Capítulo 3: Resolução

Seto decidiu ir almoçar à mansão. Não seria a decisão mais adequada, pensava Seto, mas não queria saber. Apesar de todo o reboliço que estava a acontecer, queria ver Joey e também falar com Mokuba, já que anteriormente não tivera oportunidade para isso. Precisava de saber como o irmão se sentia agora que a verdade viera a público, apesar de Mokuba saber desde o inicio do namoro do irmão. Seto queria também saber o que o médico dissera a Joey pois ainda não tivera tempo de lhe ligar a perguntar e agora queria perguntar-lhe pessoalmente.

Ao chegar ao portão da mansão, os seguranças tiveram de entrar em acção e afastarem os jornalistas para que o carro pudesse passar. Pouco depois, Seto estava a entrar na mansão, com um dos seguranças a seu lado, a contar-lhe o que acontecera com Jake Wheeler.

"Ele partiu a máquina de um fotógrafo e ameaçou os jornalistas?" perguntou Seto, franzindo o sobrolho.

"Exactamente senhor Kaiba." respondeu o segurança.

Seto acenou afirmativamente, não parecendo nada satisfeito e dispensou o segurança. Depois, dirigiu-se à sala de jantar. Quando entrou na sala de jantar, já Joey, Mokuba e Jake estavam à mesa, a iniciar a refeição. Mal o viu, Joey sorriu e levantou-se da cadeira onde estava sentado.

"Seto, não sabia que vinhas almoçar à mansão. Calculei que com isto tudo irias ficar pela empresa o dia todo." disse Joey.

"Decidi vir almoçar a casa, ver como estavas e ao Mokuba também." disse Seto, olhando depois para as pernas de Joey. "O médico tirou-te a ligadura?"

"Sim, já não preciso dela, nem de andar apoiado na canadiana. Disse-me apenas para ter cuidado, para não esforçar o pé nem nada assim." explicou Joey, tornando-se mais sério de seguida. "Como é que correram as coisas na empresa? Foi muito mau?"

Seto caminhou até ao seu lugar na mesa, puxou uma cadeira e sentou-se. Joey também voltou a sentar-se, na cadeira à esquerda de Seto. Mokuba e Jake olharam para Seto, sem dizerem nada e esperando uma resposta também sobre o que Joey perguntara. Seto demorou alguns segundos a responder.

"A situação não é boa, claro. Recebi telefonemas, reclamações, faxes e tudo o mais, a pedir esclarecimentos, tive uma reunião com os outros sócios, enfim, complicações. Esta tarde irei fazer uma declaração para os jornalistas, para ver se eles nos deixam em paz." disse Seto, olhando de seguida para Jake. "Mas não será fácil, já que descobri que o teu pai, Joey, partiu a câmara de um fotógrafo e ameaçou os jornalistas e com toda a certeza essa notícia vai alimentar ainda mais tudo isto contra nós."

Joey e Mokuba viraram-se de imediato para encararem o pai de Joey, que encolheu os ombros.

"Pai, porque é que não me disseste que tinhas feito isso?" perguntou Joey.

"Não achei que fosse boa ideia preocupar-te com isso." respondeu Jake. "Os fotógrafos e os jornalistas estavam ao portão, a quererem aborrecer-vos, a meterem-se na vossa vida e eu perdi a cabeça, pronto."

"Pois, mas devia ter-se controlado mais." disse Seto, de maneira fria. "Porque agora as coisas ainda vão ficar piores, com notícias de que o Joey tem um pai violento, além de que agora ainda vão à procura de informações sobre si e entretanto temos nos jornais a sua vida a ser contada também. E também a vida da sua família, incluindo a Serenity."

Jake não disse nada. Não tinha pensado naquela possibilidade, que fossem também focar-se em si, além da situação de ter sido violento com os jornalistas. Iriam com certeza encontrar informação sobre o seu problema com o álcool e o jogo, a sua separação da esposa e iriam importunar Serenity também. Joey abanou a cabeça.

"Pai, devias ter-te controlado realmente. Eu sei que às vezes apetece-nos resolver as coisas com os punhos, mas se vão aborrecer a Serenity vai ser muito mau." disse Joey, preocupado. "Tenho de lhe ligar depois do almoço."

"Joey, eu fiz isto para te proteger e apesar de não ter pensado realmente em todas as consequências, devias apoiar-me." disse Jake.

Joey abanou a cabeça em sinal de negação. Seto começou de seguida a servir-se de comida.

"Parece que estamos de acordo que o que fez devia ter sido evitado. De qualquer das maneiras, já está feito, portanto temos de lidar com isso. Mas tenha mais cuidado de futuro." disse ele, olhando para Jake.

Jake sentiu uma grande raiva no peito. Não só Seto o estava a repreender, como Joey concordava com a situação. Os dois não se tinham zangado e ainda por cima a vida de Jake seria tornada pública também e iriam andar atrás de Serenity para falaram com ela também. Apesar disso, Jake ainda não desistira de ver o filho separado de Seto. Depois de Seto se servir de comida, virou-se para o irmão.

"Mokuba e tu, passou-se alguma coisa na escola? Aborreceram-te?" perguntou Seto.

"Não, para já não, mas também só soube da notícia quando o motorista me foi buscar. Penso que na escola, visto que a maioria das pessoas não lê jornais, ainda não se tinha espalhado a notícia." respondeu Mokuba. "Mas não te preocupes Seto, eu não serei afectado por nada que possam dizer. Tu és meu irmão e gostas do Joey e estão bem juntos, portanto é só o que importa."

Joey sorriu a Mokuba e Seto abanou a cabeça, mais descansado com a situação. De qualquer das maneiras, sabia que apesar do primeiro impacto ter passado, ainda iriam existir muitas outras situações sobre o seu romance com Joey, até que finalmente tudo acalmasse.

O Pai de Todos os Problemas

Algum tempo depois, Seto regressou à Kaiba Corporation e entrou por uma porta lateral. Numa das salas de conferência, vários jornalistas estavam já à espera que Seto chegasse para prestar declarações. Seto achara melhor falar de uma vez com todos, para esclarecer a situação e acalmar os ânimos mais rapidamente. Deixou-os à espera vários minutos, apenas pelo prazer de o poder fazer e depois entrou na sala de conferências e dirigiu-se a um ponto mais elevado, onde estava um microfone. De imediato alguns fotógrafos começaram a tirar fotografias.

"Agradeço a presença de todos." disse Seto, de modo cordial, apesar de na verdade não gostar que nenhum deles ali estivesse a importunar a sua vida. "Estamos aqui devido à notícia que saiu hoje num jornal, de que eu estaria a ter um caso com o Joey Wheeler."

"Nega então esse envolvimento?" perguntou uma jornalista, levantando-se da cadeira onde se encontrara sentada. "É apenas especulação e boato?"

"Não, não nego o envolvimento e não, não é especulação, nem boato. Eu e o Joey Wheeler já estamos juntos há vários meses, é essa a verdade. Mas todos temos vidas profissionais e privadas. O aspecto da minha relação com o Joey pertence à vida privada, pelo que não tinha qualquer obrigação de dar esse facto a conhecer. Visto que esta situação já foi divulgada, não tenho qualquer problema em assumir a situação."

"Mas será que ao não querer revelar a relação, mostra que não há realmente sentimentos entre vós? Ou tem vergonha de estar nessa relação?" perguntou um jornalista.

"Tem a certeza que o Joey Wheeler não está consigo apenas por dinheiro?" perguntou outro.

Seto ficou com uma expressão ainda mais séria. Já esperava este tipo de perguntas, mas era sempre complicado ouvi-las. Respirou fundo.

"A minha relação com o Joey Wheeler está perfeitamente bem, os sentimentos são verdadeiros e nunca tive vergonha nenhuma por estar com ele. Aliás, porque é que teria? Não há nada no Joey que me faça ter vergonha dele. É boa pessoa, como de certeza já andaram a pesquisar. Ele participou no torneio Duelist Kingdom para pagar uma operação à sua irmã, o que mostra bem que tipo de pessoa ele é." disse Seto. "E não, ele não está comigo por dinheiro e não tenho qualquer dúvida nesse sentido."

"Como é que esta relação o define? Como sendo gay?"

"Sabemos que o Joey Wheeler está a viver na sua mansão, portanto, já deram um novo passo na vossa relação e vivem oficialmente juntos?" perguntou outro jornalista.

"O que é que tem a dizer sobre o que o pai de Joey Wheeler fez hoje com a máquina fotográfica de um fotógrafo?"

Seto aguardou um pouco para responder.

"Esta relação define-me como pessoa que gosta de outra pessoa. Apenas isso. E o Joey está a viver na mansão porque foi necessário, o que não invalida que possa ficar a viver lá indeterminadamente. E quanto à reacção do pai dele, não foi a melhor e deveria ter-se controlado, mas por vezes, como todos sabem, o nível de stress das pessoas chega ao limite e perde-se a paciência."

Um outro jornalista preparava-se para fazer uma pergunta mas Seto ergueu a mão para o calar.

"Chega de perguntas. Vim aqui esclarecer que estou numa relação séria e verdadeira, portanto, espero que estejam esclarecidos nesse sentido. Continuarei a ser profissional como sempre fui porque como já referi isto não interfere nada com a minha vida profissional." disse Seto. "Da próxima vez que tenha de vos falar espero que seja por algum novo projecto da Kaiba Corporation."

De seguida, Seto deixou rapidamente a sala de conferências, satisfeito por ter falado ao jornalistas e ter esclarecido o assunto. Não voltaria a falar novamente com os jornalistas naquele sentido.

"A vida é minha, portanto, não têm de saber demasiado." pensou ele. "A minha relação com o Joey não é um número de circo para ser mostrado perante toda a gente e para eles julgarem se gostam ou não. Aliás, quero lá saber se gostam ou não gostam. Já estou com problemas na empresa e irei tê-los mais, mas eu sempre consegui superar tudo e levar a empresa em frente. Agora não será excepção."

O Pai de Todos os Problemas

Eram quase cinco da tarde e na mansão dos irmãos Kaiba, Joey estava na enorme sala de estar, sentado no sofá de pele, a falar ao telemóvel com Yugi. Téa e Tristan já lhe tinham ligado anteriormente e Joey falara com Serenity logo depois do almoço.

"Pois é Yugi, não venhas ver-me. É melhor assim. Eu já estou bem do pé e de resto vou recuperar." disse Joey, abanando ligeiramente a cabeça. "Com os jornalistas todos à porta, seria complicado passares pelo portão e depois serias importunado, portanto, tal como disse à Téa e ao Tristan, vemo-nos quando tudo acalmar um pouco."

"Já têm ideia de como é que os jornalistas souberam do vosso romance?" perguntou Yugi, do outro lado da linha.

"Ainda não, se bem que me parece que deve ter sido algum empregado da mansão. Ou então alguém viu que eu vim para cá ou assim e falou. Não sei bem, mas agora também já não importa." disse Joey, encolhendo os ombros. "Já se sabe e há que lidar com isso. Eu nem saí da mansão, nem falei com nenhum jornalista, mas não param de ligar para cá. O Seto está a tratar das coisas na Kaiba Corporation e não me quis alarmar, mas talvez as coisas não estejam tão bem como ele quis fazer parecer."

"Espero que isto seja passageiro e que depois vos deixem em paz. E claro, espero que na empresa também fique tudo bem, afinal o Kaiba investiu imenso de si lá e seria muito mau se algo grave e irreversível acontecesse."

"Espero que não."

Pouco depois, Joey despediu-se de Yugi e a chamada terminou. Quando Joey saiu da sala e caminhou pelo corredor, ouviu a porta da frente a bater e depois vozes. Caminhou até à porta e viu Mokuba e o mordomo a falarem. O mordomo parecia agitado, enquanto Mokuba tentava que ele falasse mais baixo.

"Mas menino Mokuba o que aconteceu é muito grave. Devíamos ir à polícia fazer queixa." disse o mordomo. "O seu irmão não ficará nada satisfeito com isto."

"Eu devia ter mentido e dito que tinha caído ou assim." disse Mokuba, cruzando os braços. "Não quero que o Seto saiba."

"Não queres que o Seto saiba o quê?" perguntou Joey, aproximando-se dos dois.

Ao aproximar-se, Joey reparou que Mokuba tinha o olho esquerdo negro.

"O que é que se passou com o teu olho?" perguntou Joey.

"Não foi nada."

"Na escola, o menino Mokuba meteu-se numa luta." disse o mordomo. "E foi assim que ficou com o olho naquele estado."

Mokuba lançou ao mordomo um olhar irritado e o mordomo achou por bem retirar-se, antes que o seu emprego fosse colocado em risco. Joey fez sinal a Mokuba para o seguir e apesar de carrancudo, Mokuba assim fez. Entraram na biblioteca, que era a divisão mais perto e sentaram-se em duas cadeiras, de frente um para o outro.

"Quero que me contes, com pormenores, o que se passou. Espero que não me mintas, porque tu sabes que eu detesto mentiras." disse Joey. "Começa a falar Mokuba."

"Não quero dizer-te, Joey."

"Ouve, eu não sou o teu irmão, nem quero que penses que estou a tentar fazer o papel dele ou assim, mas estou preocupado contigo. Vá, confia em mim e conta-me."

Mokuba hesitou, mas depois acenou com a cabeça, em assentimento.

"Pronto, o que aconteceu foi que depois do almoço voltei para a escola, mas aí a noticia já se espalhara. Eu ignorei os olhares e tudo o mais… mas quando estava já a sair da última aula, ouvi dois rapazes a falarem mal de ti e do Seto. A chamarem-vos anormais e muitos outros nomes." disse Mokuba, ficando mais sério. "Fiquei possesso e aproximei-me deles e mandei-os calar. Eles não o fizeram e empurraram-me. Eu empurrei-os a eles e depois bateram-me. Por isso é que tenho o olho negro. Mas também lhes bati a eles e mesmo sendo dois, ficariam piores que eu."

Mokuba olhou Joey, em tom de desafio, esperando que o rapaz mais velho o fosse repreender. Joey não o fez.

"Compreendo as tuas razões e agradeço que me tenhas defendido a mim e ao Seto." disse Joey. "Há outras maneiras de resolver as coisas, mas na verdade, eu teria feito o mesmo e seria ao soco e ao pontapé, portanto… bom, não digas ao teu irmão que disse isto, senão ele pode ficar aborrecido."

"Então não digas também ao Seto o que se passou. Ele vai ficar aborrecido comigo e desapontado e ainda vai querer saber quem são e fazer queixa deles. Também não me interessa fazer queixa. Vou apenas ignorá-los por completo a partir de agora."

Joey acenou afirmativamente.

"Eu não direi ao Seto nada, mas ele obviamente que verá o teu olho negro e vai perguntar-te. Podes dizer-lhe o que achares melhor, mas aconselho-te a dizeres a verdade, porque não deves mentir ao teu irmão. Ele adora-te e faria tudo por ti, por isso, acho que merece que lhe contes sempre a verdade."

Mokuba hesitou e depois acabou por suspirar.

"Está bem, eu conto-lhe quando ele chegar, mas já sei que não vai ser nada bonito de se ver. E olha lá, tu agora estás a dar muitos bons conselhos. Dantes não eras assim. Dirias algo como se eu os visse da próxima vez devia bater-lhes mais e que seria melhor esconder a verdade porque fiquei com um olho negro e isso poderia ser visto como sinal de fraqueza, tendo-o arranjado numa luta."

"As pessoas mudam, Mokuba. O teu irmão tem-me ajudado a ser mais calmo e a pensar duas vezes antes de agir." disse Joey, inclinando-se depois mais para Mokuba. "Mas que fique aqui dita uma coisa. Se alguma vez mais alguém te bater na escola, tu dizes-me e eu vou lá e bato-lhes. Lá por pensar melhor agora, não quer dizer que por vezes as coisas não se resolvam com os punhos."

Joey e Mokuba começaram a rir-se de seguida, tornando o ambiente mais leve. Mokuba estava agora mais calmo por ter contado a Joey a verdade. Sentia-se também melhor visto que tinha a certeza que Joey só queria o melhor para si e o defenderia de tudo o que o magoasse, tal como Seto faria, apesar de Seto utilizar meios diferentes.

"Que tal irmos beber um sumo para o jardim? O dia está bom e vamos tentar ignorar o que se está a passar por um pouco." sugeriu Joey.

Mokuba acenou afirmativamente e os dois levantaram-se, saindo de seguida da biblioteca.

O Pai de Todos os Problemas

Na Kaiba Corporation, mais precisamente no gabinete do presidente, Seto estava sentado na sua cadeira, a falar ao telefone.

"Exactamente. Quero que tentem descobrir quem é que fez o meu relacionamento com o Joey vir a lume. Não importa o que se gaste para descobrir, mas quero saber quem foi, se foi algum dos meus empregados, se foi outra pessoa." disse Seto, para a pessoa que estava do outro lado da linha. "Sim, quero que descubram rapidamente. Pressionem o jornal, subornem algum jornalista de lá, mas descubram."

Seto desligou a chamada de seguida. Acabara de incumbir a um grupo de detectives que descobrissem o responsável ou responsáveis por aquela notícia ter chegado aos jornais. A princípio, Seto deixara isso de lado. Afinal, a situação fora revelada, portanto não interessaria quem fora, mas depois pusera-se a pensar. E se tivesse alguém que trabalhasse consigo, fosse na sua mansão ou até na Kaiba Corporation e tivesse passado a informação aos jornais? Não poderia confiar mais nessa pessoa e no futuro poderia revelar outras informações importantes, pelo que era imperativo descobrir quem fora e lidar com a situação.

"Quando descobrir quem for, vou tomar medidas contra essa pessoa. Ninguém me atraiçoa assim e fica a rir-se." pensou Seto. "Se por acaso for alguém da Kaiba Corporation, apesar de duvidar disso, pode revelar segredos da empresa aos concorrentes ao algo assim e não é de fiar. Bom, eu irei descobrir quem foi, mais cedo ou mais tarde, nem que tenha de mexer meio mundo."

O Pai de Todos os Problemas

Joey e Mokuba estavam agora nos jardins da mansão, sentados em duas cadeiras em frente a uma mesa redonda. Numa das mãos de cada um deles estava um copo com um sumo de laranja fresco. Mokuba bebeu um gole do seu sumo e olhou para Joey.

"Quanto tempo é que achas que isto à volta do teu romance com o Seto vai durar?" perguntou Mokuba.

"Não faço ideia, mas espero que não dure muito tempo. Isso seria bastante mau, principalmente se continuarem a falar da situação e denegrirem a imagem do Seto, da empresa e a minha. Aliás, talvez eu devesse falar com algum jornalista e defender-me em vez de ficar calado."

"Acho que para já é melhor não. Deixa o Seto tratar de tudo e se ele achar melhor que tu fales com algum dos jornalistas, ele diz. Afinal, ele percebe disto de ser conhecido, ter fotógrafos atrás de nós e tudo o mais. Percebe mais do que tu ou eu."

Joey acabou por acenar afirmativamente. Sem que ele ou Mokuba suspeitassem, nesse momento um dos fotógrafos estava a conseguir escalar um dos muros da mansão, com a ajuda de uma escada que trouxera consigo. Estava determinado a conseguir uma fotografia de Joey ao perto, para depois ser incluída num artigo. Visto que Joey não saía da mansão e só aparecera na varanda por uns segundos, não havia uma boa foto recente dele.

"Eu conseguirei tirar a foto e vou vendê-la por muito dinheiro." pensou o jornalista. "Se consigo passar os muros, dentro da mansão também não vai ser difícil movimentar-me, com certeza."

O fotógrafo conseguiu subir para cima do muro. Trouxera consigo um saco protector para a máquina fotográfica. Com cuidado, lançou o saco para cima de um arbusto volumoso, que amorteceu a cada. Depois também o fotógrafo saltou do muro, para cima de outro arbusto. Ao cair, abafou um grito. O muro era alto e tinha-se magoado com a queda, mesmo amortecida, mas levantou-se rapidamente.

"Não importa que agora me doa o corpo. O dinheiro que vou ganhar vai compensar tudo. Neste momento, o casal sensação é o Joey Wheeler e o Seto Kaiba e com o Wheeler em isolamento, uma foto dele vale ouro." pensou o fotógrafo, caminhando até ao outro arbusto e pegando no saco com a máquina. Verificou que ela estava bem e fora protegida da queda. "Óptimo. Agora só tenho de encontrar o Joey Wheeler… depois de lhe tirar a foto, ou melhor dizendo, fotos, não vai ser fácil sair da mansão, mas eu encontro uma maneira, sem que chame muito a atenção ou que me tirem as fotografias da máquina."

O jornalista, um jovem alto de cabelo negro, começou a caminhar com cautela em direcção à mansão. Depois, viu ao longe Joey e Mokuba sentados no jardim e sorriu para si mesmo, com a sorte que tinha. Joey estava no jardim, pelo que não o teria de procurar e ainda estava com o irmão de Seto, pelo que a fotografia valeria ainda mais. Com cuidado, aproximou-se o mais que pôde e empunhou a máquina fotográfica, colocando o zoom adequadamente. Depois disparou a primeira foto.

Joey e Mokuba estavam conversar e a princípio não repararam em nada, mas depois Mokuba notou um pequeno flash de luz e olhou na direcção onde estava o fotógrafo, vendo-o. Tocou rapidamente no braço de Joey.

"Joey, está ali um fotógrafo a tirar-nos fotografias!" exclamou Mokuba.

Joey virou-se para onde Mokuba apontava e viu o jornalista. Levantou-se rapidamente e deu ordens para Mokuba ir chamar os seguranças. Mokuba saiu dali a correr, enquanto Joey caminhava o mais rápido que podia em direcção ao jornalista, que estava já a arrumar a sua máquina fotográfica, começando a recuar.

"Não fuja! Volte aqui!" gritou Joey.

O fotógrafo começou a correr e Joey foi atrás dele, mas não podia correr devido ao estado do seu pé, que poderia piorar bastante se o esforçasse demasiado. O fotógrafo escondeu-se atrás de umas árvores, não fazendo barulho e pensando numa rota de fuga. Não podia saltar o muro porque a escada estava do lado de fora e sem ela o muro era demasiado alto. Respirou fundo.

"Ok, vou ter de ir pelo portão da frente. Se chegar lá rapidamente, os seguranças são capazes de me verem e expulsam-me, mas não se vão lembrar de me tirarem a máquina fotográfica."

O fotógrafo saiu de onde estava escondido e começou a correr para o portão. Joey viu-o e foi atrás dele o mais rápido que pôde. Quando Joey chegou ao portão, já dois seguranças estavam a agarrar o fotógrafo pelos braços, prontos para o colocarem fora da propriedade dos irmãos Kaiba.

"Esperem, não o mandem embora ainda." disse Joey, parando-os e chegando ao pé dos seguranças e do fotógrafo. Encarou-o. "Você tirou fotografias minhas e do Mokuba sem permissão. Como é que se atreve a entrar aqui assim?"

"Todos fazemos coisas por dinheiro. Este é o meu trabalho." respondeu o fotógrafo.

Num gesto rápido, Joey tirou-lhe o saco com a máquina fotográfica e pegou nela.

"Vai fazer o quê? Destruir a máquina fotográfica como o seu pai, é?" perguntou o fotógrafo, num tom de desafio.

"Não, não é preciso. Felizmente estamos na era digital." disse Joey, mexendo na máquina e tirando de lá o cartão de memória. "As imagens estão aqui no cartão, portanto eu vou ficar com ele."

"Não pode! Tenho aí outras fotos para outros trabalhos!"

"Ai sim? Que pena." disse Joey, atirando o cartão de memória ao chão e pisando-o até o partir. "Oh, estão estragadas."

"Você vai pagar por isto!" gritou o fotógrafo, debatendo-se, mas com os seguranças a segurarem-no firmemente.

Joey aproximou-se mais do fotógrafo, olhando-o nos olhos. Tinha uma expressão fria como gelo.

"Oiça uma coisa, você agora vai-se embora e nem mais uma palavra. Se me acusar de lhe ter destruído o cartão de memória eu nego e acho que os seguranças da mansão não terão visto nada do que possa dizer que eu fiz. Além disso, se você abre a boca ou volta a importunar-me a mim ou qualquer pessoa que eu goste, fazemos queixa de si por invasão de propriedade e acho que o Seto é capaz de se lembrar de mais uma dúzia de coisas para o acusar. Portanto, fora daqui e não volte."

Logo depois, os seguranças devolveram ao fotógrafo a sua máquina fotográfica e expulsaram-no para a rua, onde ainda estavam outros fotógrafos e jornalistas. Joey regressou à mansão, enquanto o fotógrafo se sentia humilhado e ia embora, decidido a não fazer nada, porque sabia que Joey iria cumprir a promessa que fizera e não queria ter de ir a tribunal.

O Pai de Todos os Problemas

Eram oito e vinte da noite quando Seto chegou à mansão. Ao entrar pela porta da frente, pousou a sua pasta num móvel que existia logo ao pé da porta e suspirou, ainda em conflito consigo mesmo. Os seus detectives tinham sido eficientes e com ofertas de dinheiro, na redacção do jornal que publicara a noticia, a pessoa que falara com quem tinha fornecido a noticia falara e revelara o que acontecera e do que se lembrava. Os detectives tinham de seguida contado a Seto o que tinham descoberto. Seto caminhou até à sala de jantar.

"A pessoa diz que foi um homem e que pareceu que ia dizer o meu filho, quando se referiu ao Joey… não pode ser outra pessoa que não o pai do Joey." pensou Seto, respirando fundo. "Mas a pessoa também pode ter percebido mal. Se conto isto ao Joey e digo isto do seu pai e não for verdade, o Joey ficará muito aborrecido, mas também se não conto nada e for verdade, então o Jake Wheeler está disposto a tudo para me separar do Joey, porque se foi ele, de certo que era esse o seu objectivo."

Ao entrar na sala de jantar, Seto viu que Joey, Mokuba e Jake já estavam a comer. Joey largou os talheres e levantou-se ao ver Seto, caminhando na direcção dele.

"Ainda bem que já chegaste. Liguei-te para o escritório mas a tua secretária disse que estavas a ter outra reunião e o telemóvel estava desligado, portanto não sabia quando é que chegavas." disse Joey.

"Sim, tive mais algumas reuniões hoje, mas está tudo bem na Kaiba Corporation. Vamos sobreviver a isto."

"Ainda bem." disse Jake, olhando para Seto. "A economia não está propriamente bem e vá lá, a Kaiba Corporation vai manter-se. Quando a vossa relação foi descoberta, eu até pensei que isso iria destruir a empresa por completo."

Seto voltou a respirar fundo e tomou uma decisão. Podia não ter sido Jake Wheeler a denunciar a relação que o filho estava a ter com Seto, mas Seto tinha de falar do que descobrira. Nunca fora de deixar as coisas por esclarecer e não começaria agora. Encarou Joey.

"Contratei detectives para investigarem como é que a notícia do nosso relacionamento chegara aos jornais. Foi através de uma chamada telefónica e a pessoa não se identificou, porém, a mulher que falou com a tal pessoa indicou que ele, visto que foi um homem que ligou para o jornal, acabou por se referir a ti como seu filho, Joey."

Seto decidiu não dizer que a recepcionista apenas tinha quase a certeza que o homem que ligara se referir a Joey como seu filho, mas não o fizera exactamente. Queria ver reacções e portanto daquela maneira teria reacções mais precisas. Joey ficou alguns segundos a processar o que Seto lhe dizia e depois virou-se para o pai.

"Pai, foste tu que ligaste para o jornal?" perguntou Joey.

"Não, claro que não!" exclamou Jake, levantando-se da cadeira onde estava sentado. "Isso é mentira."

"Eles têm a chamada gravada e ouve-se perfeitamente a sua voz." disse Seto, rapidamente.

Aquilo era claramente mentira. A chamada não fora gravada e Seto estava agora a arriscar muito, mas queria ter a certeza se fora Jake ou não. Assim, se Jake fosse culpado e pensasse estar encurralado, talvez se denunciasse.

"Ei, você foi dizer aos jornais que o meu irmão e o Joey namoravam?" perguntou Mokuba, olhando para o pai de Joey, que estava do outro lado da mesa. "Porque é que fez isso?"

"Eu… eu…" começou a dizer Jake.

"Se a chamada está gravada, não há como negar, pai!" exclamou Joey, furioso.

"Pronto, está bem, fui eu." admitiu Jake, olhando de Joey para Seto e depois para Mokuba. "Fui eu que contei que estavam juntos."

"Porquê?" perguntou Joey. "Porque é que fizeste isso? Não faz sentido nenhum!"

"Claro que faz. O teu pai não nos quer ver juntos. Ele conversou comigo quando vocês vieram para cá. Não acha bem que estejamos juntos porque somos do mesmo sexo. E então, lembrou-se de contar aos jornais a verdade para nos criar problemas, afectar a empresa e provavelmente pensava que nos separaríamos por causa disso." disse Seto, encarando de seguida Jake. "Não é verdade? Pensou o quê, que se houvesse um escândalo eu iria imediatamente largar o seu filho, foi? Pois enganou-se."

Jake bufou zangado e caminhou até perto de Joey e Seto.

"Sim, é isso mesmo. Queria ver-vos separados. Joey, tu mereces melhor que ele e tens de te juntar a uma mulher e não a outro homem." disse Jake, olhando para o filho. "Fiz isto tudo a pensar no teu bem e apenas isso."

"Uma ova! Tu não pensaste nada em mim!" exclamou Joey, zangado. "Tentaste separar-me da pessoa que eu amo! Pensaste apenas em ti, porque queres que eu o deixe e namore com uma mulher. Mas eu não quero deixar o Seto porque é dele que eu gosto. Eu pensava que tu tinhas aceitado o nosso relacionamento."

"Tive de o fazer para não te perder, Joey, mas… mas chega! Tens de te afastar do Kaiba. Vamos embora daqui e nunca mais o vês. Vamos começar a vida noutro lado se for preciso."

Joey abanou negativamente a cabeça.

"Não, nem pensar. Eu não me vou separar do Seto. Pai, eu apoiei-te em tudo. Arranjei trabalhos para te pagar as divida, ajudei-te a recuperar do problema com o álcool, fui paciente em tudo e mesmo assim foste egoísta a este ponto. Pois bem, quem diz que chega sou eu! Acabou." disse Joey. "Está na hora de eu viver a minha vida sem ti. Vou arranjar um emprego e fazer a minha vida e tu fazeres a tua. Agora parece-me óbvio que deves ir arrumar as tuas coisas e saíres da mansão."

"Joey…"

"Não digas nada. Vai-te embora!"

Jake lançou um olhar zangado a Seto e Joey e depois saiu da sala de jantar, fechando a porta atrás de si com estrondo. Seto abanou a cabeça.

"Lamento, Joey." disse ele.

"Eu é que lamento. Por causa do meu pai, estamos nesta confusão, a empresa está um caos e…"

Joey foi silenciado por Seto, que lhe colocou um dedo nos lábios. Mokuba tossiu, lembrando-lhes que ainda estava ali e por isso que não pensassem começar a beijar-se ou algo assim à sua frente.

"Não te preocupes com a empresa. Ouve, o teu pai vai embora, mas eu quero que tu fiques aqui. A viver comigo e com o Mokuba." disse Seto. "E neste caso não aceito um não como resposta."

Joey olhou para Mokuba, que acenou afirmativamente com a cabeça, sorrindo.

"Sim, Joey, fica a viver connosco." pediu Mokuba.

"Nesse caso, visto que são os dois a pedirem-me, tenho de dizer que sim." disse Joey, conseguindo sorrir, apesar de ainda estar chocado com o que o pai fizera. "Mas vou mudar a minha vida, Seto. Tu trabalhas imenso e eu tenho andado de emprego em emprego, mas agora vou arranjar um mesmo a sério."

"Nisso eu posso ajudar-te e…"

"Não. Obrigado mas quero fazer isto sozinho." disse Joey. "Venho viver para aqui e fico feliz com isso, mas também não quero que faças tudo por mim, nem me arranjes emprego. Eu consigo por mim próprio."

Seto acenou afirmativamente. Depois, ele e Joey abraçaram-se e Mokuba acenou com a cabeça. O irmão estava realmente diferente. Dantes praticamente não abraçava ninguém, a não ser o próprio Mokuba e mesmo assim muito raramente. E agora Joey iria ficar definitivamente a viver na mansão e Mokuba estava contente por a sua família ter aumentado.

"Ainda bem que estão tão felizes, mas já agora é melhor irem para o quarto ou algo assim, para que eu não vá ter de assistir a cenas mais picantes entre vocês, porque dispenso isso."

Seto e Joey olharam para Mokuba e sorriram. Depois, Seto ficou mais sério.

"Mokuba, já agora, o que é que aconteceu com o teu olho?"

O Pai de Todos os Problemas

A chuva voltara a abater-se com força sobre a cidade Dominó, acompanhada de muito vento, relâmpagos e trovões. Tinham-se passado cinco meses desde que a história do relacionamento de Seto e Joey fora revelada no jornal. Demorara um mês inteiro para os jornalistas perderem o interesse na relação e deixarem Seto e Joey em paz. A partir da segunda semana, os jornalistas apenas tentavam especular alguma coisa, visto que já não tinham mais coisas para dizer ou revelar.

Seto tomara medidas para que Mokuba não voltasse a ser importunado na escola, o que queria dizer que Seto ameaçara a administração da escola de que os processaria se algo de mal voltasse a acontecer com o irmão, pelo que ele era vigiado à distância para que se evitassem problemas.

Jake Wheeler tinha saído da mansão e agora estava de volta ao seu apartamento, já arranjado. Ele e Joey já tinham falado, por telefone, mas não se tinham voltado a encontrar. Joey achava que perdoaria o pai com o tempo e talvez conseguissem voltar a ter uma relação civilizada, mas já não voltaria a ser como era anteriormente.

Os negócios da Kaiba Corporation tinham voltado praticamente ao normal. Alguns dos sócios tinham vendido as suas acções e ido embora, sendo substituídos por outros, tal como alguns negócios se tinham perdido e outros tinham sido ganhos.

O estrondo de um trovão foi ouvido por toda a mansão. Seto mexeu-se na cama e abriu os olhos, tendo acordado com o barulho. A seu lado na cama, Joey continuava a dormir profundamente, porque quase nada o conseguia acordar sem mais nem menos. Seto mexeu-se um pouco na cama. Lá fora a tempestade continuava, mas ele não estava preocupado.

"Mais uma noite chuvosa, mas nestas noites ainda apetece mais estarmos numa cama quente, ainda mais quando estamos com aquela pessoa especial." pensou Seto, passando um braço pela cintura de Joey. "Agora está tudo bem. Se há alguns anos me dissessem que eu estaria aqui, assim com o Joey ou com qualquer pessoa, aliás, chamaria a essas pessoas malucas. Mas as coisas mudam, felizmente."

Pouco depois, Seto já dormia profundamente. Se antes tinha sonhos em que por vezes perdia Joey, agora isso já não acontecia. Os seus sonhos com Joey eram sempre bons e livres de qualquer receio, porque Seto tinha a certeza absoluta que ele e Joey tinham uma relação para durar visto que tinha resistido a confusões por ter sido tornada pública, pelo pai de Joey os ter tentado separar e ainda porque apesar de viverem juntos conseguirem viver em paz e sem confusões. E assim, apesar do tempo turbulento, Seto e Joey dormiram calma e profundamente o resto da noite. Na vida, ainda poderiam ter de enfrentar muitas situações mas ambos estavam perfeitamente convencidos de que juntos conseguiriam superar fosse o que fosse.

Fim