Capítulo 2: Reacções

Mais tarde, Jake foi ver o filho ao quarto onde Joey estava agora instalado. Mokuba tinha levado a Joey um computador portátil e Joey acabara por se divertir a fazer duelos on-line até o pai aparecer. Jake quis saber como estava o filho e depois falou-lhe das obras que iam ser necessárias na casa.

"Mas tudo se há-de arranjar." disse Jake.

"Espero que sim. De qualquer maneira, pelo menos podemos ficar aqui e não temos de dormir na rua ou alugar um quarto nalgum lado."

"Sim, sim, isso realmente é uma coisa boa." disse Jake, mas sem grande entusiasmo na voz. "Se bem que não me sinto totalmente confortável com esta situação."

"Pai, eu percebo o que queres dizer com isso, mas o Seto foi muito simpático por nos deixar cá ficar e peço-te que tenhas paciência. Tu aceitaste a nossa relação e sabes que eu e o Seto gostamos um do outro."

"Eu sei, mas vocês são muito diferentes um do outro. O vosso mundo não tem nada a ver. O Kaiba é rico, tem esta mansão, uma empresa e tu não tens isso." disse Jake, abanando a cabeça. "E vocês são do mesmo sexo. Já pensaste bem nas consequências que isto vai ter no teu futuro?"

Joey suspirou, abanando a cabeça de seguida.

"Eu sei que as coisas não serão fáceis, mas fui eu que escolhi estar com o Seto. Com ele, posso enfrentar tudo. E sim, somos diferentes, temos vidas diferentes e tudo o mais, mas funcionamos bem juntos."

"E queres realmente alguém como ele como teu namorado? Sabes bem a fama que o Kaiba tem. Frio, sério, temido. Além de que anda sempre de um lado para o outro, a viajar. Eu bem sei que há semanas em que nem o vês e não preciso que mo digas, porque se vê quando ele está fora, pelo teu olhar e a maneira como andas mais triste."

"Pai... eu gostava realmente que o Seto não tivesse de viajar tanto, mas tem a ver com o trabalho dele. A empresa é importante e o Seto tem muitas obrigações. Eu compreendo isso e aceito. E quanto ao que dizem dele, não importa." disse Joey. "Não importa nada. Eu sei como ele é. Foi assim, frio, sério com quase todos, menos o Mokuba, mas ele agora está mudado. Não totalmente, nem eu queria que assim fosse, mas ele está diferente. Aliás, eu também estou diferente. Agora pai, por favor, não vamos falar mais disto. Eu gosto do Seto e não quero separar-me dele, porque é junto dele que estou bem."

O Pai de Todos os Problemas

Na manhã do dia seguinte, Seto saiu cedo para ir trabalhar. Visto que sabia que teria de sair cedo, dormiu no seu quarto e não junto de Joey, para não o acordar quando saísse. Uma empregada levou o pequeno-almoço de Joey ao quarto, enquanto que Jake e Mokuba o tomaram na sala de jantar.

Jake ficara espantado com a quantidade de comida na mesa. Pensava que uns tinham tanto e outros tão pouco. Ele e Mokuba não estavam a falar muito, porque nem sabiam bem o que dizer um ao outro. Então, Jake teve a ideia de falar com Mokuba sobre a relação de Seto e Joey. Se o conseguisse convencer de que Joey e Seto não pertenciam juntos, teria um aliado.

"Tenho de te perguntar uma coisa." disse Jake, encarando Mokuba, que estava sentado do outro lado da mesa. "Como é que tu encaras a relação do teu irmão com o meu filho?"

"Bom, eles gostam um do outro e portanto ainda bem que estão juntos."

"Pensas mesmo assim?" perguntou Jake. "Quer dizer, não achas estranho o teu irmão estar a namorar com outro rapaz?"

"Mais ou menos. Mas também não é uma coisa assim tão rara, uma relação entre duas pessoas do mesmo sexo." disse Mokuba. "Eu não me importo se o Seto está a namorar um homem ou uma mulher, desde que esteja feliz."

"Mas o teu irmão é famoso e rico. Tu também és conhecido. Na escola, de certeza que terias problemas por causa disto. Sabes como as pessoas são..."

"Ah, não fariam nada. O Seto contratava logo uns seguranças para baterem em quem quer que fosse que me aborrecesse." disse Mokuba. "Mas porque é que me está a perguntar isto? Que eu saiba, aceitou a relação do Joey e do Seto, não é?"

"Pois, sim, aceitei."

"Óptimo. Eu adoro o meu irmão e ele tem mudado, graças ao Joey. Agora está mais solto, mais alegre e já nem me lembrava há quanto tempo não via o meu irmão assim. Espero que assim continue."

Jake não disse mais nada, pois ficara claro de que lado é que Mokuba estava. Depois do pequeno-almoço, Jake saiu da mansão, pois tinha de ir trabalhar. Estava agora a trabalhar numa fábrica e já faltara no dia anterior, pelo que não o poderia fazer novamente ou poderia ser despedido.

Enquanto se encaminhava pelos jardins da mansão, ia pensando. Joey e Seto estavam juntos há vários meses, mas sempre tinham mantido a relação em segredo, excepto para algumas pessoas, como Jake, Serenity, Mokuba e os amigos de Joey.

"Não me agrada ter de fazer isto ao meu próprio filho." pensou Jake. "Mas é a única solução de que me está a ocorrer e será bastante definitiva, com certeza."

E assim, Jake já sabia o que iria fazer mais tarde naquele dia e que iria mudar muita coisa.

O Pai de Todos os Problemas

À hora do almoço, Seto regressou à mansão. Não costumava almoçar na mansão, pois tinha sempre imensas coisas que fazer na Kaiba Corporation e costumava ter um almoço rápido e voltar ao trabalho. Contudo, já que Joey estava na mansão, decidiu que o trabalho poderia esperar um pouco e que iria almoçar com ele.

Já ligara ao mordomo a avisar e quando chegou à mansão, o almoço estava pronto. Quando Seto entrou no quarto de Joey, ele estava deitado na cama, a jogar novamente no portátil, mas já não parecia tão satisfeito como no dia anterior. Porém, ao ver Seto chegar, um sorriso iluminou-lhe o rosto.

"Seto! O que estás aqui a fazer? Pensei que só ias voltar mas para o final da tarde." disse Joey.

"Decidi que iria almoçar contigo." disse Seto, fazendo sinal ao mordomo, que ficara à porta. "E portanto, aqui estou eu."

Pouco depois, duas empregadas trouxeram dois tabuleiros com o almoço. Uma colocou o tabuleiro em cima do colo de Joey, que colocara o portátil de lado e a outra colocou o segundo tabuleiro em cima de uma secretária que havia ao canto do quarto. Depois, retiraram-se. Seto sentou-se numa cadeira em frente à secretária e os dois começaram a comer.

"Fico contente por teres vindo almoçar comigo. Já estou aborrecido de estar aqui deitado o dia todo. Quer dizer, não estou inválido nem nada assim." queixou-se Joey.

"Mas tens de descansar, pelo menos mais hoje. Amanhã já podes sair da cama. Mas sabes que não deves andar a esforçar a perna."

"Para isso é que tenho uma canadiana, para me apoiar." disse Joey. "Agora, estar fechado o dia todo neste quarto é um grande aborrecimento."

"Vá lá, não te queixes. Pareces uma menina." disse Seto, lançando um sorriso trocista a Joey.

Joey estreitou de imediato os olhos e depois acabou por se rir.

"Seto, não me faças levantar da cama e ir aí dar-te com a canadiana na cabeça." ameaçou Joey.

"Como se tivesses coragem."

"E tenho sim. Queres apostar?"

"É melhor não. Afinal, já tive coisas suficientes a acontecer com a minha cabeça, não preciso de mais."

"Está bem então, mas não voltes a meter-te comigo, senão já sabes o que acontece." disse Joey, apesar de não estar a falar a sério, pois nunca iria agredir Seto a não ser nalguma situação extrema, por algum motivo muito sério. "Dou cabo de ti."

"Hum, ai sim? É nestas alturas que eu fico a pensar porque é que me apaixonei por ti."

"Mas a essa pergunta tem uma resposta muito fácil. Apaixonaste-te porque obviamente que eu sou uma óptima pessoa, muito interessante, sou divertido, já para não falar que entre os lençóis nos entendemos muito bem."

Seto abanou a cabeça, em assentimento. Já parecia que ele e Joey estavam juntos há uma eternidade, mas apesar disso não se sentia minimamente cansado de Joey. Quando tinham realmente começado a relação, Seto temera que acabasse por se cansar de Joey e que o relacionamento acabasse da pior maneira.

Depois de terminarem de comer, Seto chamou o mordomo, que prontamente invocou duas criadas para recolherem os tabuleiros e de seguida saíram do quarto, deixando Seto e Joey a sós.

"Tenho de ir agora." disse Seto, de pé, junto da cama de Joey. "A Kaiba Corportation não pára e tenho uma reunião daqui a meia hora."

"Pronto, vai lá. Não vale a pena estar a pedir-te para ficares, porque sei que tens obrigações." disse Joey. "Mas quero algo em troca da minha grande compreensão para contigo."

"Queres algo? Muito bem. Posso comprar-te o que quiseres."

"Não quero que me compres nada. Sabes que eu nem gosto que me andes a dar presentes. Eu não tenho muito dinheiro para te dar presentes a ti e não é justo, lá por tu seres rico, que me compres coisas e eu não te possa dar grande coisa de volta."

Seto sabia. Conseguia contar com os dedos de uma mão as vezes em que comprara algo para Joey ou que ele lhe pedira. E nem teria de usar todos os dedos da mão para chegar ao número correcto. Se havia algo que Seto sabia, além de que Joey o amava, era que não estava minimamente interessado no seu dinheiro.

"O que quero é que me prometas que hoje vais dormir comigo." disse Joey. "Seja aqui ou no teu quarto, nem que eu tenha de subir as escadas todas para lá chegar."

"Joey..."

"Não me venhas com a conversa de que tenho de descansar e blá blá blá. Não vou ceder, ouviste?"

Perante aquilo, Seto acabou por dizer que aceitava porque afinal era também o que Seto queria. Depois daquele ponto estar assente, Seto deu um beijo rápido a Joey e foi embora. Joey recostou-se numa almofada, ficando pensativo.

"Estar aqui na mansão, perto do Seto, está a ser óptimo tirando o facto do que me aconteceu, claro." pensou ele. "Sinto o Seto ainda mais próximo de mim. Há uns meses, eu nunca pensaria que passaria aqui uns dias. Ou que estaria a namorar com o Seto. Isto é a prova de que nada é certo na vida. Tanto pode estar tudo de uma maneira, como de repente tudo muda."

O Pai de Todos os Problemas

Passava pouco das cinco da tarde quando Jake saiu do seu emprego. Passou por uma banca de jornais e escolheu com minúcia que jornal ia comprar. Depois, foi até a uma cabina telefónica e fez a chamada que andara a planear durante todo o dia.

"É do jornal J Dominó News? Eu estou a ligar para revelar algo bastante interessante." disse Jake.

"Com quem estou a falar?" perguntou a voz de uma jovem, do outro lado da linha.

"Não importa. Oiça, eu sei por um facto e é uma certeza e não um rumor, que o empresário Seto Kaiba, presidente da Kaiba Corportation, anda envolvido com um rapaz."

Do outro lado da linha, não houve resposta durante uns segundos.

"Você tem a certeza do que está a dizer? Ou isto é alguma brincadeira?"

"Não é brincadeira alguma, asseguro-lhe. O rapaz chama-se Joey Wheeler. Ele já participou nalguns torneios de duelos e é amigo do Rei dos Jogos, o Yugi Muto. Se não acredita em mim, então investigue porque o Joey, o meu filh… quer dizer, o rapaz, está neste momento a viver na mansão do Seto Kaiba e a relação já se mantém há algum tempo. Com certeza que, se pagarem bem, um dos empregados da mansão lhes dará mais pormenores."

De seguida, Jake desligou a chamada. Tinha a certeza que no jornal iriam investigar aquela história de imediato e iriam chegar a conclusões. Jake começou a caminhar em direcção à mansão.

"Fiz isto pelo Joey. Agora, a imprensa vai publicar uma notícia e toda a gente saberá que o Kaiba e o Joey estão juntos. E então, vão ver como é que as coisas são realmente." pensou Jake. "Tenho a certeza que a relação deles vai ficar abalada e poderá chegar a um fim. Esta notícia vai trazer muitas consequências. Quase me descaí ao dizer o meu filho, mas a pessoa com quem eu estava a falar não deve ter reparado."

O Pai de Todos os Problemas

Depois da chamada de Jake Wheeler para o jornal, o jornal destacou logo algumas pessoas para investigarem a história. Afinal, Seto era bastante conhecido e dono de uma empresa muito importante, cujos negócios se expandiam por todo o mundo, pelo que uma notícia bombástica seria algo muito bom para o jornal.

Por uma quantia generosa, um dos empregados da mansão, em segredo, contou a um jornalista que efectivamente Seto e Joey namoravam, mas Seto tinha proibido os empregados de divulgarem a situação, sob pena de serem despedidos.

Com informações do empregado, o jornalista foi ainda ao hospital recolher outros dados, enquanto um outro jornalista investigava informação sobre Joey, junto de vizinhos que viviam ao pé do apartamento de Joey e do seu pai.

O Pai de Todos os Problemas

O tempo passou e ao jantar, Seto, Mokuba, Joey e Jake não falaram praticamente nada, limitando-se a comer. Joey tinha insistido que estava farto de estar na cama e que iria jantar com os outros na sala de jantar. Depois de muita insistência e de algumas ameaças, Joey conseguiu convencer Seto.

"Talvez não tenha sido muito boa ideia comermos todos à mesa." pensou Joey, enquanto comida uma garfada de arroz. "Quer dizer, estamos aqui todos calados. Nem sei bem o que dizer com o meu pai e o Seto à mesma mesa."

Depois do jantar, Jake indicou que se iria deitar e abandonou a sala de jantar. Seto disse a Joey que deveria voltar para o quarto, para descansar mais um pouco.

"Eu não estou inválido. Tenho só umas mazelas e um pé magoado, mas também não é caso para estares assim tão preocupado." disse Joey.

"Deves descansar. Ordens do médico, se bem te lembras."

"Está bem, está bem. Mas só volto para o quarto se vieres comigo." disse Joey, piscando o olho a Seto.

Seto acabou por lhe dirigir um pequeno sorriso, enquanto Mokuba rolava os olhos.

"Acho que é melhor irem mesmo para o quarto." disse Mokuba. "Eu vou ficar na sala a ver televisão e apesar de eu gostar muito de vocês os dois, não estou com paciência para coisas românticas, como esse tipo de insinuações ou começarem a beijarem-se."

Com isto, Mokuba saiu da sala de jantar e Seto acabou por acompanhar Joey ao seu quarto, fechando de seguida a porta atrás de si.

"Não te esqueças que hoje vais dormir aqui comigo, como prometeste." disse Joey. "Se te atreveres a dizer que sim, me deixares adormecer e eu acordar a meio da noite e não te vir na cama porque te esgueiras-te para o teu quarto quando eu estava a dormir e deres a desculpa de que era para eu descansar melhor, juro que vão rolar cabeças."

"Isso parece-me algo incómodo, pelo menos para a minha cabeça, então." disse Seto. "Passo aqui a noite contigo."

Joey ficou bastante animado. Acabaram por se deitar na cama e verem um pouco de televisão, depois Seto disse que talvez fosse boa ideia ver se tinha recebido alguns e-mails importantes, mas Joey não deixou, pois não queria ouvir falar de trabalho naquela altura.

Joey passou os minutos seguintes a tentar convencer Seto para que fizessem amor, dando-lhe beijos e abraçando-o, enquanto Seto se esquivava, até que Joey ficou bastante zangado com a situação.

"Mas tu perdeste o interesse por mim ou quê?" perguntou Joey. "Porque é que não queres fazer amor comigo?"

"Tu sabes que estás magoado..."

"E daí? Lá por ter uma coisinha ou outra não quer dizer que eu não queira e não possa estar com o meu namorado. Há pessoas que não têm um braço ou uma perna e isso não faz com que não possam ter sexo."

"Sim, nisso tens toda a razão."

"Claro que tenho. Portanto, vamos fazer o que eu quero, senão começo a despir-te à força."

"Estás cada vez mais mandão e casmurro." disse Seto.

"Tive um bom professor e que me ensinou bem." disse Joey, abanando a cabeça. "Tu és assim também."

De seguida, Joey beijou Seto, que se deixou finalmente envolver e esqueceu que Joey estava magoado. Os dois fizeram amor normalmente, mas com mais cautela e depois acabaram por adormecer, com Joey com um braço na cintura de Seto.

Nessa noite, também choveu bastante e a trovada voltou, mas Seto acordou apenas uma única vez e não foi por causa de um pesadelo. Ao ver Joey a dormir pacificamente a seu lado, Seto sentiu-se feliz com aquela situação.

Depois, voltou a adormecer e apenas teve sonhos bons com Joey. Naquele momento, que o tinha a seu lado, a sensação de que pertenciam juntos afastava todas as possibilidades de pesadelos surgirem. Mas nem Seto, nem Joey poderiam saber o que aconteceria no dia seguinte e poderia mudar tudo.

O Pai de Todos os Problemas

Na manhã do dia seguinte, Seto foi acordado pelo som do seu telemóvel a tocar. Abriu os olhos rapidamente e tacteou a mesa-de-cabeceira até tocar no telemóvel e o conseguir agarrar. Sentou-se na cama e atendeu a chamada, enquanto Joey se mexia, ainda adormecido.

"Sim, daqui fala Kaiba." disse Seto ao atender a chamada.

Durante uns segundos, Seto permaneceu calado, a ouvir o que um dos sócios da Kaiba Corporation lhe contava sobre a notícia do que vinha publicada no jornal. A expressão de Seto foi endurecendo à medida que ia ouvindo o que se passava.

"Compreendo. Eu irei para a Kaiba Corporation o mais brevemente possível." disse Seto, desligando de seguida a chamada.

Seto pousou o telemóvel na mesa-de-cabeceira e deixou-se ficar quieto. Passavam apenas uns minutos das sete da manhã, ainda havia pouca luz, que entrava pelas janelas do quarto, mas no entanto por toda a cidade e pelo mundo já havia jornais com a notícia do relacionamento entre Seto e Joey. Seto respirou fundo e olhou para Joey, dormindo pacificamente.

"Isto é uma bomba." pensou Seto. "Não deveria ter sido descoberto assim, nem tão cedo. Agora vou ter de lidar com muitas coisas. O que devo fazer quanto ao Joey? Conto-lhe o que se está a passar ou deixo-o na ignorância pelo máximo de tempo possível? Tenho de pensar bem no que pretendo fazer."

Pouco depois, Seto saiu da cama, com cautela para não acordar Joey. Saiu do quarto, caminhou pelas escadas acima e foi até ao seu quarto. Uma vez lá, escolheu as roupas que usaria nesse dia e entrou na sua casa de banho privativa. Tomou um duche rápido e vestiu as roupas. Depois, voltou a descer as escadas. Não parara de pensar no que tinha acontecido e decidira que era melhor contar tudo a Joey, antes que ele soubesse por outra pessoa e ficasse zangado por Seto não lhe ter dito nada.

Seto voltou a entrar no quarto. Joey ainda estava a dormir, alheio a tudo. Seto sentou-se na cama com cuidado e passou uma mão pelos cabelos de Joey. Seto pensava que seria óptimo se aquela situação não passasse de um equívoco, seria óptimo se pudesse estar deitado ao lado de Joey, sem aquela preocupação a passar-lhe pela cabeça. Mas a situação era verdade e tinha de a enfrentar.

"Joey, tens de acordar agora. Precisamos de falar." disse Seto, tirando a mão dos cabelos de Joey. Joey virou-se para o outro lado, mas não acordou. "Acorda Joey, isto é importante."

Vendo que Joey não parecia disposto a acordar, Seto abanou-o até que Joey abriu os olhos, ainda ensonados e fez uma expressão aborrecida.

"O que é que foi?" perguntou Joey, sentando-se na cama. "Para que é que me estás a acordar assim? Estava a dormir tão bem, a sonhar connosco a…"

"Joey, ouve com atenção, por favor." pediu Seto, interrompendo-o. "Ao que parece, de alguma forma um jornal descobriu que nós estamos juntos e publicou uma notícia sobre isso."

Joey pestanejou algumas vezes, assimilando o que Seto lhe dissera. Apesar de para si não haver qualquer problema de ser revelado que ele e Seto namoravam, visto que Joey estava seguro do que sentia e disposto a enfrentar tudo e todos por causa disso, Seto tinha-lhe explicado, quando tinham começado a namorar, que deveriam manter a relação em segredo, até chegar o momento certo de ser revelada, caso contrário poderia ter efeitos complicados em relação à Kaiba Corporation. E assim, Joey aceitara manter a relação em segredo, porém, agora aquele facto já era conhecido.

"Estou a perceber, Seto." disse Joey, num tom sério, já afastando a sonolência. "E agora, o que é que fazemos?"

"Agora temos de lidar com isto, mas não vai ser fácil." disse Seto.

"Temos apenas de esclarecer a verdade, então. Esclarecer que estamos realmente juntos." disse Joey.

"Não é assim tão simples. Isto vai ter consequências para todos. Não sei como é que o jornal soube, mas talvez alguém se tenha apercebido de que vieste cá para casa ou algo assim." disse Seto, pensativo.

"Ou alguém falou. Algum empregado, por exemplo, mas isso também já não importa, porque se já se sabe…"

"Exactamente. Eu queria que soubesses tudo por mim, para não saberes de outra maneira e seres surpreendido. Agora, vou ter de tomar o pequeno-almoço rapidamente e sair para ir à Kaiba Corporation. Vai estar tudo num reboliço enorme, com certeza. É melhor tu não saíres de casa hoje."

"Mas tenho uma consulta no médico, lembras-te?"

"Eu sei, mas eu posso ligar ao meu médico pessoal e ele vem cá a casa ver-te."

"Eu não estou inválido, Seto. Posso muito bem…"

"Joey, sei que tu podes sair, que não estás inválido, que consegues fazer as coisas e ires a uma simples consulta no médico, mas não é boa altura. Tu fazes ideia de como vão estar as coisas hoje e nos próximos tempos? Vamos ter jornalistas ao portão da mansão imenso tempo, a seguir-nos, a fazerem perguntas e a incomodarem toda a gente." explicou Seto. "Portanto, é melhor que fiques aqui para eles não te incomodarem a ti."

Joey não parecia satisfeito por ter de, mais uma vez, ficar confinado à mansão. Queria sair, ir à consulta médica e depois encontrar-se com os seus amigos, mas também compreendia que Seto tinha razão. Agora não seria boa altura para sair da mansão, nem para tentar fazer alguém entrar, caso contrário seriam sempre incomodados por jornalistas. Acenou afirmativamente com a cabeça.

"Está bem, Seto, eu vou fazer o que tu queres." disse Joey. "Fico aqui na mansão. Liga lá ao teu médico pessoal para ele vir cá. Já me sinto bem do pé e já não deve estar muito mal, portanto ele que me tire as ligaduras. Ao menos, mesmo que não saía, pelo menos poderei andar normalmente."

Seto acenou afirmativamente e levantou-se, mas Joey agarrou-lhe o braço.

"Lamento que a nossa relação tenha sido descoberta desta maneira." disse Joey. "Mas isto vai mudar alguma coisa entre nós?"

Seto encarou o namorado e acenou negativamente com a cabeça. Apesar de agora a relação de ambos ter sido tornada pública, nunca lhe passara sequer pela cabeça deixar Joey ou negar que estavam juntos e arriscar a relação. Quando Seto entrava numa batalha, não era para desistir e agora que tinha aquela situação para resolver, iria resolvê-la e não fugir pelo caminho mais fácil.

"Não vai mudar nada entre nós. Os nossos sentimentos continuam os mesmos." disse Seto. "Só que agora vai haver milhões de pessoas que também sabem o que nós sentimos um pelo outro."

De seguida, Seto baixou-se um pouco e aplicou um leve beijo nos lábios de Joey, que lhe largou o braço. Depois, Seto saiu do quarto, enquanto Joey inspirava profundamente.

"Espero mesmo que nada mude entre nós." pensou Joey. "Vê-se nas revistas os casais famosos, que estão sempre a aparecer, mas que depois, passado um tempo, acabam tudo. Espero que não seja o caso. Não quero que a nossa relação termine. Nunca."

O Pai de Todos os Problemas

O médico pessoal de Seto veio à mansão e examinou Joey, tirando-lhe de seguida as ligaduras do pé e indicando que já não necessitava delas, mas que deveria ter cuidado nos próximos dias, para não torcer o pé e a situação ficar pior. Quanto ás mazelas no peito de Joey, estavam a sarar normalmente. Depois, o médico foi embora e Joey apressou-se a sair do quarto, podendo andar normalmente mais uma vez. Noutras circunstâncias teria ficado contente por estar ali e até poder ver melhor a mansão, mas estava pensativo quanto a como estaria Seto.

"Será que ele está a ter muitos problemas na empresa?" perguntou-se Joey. "Espero que não. O Seto sempre conseguiu resolver todo o tipo de situações e espero que não seja por causa da nossa relação que a empresa tenha grandes prejuízos. Isso seria muito complicado."

Com cuidado, Joey subiu as escadas até ao primeiro andar, depois caminhou por um corredor e quando chegou ao fim do mesmo, abriu uma porta que dava para uma varanda. A varanda estava virada para a frente da mansão. Joey aproximou-se do parapeito e olhou. Para lá do muro e do portão da mansão, havia vários jornalistas e fotógrafos parados à porta. Mal viram Joey surgir, os fotógrafos começaram a tirar fotografias. Joey afastou-se rapidamente do parapeito e regressou para dentro da mansão.

"Ok, isto talvez seja pior do que eu esperava." pensou Joey. "Estão ali imensas pessoas de microfone em punho ou com gravadores e máquinas fotográficas. Se calhar nem devia ter ido à varanda, mas estava com curiosidade para confirmar se seria como o Seto tinha dito."

Ao descer as escadas novamente, Joey deparou-se com o mordomo.

"Temos muitos jornalistas à porta da mansão." disse Joey.

"É verdade, senhor Wheeler. Saí há pouco para fazer um recado e foi bastante difícil passar por eles. Fizeram-me imensas perguntas, mas eu recusei-me a responder e consegui passar por eles." disse o mordomo.

"Estão todos curiosos sobre o que se passa entre mim e o Seto."

"Sim, estão, mas deviam meter-se na vida deles e não na vida dos outros." disse o mordomo, de forma rígida. "O patrão estava claramente zangado com isto, se me permite que lhe diga. O patrão mudou bastante desde que vocês começaram a vossa relação. Mudou para melhor e todos o sentimos aqui na mansão. Está mais bem-disposto e, para dizer a verdade, menos frio. Espero que esta situação não vá fazer as coisas piorarem…"

"Eu também espero que não. Espero que isto seja apenas uma novidade, que passe e depois as pessoas se esqueçam." disse Joey. "Noutra altura, teria batido nos jornalistas para eles não nos aborrecerem, mas não seria a melhor ideia, portanto, é melhor deixar o Seto tratar da situação. Ele saberá o que fazer para resolver tudo e voltar tudo ao normal."

O Pai de Todos os Problemas

Na Kaiba Corporation, Seto estava sentado na cadeira do seu gabinete. A sua secretária, Minako, estava de pé, com algumas folhas na mão, falando-lhe das chamadas que já tinham recebido até aquele momento. A notícia caíra como uma bomba e de imediato se tinham sentido as repercussões. Quando chegara à empresa, Seto verificara que muitas das pessoas lhe lançaram olhares curiosos e tinha recebido telefonemas de alguns sócios da empresa a pedir explicações.

Além disso, as acções da empresa tinham caído a pique naquele dia, chegando ao valor mais baixo de sempre. Algumas propostas de investidores tinham sido de imediato canceladas e todos os sócios da empresa exigiam um comunicado de Seto.

"O que quer que faça com as reclamações, senhor Kaiba?" perguntou Minako, agitada. "Não param de chegar."

"Eu sei, eu sei. Anote-as e armazene-as." disse Seto, mas depois abanou a cabeça. "Não, esqueça isso. Mande as reclamações para o lixo e não dê qualquer esclarecimento se lhe perguntarem sobre a minha relação com o Joey. Vou tomar medidas. É a minha vida pessoal que está a ser exibida como um circo e isto vai ter de parar."

Minako acenou afirmativamente.

"Farei como me diz." disse ela. "Mais alguma coisa?"

"Não, mais nada. Pode ir."

Minako saiu de seguida do gabinete e pouco depois Seto levantou-se, encaminhando-se para a sala de reuniões. Ao chegar lá, verificou que todos os sócios já estavam presentes, tirando Mokuba, que nunca era chamado para nenhuma reunião, sendo sempre Seto a tratar da sua parte, visto ele ainda ser menor de idade. Seto fechou a porta atrás de si, enquanto os sócios, sentados em cadeiras à volta da mesa o olharam.

"O que tem a dizer sobre o que se está a passar, Kaiba?" perguntou um homem de meia-idade e cabelo ruivo. "Isto está a dar cabo da empresa!"

"Exactamente!" exclamou outro dos sócios. "Isto é um escândalo de enormes proporções. Espero que tenha uma boa justificação para isto."

Seto olhou para todos eles, com um olhar frio e zangado. Era claro que todos estavam furiosos com a situação e nenhum parecia mostrar compreensão.

"A justificação é que eu gosto de uma pessoa com quem estou a namorar. Apenas isso. Sim, é do mesmo sexo que eu, mas ninguém tem nada a ver com isso. Visto que veio a público, lidarei com isso e pronto, mas esta é a verdade e não me envergonho de nada. Quanto à empresa, iremos sobreviver."

"Isso é fácil de dizer, Kaiba, mas o que tem de fazer é acabar com essa relação, para voltarmos às boas graças de toda a gente." disse o homem de cabelo ruivo.

Seto lançou-lhe um olhar fulminante, que o teria matado se os olhares matassem.

"Nem pensar. Eu não vou terminar a minha relação por nada. Eu não vos digo como vivem a vossa vida, portanto não se metam na minha. Isto é algo pessoal e foi levado para outro âmbito." disse ele.

"Eu concordo que deve acabar com essa relação e pronto. Devíamos votar." disse uma mulher.

"Nem pensar! A minha vida não se resume a uma votação. Vocês não a podem decidir. Se não estão de acordo, paciência. Eu sou o maior accionista da empresa e mesmo que vocês se demitam todos, amanhã ela ainda cá estará. Enfraquecida, mas não irá desaparecer, isso vos garanto. E não sejam moralistas. Eu não vos digo o que devem fazer na vossa vida. Beth, apesar de saber que é infiel ao seu marido, não ando a dizer-lhe o que deve fazer. Ou Suzaku, sei bem que anda metido em negócios ilícitos, que não envolvem esta empresa. E os outros também têm coisas que são da vida privada e não querem ver misturados com a vida pública. Portanto, termina aqui o esclarecimento. Eu continuarei a ser profissional como sempre fui e da minha vida privada, sei eu."

Logo depois, Seto virou costas e saiu da sala de reuniões, deixando os sócios em alvoroço.

O Pai de Todos os Problemas

Mais tarde, Jake Wheeler decidiu vir almoçar à mansão, porque por um lado a comida ali era bastante boa, por outro não gastaria dinheiro na comida e além disso queria ver se o seu plano tivera as repercussões que pensava que teria. Quando chegou perto da mansão, avistou de imediato os jornalistas.

"Cá estão os abutres." pensou Jake. "Já esperava por isto. Ora bem, agora para piorar as coisas, eu posso fazer algo para mostrar ao Kaiba que os Wheeler são impulsivos e não se preocupam com o que os outros pensam, nem com moralismos. Com certeza, isto ainda vai complicar mais as coisas e poderá gerar conflitos entre o Kaiba e o Joey. Então, eles vão separar-se finalmente."

Jake caminhou rapidamente em direcção ao portão da mansão e aos jornalistas. Ao verem-no aproximar, alguns olharam para ele, mas sem grande interesse, visto não o conhecerem ou saberem quem era.

"O que se passa aqui?" perguntou Jake, a um dos jornalistas.

"Estamos à espera de ouvir declarações, homem. Não me diga que não sabe a notícia do momento? O famoso Seto Kaiba anda envolvido com outro rapaz, o Joey Wheeler, que participou nalguns torneios de duelos." respondeu o jornalista. "Queremos saber tudo. Afinal, a relação é um escândalo."

"Aí é sobre isso? Mas que raio, saiam mas é daqui! O Joey Wheeler é o meu filho e não têm nada de estar aqui a quererem saber coisas da vida dele!"

Logo de seguida, ouvindo aquilo, os jornalistas e fotógrafos viraram-se para Jake. Tal como esperara, agora as atenções estavam sobre si e começaram os flashs das máquinas fotográficas. Jake decidiu avançar com o plano. Caminhou para um dos fotógrafos e num gesto rápido tirou-lhe a máquina das mãos e lançou-a ao chão, partindo-a.

"Não voltem a tentar aborrecer o meu filho, senão parto-vos as máquinas todas e vão todos parar ao hospital!" gritou Jake, avançando depois para o portão da mansão.

Os seguranças deixaram-no entrar e enquanto caminhava já pelo interior dos portões, Jake sorriu maliciosamente.

"Óptimo. Parti a máquina a um fotógrafo e agora isto vai ser muito falado. Vai dar-me má imagem, de violento e tudo o mais, mas não importa. O Kaiba vai ficar furioso com o que fiz, porque com isto também dei mais má imagem à situação e com certeza que o Joey me vai defender, portanto, vão zangar-se. Espero que isto seja o suficiente para os separar de uma vez por todas."

Continua no próximo capítulo, que será o último.