. Seto lembrava-se claramente das palavras.

"O meu pai precisa de mim perto dele." dissera-lhe Joey. "Ele está a tentar recuperar do vício da bebida e se não estiver ninguém a olhar por ele, pode ter uma recaída. Portanto, eu ficarei de olho nele, para o ajudar no que precisar. Um dia... no futuro, quando ele estiver bem, então poderei seguir com a minha vida numa casa minha."

Mas agora Seto arrependia-se de não o ter convidado para ir viver com ele. Deveria ter convidado Joey e insistido com ele até ele aceitar ou então comprado uma outra casa para Joey e o seu pai morarem, já que dinheiro não faltava a Seto.

"Ele vai ficar bem, com certeza." pensou Seto, tentando ser mais optimista. "Eu irei contratar todos os médicos que forem precisos para o curarem e vou arranjar-lhe uma casa nova ou convidá-lo para vir viver comigo. Farei de tudo."

Seto acelerou, com pressa de chegar ao hospital. Virou para a direita e o carro passou por uma grande quantidade de água. De repente, Seto perdeu controlo do carro e apesar de o ter tentado controlar, o carro embateu num poste de electricidade. Seto foi atirado para a frente e embateu com a cabeça no volante. Os air-bags abriram-se de seguida. Seto desmaiou.

O Pai de Todos os Problemas

"Mas quando é que ele vai acordar afinal?" perguntou uma voz. "Quer dizer, ele vai ficar bem, certo? Não deveria ter acordado já? Será que vai ficar com alguma sequela?"

"Tenha calma. Tudo ficará bem. E deveria estar a descansar e não a enervar-se." disse uma segunda voz, mais calma e profissional.

Seto abriu lentamente os olhos. Piscou-os algumas vezes e olhou à sua volta, sem levantar a cabeça da almofada. Estava deitado numa cama e soube de imediato que estava no hospital. Um quadro na parede alertava para o risco de uma doença, tudo era branco e a cama era muito desconfortável. E ele lembrava-se do seu carro ter embatido num poste.

"Oh, ele está com os olhos abertos!" exclamou a primeira voz que Seto ouvira.

Seto virou ligeiramente a cabeça. Joey aproximou-se, amparado numa canadiana. A parte inferior da perna esquerda estava enfaixada e Joey apresentava um curativo na testa. Logo atrás de Joey vinha um médico idoso e de cabelo cinzento.

"Seto! Estou muito aliviado por teres recuperado a consciência! Pregaste-me um grande susto." disse Joey.

"Eu? Tu é que me pregaste um susto! O Yugi ligou-me a dizer o que acontecera." disse Seto, sentando-se na cama. Sentia uma ligeira dor na cabeça, mas ignorou-a. "Fiquei preocupado e vim para aqui e..."

"E tiveste um acidente." concluiu Joey. "Perdeste os sentidos. Uma mulher que passou mais tarde por ali de carro chamou a ambulância e trouxeram-te para cá. Eu não tenho nada de grave, mas fiquei super preocupado contigo."

"Tenham calma, os dois." pediu o médico. "Senhor Wheeler, tem de descansar. Tem a perna magoada e a cabeça e o peito também."

"Isto não é nada, doutor. Eu recupero rapidamente." disse Joey.

O médico abanou a cabeça, sem se mostrar muito entusiasmado para não influenciar Joey a exceder-se. A verdade é que ele tivera muita sorte e não fora atingido em nenhuma zona vital. Era jovem e iria recuperar bem, com certeza. O médico focou toda a sua atenção em Seto de seguida.

"Senhor Kaiba, bateu com a cabeça e vamos ter de lhe fazer mais exames, mas de resto parece estar bem." disse o médico. "Vou avisar que já acordou. Daqui a dez minutos vêm buscá-lo para os exames."

O médico saiu rapidamente do quarto, que não era muito grande e tinha apenas uma cama, duas cadeiras, uma janela que estava fechada e uma televisão presa num canto de uma parede. Joey puxou uma cadeira para perto da cama e sentou-se.

"Quanto tempo estive desmaiado?" perguntou Seto.

"Vinte minutos, desde que chegaste ao hospital." respondeu Joey. "Trouxeram-te para aqui porque sabem quem és, senão ainda te punham no corredor ou numa ala cheia de gente. Enfim, ter dinheiro e fama é sempre benéfico."

"Nem sempre." disse Seto. "E tu, estás mesmo bem? Tens a perna ligada e..."

"E vou recuperar bem, não te preocupes. O mesmo já não se pode dizer da minha casa, claro." disse Joey. "Ficou em muito mau estado."

"Pois então vens viver para a mansão." disse Seto.

"O quê? Não, nem pensar."

"Sim. Vens viver comigo. Afinal, não tens onde ficar."

"Mas o meu pai..."

"Ele pode vir para a mansão também."

"A sério?" perguntou Joey, surpreendido.

Seto acenou afirmativamente. Não gostava especialmente do pai de Joey, mas era isso ou Joey não aceitaria ir para a mansão e deixar o pai para trás. Naquele momento, Seto queria Joey o mais perto possível de si.

"Eu vou falar com o meu pai e ver o que ele diz." disse Joey.

Pouco depois, vieram buscar Seto para fazer exames. Ele fê-los e depois disso Joey disse que convencera o seu pai a irem passar uns tempos na mansão, até a casa deles estar recuperada do que acontecera.

"Óptimo. Assim terei o Joey perto de mim." pensou Seto. "Agora vamos ver se não terei problemas com o pai dele. Afinal, ele não aceitou muito bem o facto de estarmos juntos."

Foi dada alta a Seto depois dos resultados dos exames terem sido revelados. Seto juntou-se a Joey, ao pai de Joey, Jake Wheeler, Yugi e ao avô de Yugi à porta do hospital.

Yugi e o seu avô tinham ido para o hospital por causa de Joey e o pai de Joey também. Seto já tratara de fazer ligações para que o seu carro fosse recolhido e arranjado, pois deveria ter ficado em mau estado depois do acidente.

"Bom, mais um par de horas e já vai ser dia." disse o pai de Joey. "Eu quero ir ver o que se aproveita do conteúdo do apartamento."

"Eu posso arranjar alguém para o levar lá. Acho melhor o Joey ir directamente para a minha mansão." disse Seto.

Jake Wheeler concordou que o filho fosse levado para a mansão, mas dispensou a ajuda de Seto. Na verdade, não gostava de Seto, nem da relação que o filho tinha com ele, mas aquele não era o melhor momento para isso ser discutido.

A chuva tinha finalmente parado, o vento ainda se fazia sentir mas com menos intensidade e a trovada desaparecera. Seto fez uma nova chamada e um dos seus motoristas indicou que ia já a caminho do hospital, para o ir buscar.

"Ficamos mais aliviados que vocês os dois estejam bem." disse Yugi, olhando para Joey e depois para Seto. "Já era mau terem caído bocados do tecto e telhas sobre o Joey, quanto mais teres tido também um acidente, Kaiba."

"Aconteceu. Devia ter tido mais cuidado a conduzir até aqui ao hospital, mas não tive e o carro derrapou." disse Seto. "Não voltará a acontecer."

"Eu espero bem que não, se não queres que eu tenha algum ataque por estar preocupado contigo. Podias ter morrido, Seto." disse Joey.

Seto abanou a cabeça. Pouco depois, o motorista chegou. Joey e Seto despediram-se de Jake, Yugi e do seu avô e entraram na limusina, rumo à mansão dos irmãos Kaiba.

O Pai de Todos os Problemas

Seto e Joey entraram pela porta da frente da mansão. Lá fora ainda estava tudo escuro.

"Visto que estás a usar uma canadiana, será melhor que fiques num quarto aqui no rés-do-chão." disse Seto. "Para não teres de subir as escadas, se bem que eu gostaria que pudesses ficar no meu quarto, comigo."

"Eu não me importo de subir as escadas."

"Não, não. Temos de pensar na tua saúde. Eu tenho apenas um arranhão na cabeça, mas tu estás magoado na perna e não só." disse Seto. "Anda, vou levar-te ao quarto."

Joey mostrou-se algo desapontado. Também gostava bastante da ideia de pode alojar-se no quarto de Seto e assim dormiram os dois na mesma cama. Depois do que acontecera naquela noite, Joey não se importava minimamente de receber alguns mimos e dormir junto da pessoa de quem gostava.

Os dois caminharam até um quarto situado na ala esquerda da mansão. Seto abriu a porta e acendeu a luz do quarto e entraram. O quarto era amplo, decorado em tons de verde, com duas grandes janelas e uma cama que Joey, apenas com um olhar, avaliou como sendo bastante confortável.

"Pronto, vais ficar aqui e descansar, que é o que precisas e o médico referiu isso várias vezes." disse Seto.

"Ele disse que tu também tens de descansar pelo menos um dia." disse Joey. "Portanto, vê se tens descanso da Kaiba Corporation pelo menos no dia de hoje."

Seto abanou a cabeça, em assentimento. Não estava preocupado consigo, mas visto que Joey estava magoado, planeava ficar a trabalhar na mansão no corrente dia, para poder estar por perto. Seto ajudou Joey a chegar à cama, apesar de Joey lhe ter lançado um olhar aborrecido.

"Ei, eu não estou inválido, ok? Também não é preciso estares praticamente a segurar-me a cada passo." disse ele.

"Ora, eu só queria ajudar. Que ingrato, Wheeler."

"Porque é que me estás a chamar Wheeler, agora? Eu agradeço a preocupação mas não é preciso."

"Então da próxima vez que quase morreres, não vou a correr para o hospital."

Os dois entreolharam-se e depois Joey começou a rir-se e Seto acabou por sorrir um pouco também. Como sempre, tinham por vezes alturas em que se irritavam um com o outro, mas naquela altura, com tudo o que se passara, uma discussão sem sentido não deveria estar a ter lugar.

"Desculpa Seto." disse Joey. "Preocupa-te à vontade, era o que eu deveria ter dito. Aliás, devia estar contente por o fazeres. Dantes não demonstravas isso."

"Demonstrava, mas só quanto ao Mokuba. Agora tenho mais alguém merece que eu me preocupe." disse Seto.

Seto puxou Joey pela cintura e os dois beijaram-se uma e outra vez, parando depois para recuperar o fôlego. Joey sorriu por ver que Seto estava a tomar iniciativa de o beijar e se preocupava com ele. Anteriormente não era de todo assim, mas em todo o caso Joey tinha-se apaixonado pelo antigo Seto. O novo Seto era ainda melhor.

"Espera aqui. Eu vou ao meu quarto buscar um pijama para ti." disse Seto.

"Ai sim? E depois vais ajudar-me a despir, não é?" perguntou Joey, piscando o olho a Seto.

"Pensei que não precisavas de ajuda, não é?" perguntou Seto, abanando a cabeça. "Mas posso ajudar-te a despir, a vestir o pijama e depois vais dormir. Precisas de descansar."

"Mas antes de dormir..."

"Antes de dormir não vai acontecer nada. Não é que na realidade não me apeteça saltar para cima de ti, tirar-te as roupas e fazer amor contigo, mas não estás em condições para isso. E nem vale a pena discutires. Põe-te bom depressa e depois sim."

Joey não pareceu muito satisfeito com aquela resposta, mas sabia que Seto tinha razão e estava apenas preocupado com a sua saúde. Seto saiu do quarto e voltou pouco depois com um pijama azul. Ajudou Joey a despir-se e Joey conteve-se para não se atirar a ele. Depois, deitou-se na cama e Seto puxou-lhe os cobertores para o aconchegar.

"Parece que tenho boas razões para me recuperar depressa." disse Joey, lançando um olhar significativo a Seto.

"Claro que tens." disse Seto. "Bom, agora vou deixar-te descansar."

Seto deu um beijo rápido a Joey e caminhou para a porta do quarto, mas Joey chamou-o. Seto virou-o para o encarar.

"Sim, Joey?"

"Podes ficar comigo, aqui? Prometo que não tenho segundas intenções, mas não teria mal dormirmos na mesma cama, pois não? É só isso e prometo que não tento mais nada."

Seto hesitou, mas pouco depois tinha-se descalçado e com a mesma roupa que trouxera da sua saída, deitou-se ao lado de Joey. Joey passou-lhe um braço pela cintura e adormeceu quase de imediato. Seto passou-lhe uma mão pelos cabelos.

"Há algum tempo, isto ter-me-ia parecido muito descabido, quase impossível de acontecer. Estar assim com alguém." pensou Seto. "Mas ainda bem que agora conheço outras facetas da vida, tenho outras ideias e sei o que estava a perder e o que tenho agora."

Pouco depois, também Seto tinha adormecido.

O Pai de Todos os Problemas

Seto acordou de repente, com o barulho de uma porta a abrir-se de rompante e a voz de Mokuba.

"Seto, afinal estás aqui!"

Seto abriu os olhos e sentou-se na cama. Mokuba estava perto da cama, de pé, parecendo preocupado. Seto olhou para o seu relógio de pulso e verificou que eram dez da manhã. Joey continuava deitado e parecia dormir profundamente.

"Mokuba, o que se passa?" perguntou Seto.

"O que se passa? Acabei de saber pelo motorista que te foi buscar ao hospital, que tiveste um acidente de carro e que tinhas vindo para a mansão com o Joey, que estava magoado." respondeu Mokuba. "Fiquei bastante preocupado e andei imenso tempo à tua procura na mansão, porque não estavas no teu quarto e nem atendeste o telemóvel."

"Deve ter ficado desligado ou sem bateria." disse Seto, levantando-se depois da cama. "Mas vamos sair daqui. O Joey tem de descansar."

Os dois irmãos saíram do quarto, fechando a porta atrás de si. Mokuba sugeriu que falassem enquanto tomavam o pequeno-almoço, pelo que se dirigiram à sala de jantar e se sentaram. O mordomo e uma empregada serviram-lhes o pequeno-almoço, sem mencionarem ou questionarem o porquê de Seto ter uma pequena cicatriz na testa.

Seto contou ao irmão o que se tinha passado com Joey, o que se passara com ele próprio quando fora para o hospital e também o que se seguira depois. Mokuba ouviu tudo atentamente e abanou a cabeça.

"Devias ter conduzido mais devagar e com mais cuidado, Seto. Mas ainda bem que não foi nada demais. O carro arranja-se mas se tivesses ficado muito magoado é que teria sido muito mau." disse ele. "E quanto ao Joey, ainda bem que o convidaste a vir para cá. Ele precisa de descanso e aqui terá todo o conforto para se recuperar."

"Exactamente." disse Seto. "Ainda bem que estás de acordo."

Mokuba acenou afirmativamente. Gostava de Joey, que era sempre divertido e engraçado e visto que Joey fazia Seto feliz, Mokuba não tinha qualquer tipo de oposição quanto a eles estarem juntos também.

"Mas Seto, não sei se terá sido boa ideia teres convidado o pai do Joey para vir para cá." disse Mokuba, algo preocupado. "Talvez pagar-lhe um quarto de hotel para ele se hospedar lá, mas vir para a mansão é algo... complicado."

Seto sabia perfeitamente a que é que Mokuba se referia. Com o pai de Joey a viver ali, as coisas seriam difíceis, já que Jake Wheeler não apreciava que Joey e Seto namorassem, apesar de inicialmente ter sido pior. Joey afirmava que o pai já tinha aceitado a relação, mas Seto conhecia bem as pessoas e o pai de Joey apenas fingia ter aceitado o relacionamento entre Joey e Seto.

"Esperemos que o pai do Joey se saiba comportar. Afinal, vai estar aqui como hóspede, portanto o mínimo que espero é um pouco de cortesia da sua parte." disse Seto. "Mesmo que ele não goste da ideia de eu e o Joey estarmos juntos, é um facto, portanto já teve bastante tempo para assimilar a ideia e agora vai lidar com ela."

"Lidar com a vossa relação à distância é uma coisa, mas lidar com ela vivendo aqui e vendo-vos juntos todos os dias é outra bastante diferente." disse Mokuba, mas depois tentou ser mais optimista. "Mas talvez estejamos a ser demasiado pessimistas. Pode até correr tudo pelo melhor e quando o apartamento deles estiver bom, o pai do Joey já não terá de ficar aqui."

Seto acenou afirmativamente e de seguida pensou, depois do apartamento estar novamente reparado, se conseguiria ou não convencer Joey a ficar a viver ali na mansão, permanentemente, sem o seu pai por perto. Pelo menos, agora Seto iria tentar.

O Pai de Todos os Problemas

"Joey, acorda. Vá, acorda. Tens de comer alguma coisa, para poderes tomar a medicação e depois podes voltar a dormir se quiseres."

Joey acordou lentamente. Abriu os olhos, tentando perceber onde estava. Depois lembrou-se do que se passara na sua casa e sentou-se na cama, sentindo o corpo dorido e a perna a latejar. Perto dele, de pé, estava Seto, com uma bandeja na mão.

"Tenho aqui o teu pequeno-almoço ou almoço adiantado." disse ele, colocando a bandeja com comida em cima do colo de Joey. "Tens de te alimentar e tomares os comprimidos receitados pelo médico. Um empregado meu foi buscá-los à farmácia há pouco."

"Seto, que horas são?" perguntou Joey.

"É quase meio-dia e meia." respondeu Seto, abanando a cabeça. "Agora, come."

Joey não precisou que lhe dissessem isso uma segunda vez, porque nunca lhe faltava o apetite. Comeu o pequeno-almoço num ápice.

"Estava muito bom." disse Joey, satisfeito.

Seto pegou novamente na bandeja e passou a Joey dois comprimidos e uma pequena garrafa de água. Joey tomou os comprimidos e depois Seto disse-lhe que deveria descansar mais um pouco.

"Então acho que vou dormir mais uns minutos." disse Joey. "Seto, tenho de te dizer que fico mesmo contente por te estares a preocupar comigo."

"Obviamente que iria estar. Quer dizer, não quero que te aconteça nada de mal."

Joey sorriu-lhe, apesar de ainda estar com algumas dores. Seto tinha mudado devido ao relacionamento dos dois e a sua convivência e ele, Joey, também mudara, aprendendo a ser mais cordial e menos irracional e precipitado.

"E o meu pai? Já apareceu?" perguntou Joey. "Queria saber notícias do apartamento."

"Agora está na hora de tu descansares. O teu pai ainda não apareceu, mas não há-de demorar muito. Depois de dormires mais um pouco, ele próprio fala contigo, está bem?"

Joey acenou afirmativamente, deitando-se novamente na cama e fechando os olhos. Seto saiu do quarto, levando a bandeja consigo. O mordomo estava à espera fora do quarto e tirou-lhe a bandeja das mãos com cortesia.

"Senhor Kaiba, o pai do senhor Wheeler chegou há cerca de dois minutos." anunciou ele. "Tomei a liberdade de o deixar na sala de estar, sentando confortavelmente no sofá."

"Fizeste bem. Irei ter com ele agora."

O mordomo fez uma vénia e retirou-se, enquanto Seto se dirigia à sala de estar. Como tudo na mansão, a sala de estar era requintada e tinha decoração de muito bom gosto. Seto entrou lá e o pai de Joey levantou-se do sofá e foi até ele.

"Kaiba, como é que está o meu filho?" perguntou Jake, num tom sério.

"Ele está bem. Já comeu, tomou a medicação e neste momento deve estar adormecer." respondeu Seto. "E o vosso apartamento?"

"Está em mau estado. Choveu bastante. O quarto do Joey é o que está pior, mas a água chegou a todo o apartamento. Temos a mobília destruída e vão ser necessárias remodelações."

"Então, permita-me ajudá-lo. Tenho muitos conhecimentos e de certo que vou conseguir arranjar pessoas competentes para fazerem o trabalho bem feito e o mais rápido possível." disse Seto. "Não tem de se preocupar. Eu tratarei de tudo, sem qualquer custo para si."

Apesar da oferta ser generosa, Jake Wheeler, sendo uma pessoa orgulhosa, não a viu dessa maneira. Abanou negativamente a cabeça.

"Nem pensar. Não vou deixar que pague pelas obras da minha casa. Temos seguro e mesmo que não tivéssemos, não lhe iria pedir nada a si." disse Jake. "Já basta não ter onde ficar e portanto ter de vir para aqui."

"Não é vergonha nenhuma pedir ajuda quando necessitamos dela."

"Não me venha com esse tipo de conversa. Se estivesse na minha situação, duvido que tivesse uma atitude diferente da minha."

Seto não respondeu. Pensou realmente na situação, se fosse o inverso. Seto nunca gostara de ser olhado pelos outros como um coitadinho e não pedia ajuda às pessoas, porque queria fazer tudo por si próprio. Pensou que, provavelmente, iria reagir como Jake, fazendo-se de forte e querendo arranjar soluções sem ter de depender de ajuda dos outros.

"Bom, deixemos esse assunto de lado. Vou chamar uma das minhas empregadas para lhe mostrar onde vai ficar instalado." disse Seto, caminhando para a porta.

"Espere, Kaiba." pediu Jake. Seto virou-se para o encarar. "Temos de conversar e visto que o Joey não está aqui para nos ouvir, é a melhor altura."

Seto acenou afirmativamente. Claro que teria de haver "A Conversa". Já esperara por isso, mas pensara que poderia adiá-la um pouco mais. Pelos vistos, não podia.

"Estamos na sua casa e portanto tenho de me sujeitar a algumas situações que não são do meu agrado, mas de qualquer das maneiras, você sabe bem como é que eu me sinto sobre o facto de você e o meu filho estarem... juntos." disse Jake.

"Sim, sei. Não lhe posso pedir que esteja contente por nós, porque sei que isso é impossível, mas eu e o Joey já namoramos há vários meses e você soube disso quando lhe dissemos em pessoa. Não aceitou muito bem a princípio, mas pelo que o Joey me tem sempre dito, parece que aceitou a situação. Claro que é isso que ele pensa. Nós sabemos que não é assim."

Jake começou andar de um lado para o outro da sala, enquanto Seto o ia seguindo com o olhar.

"Sim, é verdade que tive de aceitar a situação. Não valia a pena impor-me contra o Joey. Sei como ele é e sei o que você tem. Uma mansão enorme, riqueza e tudo o mais. Bastava zangar-me com o meu filho e ele vinha a correr para aqui." disse Jake. "Não o queria perder, portanto tive de dizer que aceitava a situação. Mas na verdade não acho certo o que vocês andam a fazer."

"Desculpe? Ao que andamos a fazer?"

"Ao facto de namorarem. Vocês são dois rapazes. Deviam andar atrás do sexo oposto e não andarem enrolados um com o outro." disse Jake. "Pensei que esta fase ia passar e o Joey acabaria por se interessar por alguma jovem bonita, mas parece que vocês não se separam."

"Obviamente que não. Porque é que eu e o Joey nos iríamos separar se gostamos um do outro e estamos bem? Não faria qualquer sentido."

"Mas são do mesmo sexo!"

"E daí? Estamos bem os dois e é apenas isso que importa. Eu não quero saber o que as outras pessoas pensam ou deixam de pensar."

"Mas é uma desgraça para mim!" exclamou Jake. "Sou olhado de lado pelos meus vizinhos e há amigos meus que deixaram de me falar depois de saberem que o Joey anda metido com um homem."

"Então, se realmente deixaram de lhe falar, é porque não eram grandes amigos."

Jake cerrou os punhos, zangado e parou de andar. Seto manteve-se direito e de cabeça erguida.

"Estás a ser insolente, rapaz." rosnou Jake.

"Estou a ser verdadeiro. Portanto, é assim, o Joey gosta muito de si, apesar de tudo o que já lhe fez. Eu sei que lhe batia quando ficava bêbado, o que acontecia muitas vezes. E arranjou dividas. Mas o Joey sempre esteve ao seu lado." disse Seto. "O seu filho deve ser a sua prioridade. Ele quer vê-lo bem e está do seu lado, portanto, deveria aceitar as decisões do Joey, já que é assim que ele é feliz."

Jake hesitou, mas depois voltou à carga.

"Não é assim que ele vai ser feliz. Ele também é discriminado, não sou só eu. Mas tenta manter a fachada de que está contente. Isso é tudo mentira." disse Jake. "A seu tempo, ainda vão ver que eu tenho razão."

"Isso, com o tempo se verá. Agora, por favor, não aborreça o Joey com esse tipo de conversas. Ele precisa de descanso." disse Seto. "Vou chamar a empregada para o acompanhar ao quarto."

Seto saiu da sala de estar, enquanto Jake ficava pensativo. Gostava bastante do filho e queria o melhor para ele, mas Jake estava convencido que Seto não seria o melhor para Joey.

"Agora que estamos aqui, temporariamente, será boa altura para mostrar ao Joey que o Kaiba não é a melhor escolha para o seu futuro." pensou Jake. "É isso mesmo. Só tenho de arranjar maneira de lhe mostrar isso."

Continua…