Ato I: Casamento

Capítulo 14. Procura a meia-noite

Giotto observava com atenção a medida que Ugetsu derrubava com facilidade um inimigo atrás do outro com movimentos fluídos da espada de madeira. Com certeza a perícia dele havia aumentado bastante, e ele não estava se prendendo a um estilo, mas sim criando técnicas ao longo da batalha. Estava sentado sob uma pequena tenda com uma vista privilegiada para a arena, sendo acompanhado pela família real de Gravitta, pelo rei de Yema e por Tsuna. G havia chegado a poucos minutos e comia uma maçã enquanto observava as lutas, mas o ruivo parecia ter a mente longe.

-Mestre Giotto. - fala Alberto ao seu lado - Temo que alguns rumores tenham se espalhado pelas cozinhas.

Franze as sobrancelhas. Tentara abafar ao máximo o caso do assassinato do pobre rapaz e apenas duas das moças que trabalhavam lá sabiam da notícia porque poderiam entrar em contato com a família dele, mas não esperava que a notícia se espalhasse tão cedo.

-Já descobriram sobre o rapaz?

-Na verdade é sobre G-sama. - Giotto encara-o com surpresa e viu que Cozarto também havia virado o rosto demonstrando certo interesse - Algo sobre ele ser casado.

Não sabia dizer quem estava mais boquiaberto, ele mesmo ou Cozarto. Pode ouvir G tossindo, provavelmente engasgado com o pedaço de maçã que comia. Parece que ele não estava tão desatento assim. Tsuna olhou para trás, provavelmente preocupado que G estivesse envenando ou coisa do tipo (depois de dois atentados, você sempre pensa no pior), mas acena para ele não se preocupar e o primo volta a conversar com Dino.

-Você é casado? - sussura Cozarto, difícil dizer se irritado ou surpreso - E nem nos contou? Nós, seus melhores amigos!

-Não é bem assim. -começa G tentando se explicar, mantendo a voz baixa.

-Sempre achei que seria seu padrinho. Me sinto traído. - Giotto limpa uma lágrima inexistente do canto dos olhos.

-Não sou casado droga! - fala o ruivo levantando um pouco o tom de voz.

-Foram claramente ouvidos sons de um jovem casal fazendo amor. - fala Alberto mantendo a voz e o rosto impassível, mas podia imaginar que ele sorria por dentro. Cozarto já estava tão inclinado sobre a cadeira que poderia cair por cima de Giotto

-Não é isso! Ela é noiva do meu irmão. - G inclina-se mais na direção deles. Giotto teve que encostar-se mais a cadeira, já que Cozarto estava apoiado num dos braços da sua cadeira e G no outro e sinceramente não iria interromper a guerra sussurrada.

-Você dormiu com a noiva do seu irmão! - Cozarto inclina-se na cadeira, mas não havia mais apoio e o rei de Gravitta caiu com o rosto no chão. Adelia olhou na direção dele preocupada, mas Giotto balança a cabeça com um sorriso amarelo. A morena olha novamente para o noivo antes de voltar a atenção a luta - Eu não acredito nisso G! Que tipo de homem é você? - Cozarto esfrega o rosto indignado tanto pela conversa quanto pela queda, tentando manter o tom de voz baixo, mas era difícil quando suas emoções tomavam controle.

-Querem ao menos me ouvir?! - grita o ruivo ganhando a atenção de quem estava mais próximo, ou seja Adelia, Tsuna, Enma e Dino.

-Seu canalha! - fala Cozarto apontando para o outro ruivo, apesar que ele ainda estava ajoelhado no chão e não teve todo o efeito que queria. G estava com uma grande veia saltando na testa e pela expressão furiosa não duvidava nada que ele pularia no pescoço de Cozarto para esganá-lo, mas estava na dúvida se apenas assistia, separava os dois ou ajudava Cozarto a dar uma lição em seu amigo de infância.

-Algum problema meninos? - pergunta Adelia estreitando os olhos

-Não é nada. - falam os três ao mesmo tempo virando-se para olhá-la antes de se encararem novamente.

-Não vou ficar aqui ouvindo essas calúnias. - G diz em voz mais baixa e se levanta - Estarei no meu quarto se precisar de mim.

-Eu sei muito bem o que você vai fazer no quarto! - fala Cozarto antes de G se virar e sair fulminando. Bom, com certeza o ruivo precisava dar algumas explicações.


-Gostei desse. - fala Tsuna mostrando a pulseira que havia chamado sua atenção mais cedo. Os jogos haviam dado uma parada no fim da tarde e aproveitou o momento para falar com Fiore. Ela ainda estava no quarto de G e encontrou ela montando alguns colares enquanto G fumava (ou soltava fumaçava de raiva, era difícil dizer) perto das janelas. G ainda estava perto da janela, mas ele estava sentado no parapeito com um livro nas mãos enquanto Fiore mostrava as peças que fizera.

-Boa escolha. - fala Fiore aprovando a pulseira de pedras azuis que tinha na mão. As cordas faziam um tipo de mosaico ao redor das sete pedras - Esse é vinte bronze.

-Quero ele. - fala com um sorriso. Podia ter um para si mesmo e outro para Giotto - Você tem muito talento.

-Obrigado. - ela sorri - Você disse quer ver como eu faz mais cedo?

-Isso. Eu gostaria de saber se posso fazer usando isso. - tira do bolso a pedrinha de caelum que Natsu havia lhe dado.

-É possível. - ela segura a pedra entre os dedos - Mas precisa de mais pedras.

-Se eu pegar mais, acha que amanhã dá tempo de fazer ele todo?

-Sim. - ela sorri e murmura alguma coisa em seik antes de levantar seis dedos - Mais seis pedras até amanhã.

Acena confirmando e ouve alguém bater a porta. Vira-se e vê Natsu entrar com um pequeno sorriso.

-Tsuna, Giotto-sama pediu pra lembrar a você do jantar.

-Claro. - levanta-se e vai até a porta onde o mais novo esperava, mas vira-se acenando para Fiore - Eu trarei amanhã. - ela acena confirmando e fecha a porta virando-se para Natsu - Vamos começar a busca hoje a noite.

-A noite? Mas terá a premiação do campeão do torneio.

Tsuna franze um pouco as sobrancelhas. Sabia que teria a comemoração naquela noite, mas esperava sair de fininho no meio da festa. Normalmente não ganhava muita atenção, dessa vez se aproveitaria disso.


Suas esperanças se provaram vãs, já que Emma, Dino e Giotto não deixaram ele sozinho muito tempo. Então lá estava ele, as três da manhã tateando o caminho até a cozinha. Agradece internamente a Giotto por tê-lo feito ir a cozinha dezenas de vezes pelos caminhos secretos ou teria se perdido na escuridão (não se atrevia a acender uma vela e ser descoberto, afinal ver uma luz entre as paredes deixaria certa desconfiança).

Ao chegar a cozinha, voltou pela escada e entra numa porta a direita que se abre num corredor com portas de ambos os lados, os empregados costumavam dormir nesses quartos especialmente os que tiravam poucas folgas como Nanami, Flavia ou Luchio. Entra na segunda porta a direita, movendo-se devagar para não fazer barulho. O quarto era pequeno e tinha duas camas: uma de casal que Nanami dividia com Alberto e uma menor que ficava na parede oposta, que era a de Natsu. Anda o mais silenciosamente possível e para ao lado da cama de Natsu, colocando uma mão sobre o ombro do amigo. Natsu rolou sobre o ombro e gemeu baixinho antes de abrir os olhos.

-Tsuna? - ele senta na cama, não via mas sabia que ele estava usando uma calça e blusa folgada.

Natsu puxa seus sapatos mais pra perto e calça-os do jeito mais silencioso que podia. Tsuna olha para Nanami algumas vezes achando que ela acordaria, mas ela só virou na cama murmurando alguma coisa durante o sono. Quando Natsu terminou de calçar os sapatos, eles saem do quarto. Tsuna volta para a cozinha e abre a passagem. Estava entrando, quando se virou para trás para dizer ao amigo que ficasse em silêncio e viu que Natsu continuava no meio do corredor

-Não vou entrar aí. - o mais novo sussurra abraçando a si mesmo - Porque não podemos ir pela porta como normalmente?

-Os guardas nunca nos deixariam sair a essa hora. - Tsuna sussurra e volta segurando a mão dele - Eu conheço o caminho, pode confiar.

-Eu confio em você. - ele apertou sua mão com um pouco mais de força antes de mover o quexo indicando a passagem - Eu não confio é nesse túnel aí.

Tsuna volta tateando pelo caminho secreto, demorando um pouco mais porque Natsu as vezes tropeçava no próprios pés ou batia numa curva abrupta, mas conseguiram sair bem próximos ao jardim do lado leste após mover uma pedra que na verdade era uma porta falsa que abria por dentro. Tsuna põe a cabeça pra fora vendo que não havia guardas ao redor e sai com Natsu seguindo-o bem de perto. Eles começam a procurar perto das ervas recém-plantadas de G, mas após alguns minutos de muito cavar e revirar as plantas não encontram nada além de pedras normais.

-Devíamos ter trazido uma vela. - fala Natsu esfregando o suor da testa. Havia trabalho durante todo o dia e se não tivesse prometido ajudar, ainda estaria enfurnado debaixo dos lençóis tendo seu merecido descanso - Nana vai reclamar comigo amanhã. - murmura enquanto continuava a tatear a terra procurando alguma pedrinha que brilhasse contra a lua.

-Tem certeza que encontrou aqui? - pergunta Tsuna em voz baixa, estava preocupado pelos guardas. Só Deus sabia onde os guardas de Lal Mirch estavam já que ao contrário dos outros eles não usavam tochas ou lamparinas. - Talvez devêssemos olhar mais perto do jardim.

-Okay. - Natsu engatinha alguns metros até algumas rosas mais próximas procurando próximo as raízes. Tsuna vai procurar na direção oposta procurando próximo a pequenas plantas, mas não encontrava nada além de pedras escuras. - Encontrei uma. - fala Natsu levantando uma pedrinha na mão para mostrar a ele antes de guardá-la no bolso.

-Ainda faltam cinco. - diz Tsuna levantando-se e bate na calça para tirar a terra - Vamos procurar dentro do jardim. - Natsu confirma e levanta-se.

Eles andam um pouco até alcançar o jardim onde uma cerca viva com pouco mais de um metro de altura havia sido feita de forma a fazer três círculos concêntricos com a mesa que ficaria bem no centro, cada um dos 'círculos' tinha uma flor de cor diferente, apesar de não poder vê-las a noite, ainda conseguia sentir o perfume a medida que andava entre elas. Ele e Natsu vão até o segundo círculo e voltam a se abaixar para procurar .

-Acho que vi alguma coisa ali. - Natsu aponta para um pouco a frente deles. Tsuna engatinha até parar ao lado dele e abaixa-se encostando o rosto no chão vendo que havia um brilho bem sutil embaixo de algumas flores

-Consegue alcançar? - pergunta Tsuna. Natsu estica a mão, mas nem chegou perto de tocá-las.

-Segura essa parte aqui. - o mais novo coloca sua mão onde alguns galhos faziam um arco e Tsuna puxa-os para cima. Natsu deita-se no chão e estica o braço, mas ainda não alcança - Acho que vou ter que me arrastar.

Tsuna deita-se de bruços e tenta se arrastar entre as folhas e galhos. A cerca viva cobria-lhe da cabeça até a cintura quando conseguiu alcançar as pedrinhas. Natsu não estava numa situação muito diferente. O mais novo tira do bolso um saquinho onde Tsuna põe as pedrinhas que encontrou.

-Sete, oito… Como tem tantas aqui? - pergunta Natsu

-Nem ideia. Mas me lembre de diminuir a largura dessas coisas, parece até que eles podem me engolir. - Natsu ri baixinho enquanto Tsuna continuava colocando as pedrinhas e contando baixinho a medida que colocava.

-Você esqueceu uma. - Tsuna olha para frente, vendo que havia uma alguns centímetros a frente.

-Não consigo mais me mexer - o mais velho já estava muito contorcido entre os galhos. Natsu ri baixinho e arrasta-se um pouco mais a frente para pegar e após um pouco de esforço, os dedos do moreno roçaram a pedrinha antes de conseguir puxá-la para perto. - Acho que já é o suficiente.

-Concordo. - Natsu coloca a última pedra no saquinho antes de fechá-lo - Podemos voltar agora?

Tsuna confirma com um movimento de cabeça, mas congela ao ouvir passos próximos a eles. Se conseguisse enxergar com clareza veria que Natsu havia ficado pálido. Natsu virou-se pra ele.

-Tsu… - coloca a mão sobre a boca do amigo e apontou para trás. Se tivessem de ser pegos, pelo menos tentariam correr. Natsu confirmou e eles começaram a se arrastar novamente para trás, mas quando estavam quase completamente fora uma mão em suas costas fez eles congelarem.

-Não se movam. - fala uma voz conhecida. Tsuna virou-se para encarar o tutor que havia se abaixado entre os dois e mantinha uma mãos nas costas de ambos. Reborn encarava o espaço a frente e virou-se na mesma direção. Através dos galhos, pode ver um par de botas parar em frente a eles do outro lado da cerca viva.

Por favor, que não sejam os guardas da capitã, rezou o moreno em pensamento. Por favor, só dessa vez deixe-me ter um pouco de sorte. Sentia Natsu segurar seu pulso com força. Se algum dos guardas descobrisse, o castigo maior cairia nele. Talvez conseguisse convencer Reborn a dizer que Natsu não estava envolvido, com certeza sofreria mais nas 'aulas', mas ao menos seu amigo escaparia do pior. Gostaria de dizer ao mais novo para ficar calmo, mas tinha medo de falar e o guarda ouvir.

-Onde você estava? - pergunta uma voz grave e vê outro par de sapatos aproximar-se do de botas

-Tive que sair escondido. Não é fácil simplesmente sair com tantos guardas rondando sabia? - as botas se movem.

-Não é sobre isso que vim falar. O que estava pensando quando matou aquele empregado?

-Não sabia que era um dos empregados. A única descrição que tive daquele maldito guardião era que tinha cabelos vermelhos e estaria usando um terno simples.

-Todos os empregados que servem as mesas usam um terno simples. - as botas se movem novamente, o outro par de sapatos recuou um passo - Não importa agora. Depois da falha em matar o príncipe e o guardião, só resta uma chance. O rei não pode estar presente na reunião após o baile de amanhã ou todo nosso plano está acabado.

-Eu sei disso. - as botas viram-se na outra direção - Quando os outros chegam?

-Isso não é da sua conta. Seu trabalho é impedir que o rei participe da reunião e apenas isso.

As botas se afastaram a passos longos e o outro par de sapatos também se afastou na direção contrária. Continuaram na mesma posição por um tempo, Tsuna conseguiu contar até duzentos antes de Reborn tirar a mão de suas costas. Eles se arrastam pra fora do galhos e pode ver que Natsu tinha os olhos arregalados.

-O que vocês dois estavam fazendo aqui a essa hora da noite? - pergunta Reborn em voz baixa, mas a irritação dele era palpável. Eles se levantam vendo o homem no seu usual terno e fedora com as sobrancelhas franzidas.

-Procurando algumas pedrinhas. - falar em voz alta fez parecer um motivo bem estúpido - O que você está fazendo aqui? - pergunta colocando-se a frente de Natsu. Sente que o mais novo segurou a parte de trás da sua camisa.

-Estava procurando você. Vi quando saiu da cozinha e segui vocês dois. - Reborn vira-se na direção do castelo - É melhor voltarmos. - e mal falara isso, o tutor já se movia em direção ao castelo

-Espera Reborn. - Tsuna alcança-o andando lado a lado com ele - Aquelas pessoas...?

-Obviamente planejam algo contra seu primo. - Reborn ajeita seu fedora e apesar da parca luz viu que ele havia estreitado os olhos - Temos que informá-lo o mais rápido possível.


Giotto entra no quarto de Tsuna vendo que o primo dormia na cama junto com Natsu, ambos ainda com as roupas sujas de terra e marcas no rosto onde os galhos os haviam acertado. Dá um sorriso mínimo vendo os dois finalmente descansarem. Quando apareceram na noite anterior, falando ao mesmo tempo não conseguiu entender muita coisa. Natsu não parava de pedir desculpas e dizer que foi tudo ideia dele enquanto Tsuna dizia que havia arrastado Natsu a força e quase puxava os cabelos dizendo que alguém ia tentar matá-lo antes do baile.

Felizmente Reborn acalmou os ânimos dos garotos e explicou calmamente o conteúdo da conversa. Só depois de ouvir isso Giotto pediu aos meninos que fossem ao quarto e dormissem um pouco enquanto conversava com Reborn e G, que acordou alguns minutos a seu pedido e com muitos insultos. Havia perguntado se haviam visto algo além dos sapatos, mas eles estavam deitados no chão perto das cercas viva e Reborn não conseguiu distinguir um rosto entre os galhos, a única certeza que tinha era de que os dois que ouviram eram homens.

-Reborn-san, você não disse porque os meninos estavam no jardim aquela hora da noite. - fala o rei fechando a porta do quarto. Reborn estava encostado na parede oposta e inclina o chapéu de maneira a cobrir os olhos.

-Perdão majestade, mas acho que deveria perguntar a eles quando acordarem. - o homem faz uma pequena mesura antes de voltar ao próprio quarto.


-Alaude. - ouve-o bater na porta mais uma vez antes dela abrir apenas o suficiente para que o chinês colocasse a cabeça para dentro - Quer um pouco de chá? - o loiro apenas confirma com um aceno. Alaude estava sentado confortavelmente numa cadeira, observando nada em particular.

Fon entra com um pequeno sorriso, na mão esquerda segurava uma bandeja onde havia um bule e duas xícaras com tanta naturalidade que parecia ter feito aquilo a vida toda. Fon serve as xícaras em silêncio e agradece mentalmente por essa ação. A quantidade de pessoas aglomeradas nesse castelo dava-lhe nos nervos e não podia fazer nada sobre isso, já que era forçado a conviver com todas por ser o governante de Nebula.

-Aqui. - Fon estende uma xícara para ele antes de sentar em frente ao loiro puxando a trança longa por sobre o ombro. Alaude aceita a xícara e toma um pouco deixando o ar escapar pelo nariz como um suspiro. Fon havia até deixado a água na temperatura ideal deixando o sabor do chá realçado.

-O que aconteceu? - seus gelados olhos cinzentos miram Fon por um momento antes de passar um dedo pela xícara.

-É sobre Kyoya. - o chinês fala, o rosto um poço de calma. Alaude já devia ter imaginado. Esse era um truque bem baixo da parte de Fon, fazendo seu chá favorito e colocando na xícara que ganhara como presente da esposa (o único conjunto de xícaras que havia sobrevivido desde que seu filho aprendera a andar) para 'amaciar' alguma notícia.

-O que ele fez? - pergunta em voz gélida, mas Fon não era mais afetado pelos olhares gélidos ou tratamento frio por parte de Alaude; há muito o chinês havia se acostumado. Toma mais um pouco de chá e apenas quando afasta a xícara dos lábios Fon fala o que aconteceu. - Ele fez o que? - pergunta, sem perceber sua voz havia se levantado nas últimas palavras. Coloca a xícara sobre a pequena mesa de chá, a pobre xícara não merecia ser destruída por um lapso no controle de sua força.

-Ele arrumou uma briga com o filho de Lorde Daemon. - repete Fon, os olhos negros encarando Alaude a medida que a expressão do loiro ganhava um franzir - Mukuro-kun não saiu ferido, na verdade ele até conseguiu manter-se bem lutando contra Kyoya. Mas um dos empregados do jovem lorde precisa de atendimento médico com urgência, se não me engano o nome dele era Birds.

Sem perceber Alaude havia inclinado-se na direção do chinês e encosta-se novamente na cadeira. Atendimento médico com urgência, como Fon calmamente falou, significava uma coisa: o homem estava com os dois pés dentro da cova só esperando para ser enterrado ou um milagre para que sobrevivesse. Ele não devia estar surpreso. Ele sabia, sabia que Kyoya era como uma bomba andante esperando apenas uma pequena faísca para explodir.

Há duas semanas, havia colocado seu filho num navio junto com Fon e I-Pin para que eles fossem por mar até Piogge e de lá iriam de carruagem até o castelo. Na mesma noite, Kyoya havia saltado do navio e nadado metade da noite para voltar para a costa de Nebula. Se não conhecesse o temperamento do filho, não teria se preparado contra uma situação daquela. Quando Kyoya chegou ao cais e encontrou-o de pé esperando por ele, não pode deixar de dar um sorriso de canto ao ver a expressão do filho.

Supresa, raiva, humilhação, tudo misturado num olhar gélido que muito lembrava o seu. Havia colocado Kyoya num barco a remo e feito ele remar todo o caminho de volta ao barco, onde Fon já os esperava murmurando um 'Igual ao pai'. Teve que manter o filho algemado a cama e mantinha turnos com Fon para vigiá-lo e evitar que ele escapasse ou tentasse descontar a raiva em alguém da tripulação, mas surpreendentemente ele havia permanecido quieto durante todo o caminho.

Seu filho era muito mais inteligente que a maioria dos rapazes de 16 anos, conseguia falar além da língua de Caelum, japonês, chinês e francês com perfeição e conseguia derrotar dez homens com o dobro do tamanho dele sem derramar uma gota de suor, mas também era teimoso, indomável e guiava-se apenas duas palavras: força e orgulho. Não duvidava que havia algum plano se formando naquela mente e sabia que a pequena gangue de seu filho o apoiaria assim que ele se movesse. Como alguém podia ser ao mesmo tempo seu maior orgulho e sua maior dor de cabeça?

Fon oferece um biscoito amanteigado para Lichi, seu pequeno macaco albino de estimação, enquanto Alaude pensava no que faria em seguida, girando a aliança na mão esquerda. Era um hábito que havia adquirido, e apesar de sua amada Mei ter falecido a quase uma década, não deixava de usar a aliança. A chinesa havia sido a primeira e muito provavelmente a única mulher que ele amou. Fon levanta os olhos ao ouvir um suspiro longo vindo do loiro, os olhos negros e cinzentos trocaram um entendimento silencioso. Kyoya não podia ficar sem alguém que pudesse controlá-lo ou quando voltassem, o castelo estaria subjugado as vontades do filho.

-Eu poderia ficar. - Fon diz estende um dedo para Lichi, o macaco segura-o e Fon puxa-o colocando-o sobre o ombro - Você não pode largar suas obrigações em Nebula. Além do mais, parece que boa parte dos meus antigos companheiros estão aqui. Vai ser bom conversar com eles, saber o que fizeram nos últimos anos. - Alaude encara-o com a sobrancelha ligeiramente arqueada, mas não disse nada. Eles ouvem alguém bater a porta duas vezes.

-Fù qïn. - chama a voz feminina

-Estou aqui I-pin. Entre. - responde Fon e maçaneta gira devagar antes da porta abrir revelando uma garota de onze anos ela usava um qipao vermelho com flores brancas e os cabelos negros estavam presos em duas tranças que caiam até a cintura.

-Bom dia Shüshu. - ela faz uma reverência antes de olhar para o pai com um pequeno sorriso - Fù qïn, eu terminei minhas lições.

-Já? - Fon ri brevemente quando sua filha confirma orgulhosamente - Então vou corrigir. Com licença. - faz uma breve reverência a Alaude antes de ir até a porta onde a filha o esperava.

-Fù qïn, posso treinar o Kaze Ryuu hoje? - pergunta ela segurando a mão do pai

-Hoje não.

-Tudo bem - foi a última coisa que ouviu antes do chinês fechar a porta. Pensa com um suspiro, por que Kyoya não podia ser como I-pin e obedecê-lo sem ter que que iniciar uma briga e destruir metade do quarto?


Fù qïn: maneira formal de dizer "Pai" em chinês
Shüshu: maneira formal de dizer "Tio" em chinês

Capítulo novo! Espero que ainda tenha alguém lendo ._.'