Sakura chega alguns minutos depois.

Não é a primeira vez que ela desmaiou, mas não torna a situação menos assustadora.

Ninguém a viu, ao que parece. Ela não sumiu tempo suficiente para alguém sentir sua falta, o que a convém. A última coisa que ela precisa é que Ino ou Karin ou Naruto ou qualquer um dos outros (ela severamente exclui Sasuke) a encontrem apagada na poeirenta e velha grama atrás da árvore de cerejeira no meio do bloco. Entretanto, ela ignora o grito em seu coração por alguém, qualquer um para salvá-la dessa prisão diária que parece estar ficando menor e menor, e com uma força que ela quase não acredita ser sua, ela se levanta e limpa seus joelhos e suas roupas e coloca sua bolsa carteiro nos ombros e volta para seu quarto.

Sasuke foi embora. Aquilo não a surpreende. Mas sua presença perdura no quarto, o inebriante cheiro de sua colônia, um aroma que ela não quer admitir que lhe atrai. Ele esqueceu seu suéter também.

Ela rascunha um email para seu professor para justificar sua ausência. Um toque de vírus estomacal e um poderia me passar notas da palestra muito obrigada. Apenas mais uma mentira para adicionar a sua coleção. Ela nem se sente culpada mais, não quando mentir é tão essencial quanto respirar se isso significa manter seu disfarce de garota normal com vida normal. E Sakura vai levar seu segredo para a porra do seu túmulo se puder.

Ela ainda se sente tonta, e ela deve ter batido sua cabeça na queda, porque há um corte superficial em sua têmpora. Ela o limpa com antisséptico e faz a mesma coisa com seus joelhos, limpando o sangue enquanto termina. Ela arruma sua franja para que ela esconda o arranhão rosado e troca o seu traje chic por um par de calças de moletom que escondem os cortes em seus joelhos.

Ela não tem outra aula até a noite, aula de Cálculo do outro lado do campus, então ela decide pular o almoço, e volta para a cama.

Ela checa se sua porta está trancada e, sem pensar muito a respeito, pega o suéter de Sasuke do chão e o veste antes de mudar de ideia. Ele a afoga, a sufoca com aquela estranha, misteriosa segurança que ela sempre sente quando ele está por perto, e sua respiração relaxa um pouco mais. A dor em sua cabeça não é mais tão insuportável e, enquanto ela se enrola debaixo dos cobertores, ela adormece se sentindo mais segura do que tem direito.

São somente dez da manhã.

A pessimista em Sakura a lembra que ainda há muito tempo sobrando no dia para as coisas piorarem. Mas a otimista em Sakura, que está se sentindo particularmente alegre enrolada no cheiro e calor do suéter de Sasuke, a diz para calar a boca e dormir um pouco e ir para a aula de Cálculo com a mente clara.

A mudança tem que começar em algum lugar. Ela se enrola no suéter de Sasuke e jura pela octogésima vez que ela vai começar aqui.


Sasuke estava certo sobre as Noites de Filme.

Terça-feira é outra delas. Ela começa com Naruto precisando de ajuda da garota com a lição e arrastando ele junto. Se a garota está afetada pela pequena discussão deles (se você puder chamar assim) ela não transparece. Ao invés disso ela sorri para ele, com cautela mas de forma sincera, como se pudesse ver a falta de sentido em ser qualquer coisa menos que honesta quando se trata de sorrisos, e o acolhe com Naruto.

Seu suéter recém lavado cheira como ela, o que seria irritante se o cheiro dela não fosse tão bom.

Eles fazem uma quantidade decente de lição (essa garota tem conhecimento sobre muitas coisas inclusive equações de contabilidade, o que o ajuda mais do que ele vai admitir em voz alta) antes de Naruto se entediar e então todo mundo chega para esquartejar umas pizzas e assistir filmes e falar merda e flertar e brigar.

Para sua surpresa, a garota, que normalmente é tão pra cima e vamos-com-tudo pra todo mundo, está quieta e reservada. Ele não a viu desde ter adormecido em seu quarto e ter gritado com ela depois, mas ela parece deprimida. Sua maquiagem é mínima, contida, ainda exagerada para o seu gosto já que ele não sabe como ela é sem ela, não de verdade, e seu cabelo, normalmente tão brilhante e com movimento e com qualidade-de-comercial-de-shampoo, está liso e de alguma forma "caído".

"Eu vou malhar um pouco," ela anuncia de repente, e Sasuke pensa que ele foi o único que a ouviu. Os outros estão muito preocupados rindo de quaisquer travessuras estão acontecendo na TV, e ninguém (fora ele) percebe a maneira como ela agarra sua jaqueta de couro marrom, a coloca de forma segura, e deixa os idiotas sozinhos no seu quarto.

Sasuke não sabe o que o impele a se levantar também.

Talvez seja porque ele odeia Seth Rogen, que no momento está sendo gordo e ridículo na arrebentada e velha televisão precariamente equilibrada na cômoda da garota.

Talvez seja porque ele mora com Naruto e, francamente, suporta muito do seu amigo para sua sanidade.

Ou talvez seja porque ele vê tristeza nos olhos da garota, uma brutal, dolorosa, e honesta tristeza que o faz pensar que ela pode estar a ponte de tirar a sua armadura.

O que quer que seja, ele desliza atrás da garota, mãos dentro dos bolsos, e quando a porta se fecha atrás dele, ele não vê as sobrancelhas erguidas e olhares curiosos deixados para trás.


Sakura troca de roupa no vestiário. Ela se esconde em um dos chuveiros, cuidadosamente pra manter suas roupas fora do chão molhado, e tira camada por camada antes de vestir shorts de algodão e uma blusa cinza. Seu cabelo rosa está amontoado no topo de sua cabeça em um rabo de cavalo bagunçado, sua franja para fora de sua testa. Ela coloca um par de tênis surrado que Ino está tentando fazer com que ela jogue fora e guarda suas coisas no armário.

A academia está lotada, o que é bom. Porque quando Sakura quer ficar sozinha, ela gosta de ficar sozinha no meio de muitas pessoas. Anonimato é muito mais possível em uma multidão, e no topo da prazerosa solidão, ela também desfruta do conforto e segurança de estar perto de outros. Ninguém pode te ferir quando todos estão olhando, certo?

Então ela escolhe a esteira no meio da academia com uma vazia ao seu lado, uma zona amortecedora e uma cortesia para os outros usuários da academia. Ela dá alguns passos na esteira inativa para fazê-la funcionar, então escolhe o treino de subida mais implacável que a maldita coisa oferece.

Sakura não está com disposição para entreter seus amigos essa noite. Não tem certeza do porquê. Ela acha que não se recuperou totalmente do assustador ataque de pânico do dia anterior, e uma distração é válida. Nada como um severo, punitivo treinamento para fazer com que você se sinta tão cansado, que você não tem energia para contemplar de quantas maneiras sua vida está desabando, e todas as maneiras que você é impotente para pará-las.

Ela corre e corre e força suas pernas até suas coxas queimarem, e então as força ainda mais. Ela está suando em pouco tempo mas é uma experiência purificante, como se todas as más vibrações e o nervosismo e o mau humor estejam sendo expulsos com todo o resto. Seu rabo de cavalo balança de um lado para o outro como um pêndulo enquanto ela move os braços com suas passadas largas; a fisgada na sua lombar é dolorosa, mas pelo menos ela sente outra coisa fora a ansiedade. Ela consegue controlar isso, ela pode trabalhar com isso.

Correr é uma coisa em que ela sempre foi muito boa.


Sasuke assiste ela correr.

Ele ainda não sabe por que ela é tão importante para ele, por que tudo que ela faz o afeta de alguma forma. Mas lentamente os pedaços estão sendo colocados juntos, não o suficiente para ver a figura toda, mas está ficando cada vez mais claro para ele.

Pelo menos, ele vê que eles são mais parecidos do que pensava.

Ele reconhece o esforço nos músculos, a determinação no seu rosto. Ele reconhece as respirações descompassadas que traem sua exaustão, mas o fogo em seus olhos diz que ela não vai desistir até que desmaie. Dentre todas as coisas ele reconhece que essa garota não está correndo por correr; ela está correndo de alguma coisa, e talvez, como ele, tentando encontrar alguma coisa para correr em frente.

Ele se questiona se ela já encontrou. Se questiona se vai encontrar.

E Sasuke se questiona porquê ele questiona. Essa garota, quem ele conhece a menos de uma semana, toma tanto do seu tempo e atenção. Ele não sabe como ela conseguiu isso quando tantas garotas no colegial devotaram suas vidas para ter sua atenção sem sucesso. Ela não fez nenhum esforço e agora ele não consegue sacudi-la para fora de sua cabeça.

Ele se move propositalmente até a esteira em que ela está correndo, seus passos calmos, mãos nos bolsos do seu jeans. Ela não o percebe até que ele está bem ao seu lado, e ela parece surpresa.

"Sasuke? O que você tá fazendo aqui?"

"Você é irritante", ele a informa.

Seus olhos brilham com raiva, e ver uma emoção tão honesta é refrescante. "Você já fez isso bastante claro", ela estoura, deixando a esteira num passo de caminhada e saindo dela. "O que volta a questão, o que você tá fazendo aqui?"

Ela não espera por uma resposta. Ela caminha para longe dele em direção ao vestiário feminino, provavelmente para pegar suas coisas. Mas agora que a atenção de Sasuke foi presa, ele não vai deixá-la fugir, não quando ele quer que ela saiba que sua existência é irritante para ele, não quando ele quer fazê-la tão, tão frustrada quanto ela o faz. Ele a alcança e agarra seu braço para para-la.

Sua pele é irritantemente macia. Seus braços são magros e seus dedos se enrolam inteiramente ao redor deles para demonstrar a diferença de tamanho. A garota se empurra para longe, afobada e se vira para olhá-lo.

"O quê, Sasuke?", estoura ela.

Sasuke está de alguma forma surpreso, e muito intrigado. Ela reage com violência e urgência quando ele a toca; segurar seu cotovelo não deveria desencadear uma resposta tão violenta. Parece que ele está encontrando cada vez mais d=pedaços desse quebra-cabeça, mas ainda não consegue a figura completa.

Quão quebrada essa garota é?

Ele tenta de novo. Suas mãos seguram seus pulsos para mantê-la parada no lugar, e agora ele está buscando isso, não há confusão alguma no pânico do seu rosto. Olhos verdes se dilatam e sua respiração acelera. Seu pulsos em seus dedos estão duros; ele vê seu corpo todo se tencionar como se ela estivesse se preparando para uma corrida.

Lutar ou fugir.

Sasuke está consciente de que uma academia lotada não é o melhor lugar para testar suas teorias, especialmente quando essa garota parece estar a beira de um colapso nervoso. Mas esses sintomas ele reconhece: estresse pós-traumático. O que poderia ter acontecido com ela, que o toque de um homem, inocente, desencadeia tanto medo?

Ela arfa e força seu braço fora do seu agarre. Ela se afasta cautelosamente e o encara com confusão e raiva e medo e cautela e outras mil emoções balançando no seu olhar, seus tênis rangindo no chão de borracha quando ela faz isso.

"Se acalma", ele diz, de uma forma mais dura do que pretendia. "Eu não vou te machucar."

As palavras tem efeito oposta ao que ele estava procurando. No lugar de tranquilizá-la, Sasuke vê seus olhos arregalados no que ele pode descrever apenas como terror. Sasuke tem a sensação de que ela ouviu essas palavras antes, num lugar diferente, tempo e contexto, e está revivendo uma memória dolorosa demais para que ele possa imaginar.

A cor em suas bochechas pelo treino some; toda cor se esvai do seu rosto enquanto seus ombros travam, seus braços apertados ao seu redor em um aperto inabalável. Ela solta curtas, descompassadas respirações e treme como uma folha no vento.

Sasuke percebe o que está acontecendo. Ela está tendo um ataque de pânico. Abruptamente a figura vai ficando cada vez mais clara, não inteiramente, porque ele duvida que vai desvendar essa garota completamente, mas o suficiente para ele supor o que aconteceu com ela, porque ela é do jeito que é. Ele está dividido entre a satisfação de forçar a honestidade para fora dela e culpa pelo que ela causou, e ele sabe que não pode deixá-la se quebrar aqui, na academia, na frente de todo mundo.

"Vamos," ele diz bruscamente. Ele não a toca, porque foi o que começou isso tudo. "Vamos."

"Por favor," ela sussurra, mas ele suspeita que ela não está falando com ele de forma alguma. Seu olhar está desfocado como se ela estivesse vendo algo que ele não enxerga. "Por favor, para, para..."

Sasuke não sabe o que fazer agora. A garota está praticamente catatônica, e as pessoas começando a prestar atenção.

Mas a garota torna o seu trabalho mais fácil quando o estresse da situação a alcança. Seus olhos viram pra dentro da cabeça e ela cai pra frente direto em seus braços.

Merda.


Quando Sakura acorda, acorda para uma dor de cabeça escruciante, uma onda da familiar náusea e uma cama desconhecida com lençóis escuros de mais para serem seus.

Esse não é o seu quarto.

Uma onda de pânico a esmaga até ela capturar o cheiro de algo seguro. Uma rápida observação de seus arredores: lençóis pretos utilitários, paredes vazias, uma mochila cheia de equipamentos de basquete, revela o que seu subconsciente já imaginava.

Ela está no quarto do Sasuke.

Leva um momento, como sempre, para ela lembrar o que aconteceu. Ela lembra devagar. Ela estava na academia, Sasuke veio procurando por ela. Uma discussão. Uma briga.

Sua mão em seu cotovelo, em seu pulso. Memórias de uma noite que ela quer deixar apodrecendo no passado onde pertencem, ao contrário da presença constante em sua mente, onde estão e ameaçam estar sempre.

Palavras sussurradas, com intenção de confortar.

Eu não vou te machucar.

Os lábios de Sasuke estavam se movendo, as palavras eram dele, mas Sakura se lembra delas daquela noite amena de verão um ano atrás. Ela de como elas inundaram seu subconsciente enquanto sua cabeça nadava, seu coração acelerava e seus músculos não cooperavam. Ela se lembra de como eles sussurraram em seu ouvido, o cheiro de rum e malícia tão pungentes que a deixaram enjoada. Ela se lembra de como elas precederam um acontecimento que a deixou tão machucada e cheia de cicatrizes, que ela teme nunca mais ser a garota que um dia foi.

Sakura segura as lágrimas e se senta devagar, alongando seus músculos rígidos. Ela está inconsciente da presença de Sasuke até que ele limpa a garganta, e ela se vira para encontrá-lo sentado na cadeira de sua mesa a observando.

Sua expressão ilegível.

Por um longo tempo o silêncio reina. Sakura imagina o que ele vê quando olha para ela, para a despedaçada e irremediável bagunça que ela tem sido por meses, provavelmente anos e quase com absoluta certeza sempre.

Ela imagina e espera.