O primeiro capítulo (oficial) da história. Espero que gostem!

Disclaimer: Katekyo Hitman Reborn! não me pertence.


Capítulo 1: A decisão do rei

Caelum, pela manhã.

Tsuna move-se um pouco no armário tentando achar uma posição menos desconfortável. Estava lá há horas, observando secretamente a reunião entre os líderes das nações mais poderosas. Não fazia isso por más intenções, mas odiava não saber o que acontecia nessas reuniões já que o primo nunca o levava e sequer dizia o que acontecera. Acabou desenvolvendo o hábito de ouvir de trás das paredes ou de portas dos armários e isso havia lhe dado um ouvido até sensível para sons baixos. Espia novamente pela brecha e vê o primo, Giotto, de pé em frente aos outros.

-E por esse motivo, sugiro que façamos uma aliança. – fala Giotto em tom grave, possuía cabelos loiros que estranhamente desafiavam a gravidade ficando sempre espetados para cima, e um rosto que poderia ser considerado até comum: quadrado, com uma boca fina e olhos amendoados; mas era a cor de seus olhos o que chamava a atenção, um laranja suave, não encontrado em nenhuma outra família.

-E que me oferece em troca da aliança? – pergunta outra voz com um tom leve de deboche – A qualquer momento poderia oferecer minhas forças aos Millefiore.

-Você não faria isso. Sabe tão bem quanto nós que teria apenas prejuízo ao aliar-se ao rei louco. – fala outra voz – Há algo que lhe interesse além do apoio militar e melhores rotas e condições para o comércio?

-Acordos são esquecidos com a mesma facilidade com que são feitos. – Tsuna inclina-se tentando ver quem estaria falando, mas vê apenas um par de mãos usando luvas escuras – Um casamento seria uma garantia firme além de um voto de confiança entre os países.

Tsuna havia dado um pequeno guincho quando ouvira a palavra 'casamento' e prende a respiração temendo ser ouvido. Inclina um pouco a cabeça vendo o rosto sério do primo. Houve uma série de murmúrios, a maioria em protesto. Giotto inspira profundamente antes de pedir que os homens a sua frente se acalmassem. Eles discutiram essa ideia um pouco mais, o número de pessoas contra diminui gradativamente até que todos pareceram ser a favor. Giotto, percebendo estar encurralado, não teve escolha a não ser acatar a decisão dos outros seis. Então, eles começaram a discutir quem deveria casar com quem. Tsuna ficou atônito ao ver que eles discutiam isso como se discutissem a posse de terras. Quer dizer, eles estavam decidindo a vida de pessoas! Não havia sequer um pingo de consideração?

-E o que me diz do jovem Tsuna? – fala novamente a voz que havia sugerido o casamento – Ele e minha filha tem quase a mesma idade. – Giotto franze ligeiramente as sobrancelhas, os outros imediatamente se calaram; Tsuna novamente prendeu a respiração.

-Não sei se Tsuna poderia se casar com sua filha. – fala outra voz, esta tinha um sotaque leve – Até onde sabemos, ela é uma garota de saúde frágil. Como segundo na linhagem com direito a assumir o trono, ele precisaria de uma moça bela e forte. – Tsuna quase suspirou aliviado, quase – Minha irmã mais nova também é jovem e como toda jovem de Soleil é conhecida por sua beleza, talentos e jovialidade.

-Então. – Giotto inspira profundamente – Sentir-me-ia honrado se sua irmã pudesse ser a esposa do meu primo.

-É uma honra para nós, majestade.

-Se bem me recordo, Nebula e Caligo sempre mantiveram relações comerciais. – fala outra voz com um tom mais divertido – Porque não unirem-se também com o casamento?

-Se for do desejo de sua Majestade, então minha família aceitará essa responsabilidade. – fala uma voz austera ao fundo.

-Alaude e sua família sempre foram aliados do meu reino e é um amigo que tenho em alta estima. – Giotto vira-se para o fundo da sala – Alguma objeção?

-Nenhuma Majestade.

-Então acho que está tudo decidido. – fala ele – Como dito anteriormente, será melhor que eles não saibam ainda. Eles virão ao palácio da família Vongola para se conhecerem antes de serem informados sobre o futuro conjugue e estarão sob a tutela de professores particulares. Se não há mais nada a ser discutido, darei essa reunião por encerrada.

Após uma longa série de despedidas e reverências, a porta se fecha. Tsuna espera, contando até 100 antes de sair de seu esconderijo, mas surpreende-se ao ver Giotto parado junto a porta encarando-o.

-Então era aí que você estava. – fala o loiro com um suspiro longo enquanto esfregava os cabelos

-O-O que significa isso? – pergunta ele tendo a voz ligeiramente trêmula – Você disse que nunca permitiria um casamento político! Então porque aceitou o que eles disseram?! Porque não fez nada?! – fala a última frase elevando a voz enquanto esforçava-se para segurar as lágrimas. Giotto encara os olhos alaranjados do primo, iguais aos seus.

-Tsu... – começa ele, mas é interrompido por batidas na porta e uma das empregadas entra no recinto.

-Majestade, lorde Asari deseja falar-lhe um momento.

-Por favor – começa o loiro olhando para a empregada com um pequeno sorriso – Diga a ele que...

-Que sua majestade já está a caminho. – fala Tsuna interrompendo o primo – Eu estarei me retirando para meu quarto, com sua licença majestade. – ele curva-se e sai do cômodo a passos largos.


Já passava das dez da noite, e mesmo tendo dito várias vezes que não iria jantar, algumas empregadas ainda insistiam em chamá-lo para perguntar se queria algo. Tsuna senta-se na cama encarando a escuridão do quarto. Sempre tivera medo do escuro, mas ficar sentado ali era um pouco reconfortante.

Casar! Iria se casar! E com uma completa desconhecida! Mesmo sendo um covarde sem nenhum talento tinha esperanças de que encontraria a mulher de sua vida com suas próprias forças (soava um pouco como um conto de fadas, mas o que custava sonhar?).

Deita-se na cama enfiando a cabeça no travesseiro. Nunca se sentira tão inferior ou impotente. A sua vida, assim como a de outros, estava sendo decidida em nome de uma aliança de guerra. O que poderia fazer? Fugir não era má ideia, mas era péssimo em corrida e escalada (ou qualquer outro esporte), sem falar que conhecia poucas cidades de Caelum ou dos reinos vizinhos e com certeza duraria pouco tempo sozinho. Poderia tentar o suicídio, mas só de imaginar sentiu-se assustado e desistiu.

Ouviu uma batida na porta, devia ser mais alguma empregada tentando servir a ele o jantar.

-Vá embora! – grita para a porta e puxa um lençol até ficar completamente coberto, um hábito que desenvolveu quando criança.

Ouve a porta abrir e fechar, vendo através do tecido a claridade de uma vela aproximar-se da cama. A luz para bem próxima à cama e um som suave contra a madeira foi ouvido.

-Tsu. – chama Giotto baixo – Não desceu para jantar.

-Não tive fome. – replica abraçando o travesseiro; sente a cama afundar ao seu lado quando Giotto sentou-se no colchão.

-Você é um péssimo mentiroso. – sente a mão do primo tocar seu ombro sob o lençol – Realmente sinto muito Tsu, não queria que a discussão acabasse daquele jeito.

-Se eles são mesmo seus aliados porque não se juntaram logo a você?

-É complicado. – fala o loiro com um suspiro – Um casamento entre nobres de nações diferentes também serve como garantia de que não aconteça um conflito interno.

-Eu sei disso. – fala baixo.

-Desculpe. – ouve-o suspirar novamente. Eles ficam alguns minutos em silêncio até que Tsuna fala

-Eu nem a conheço. – diz o moreno com voz trêmula.

-Ela é uma garota da sua idade e é extremamente gentil.

-Ela não vai gostar de mim.

-De onde você tirou isso? – pergunta o loiro com a sobrancelha ligeiramente arqueada e um pequeno sorriso, sabendo o quanto seu primo sempre fora inseguro.

-Eu não sei fazer nada direito. Não sou bom em luta, esportes e mal consigo aprender o que me ensinam. – ele abaixa um pouco o lençol deixando os olhos visíveis – Como poderia gostar de alguém que é motivo de chacota das empregadas?

-Eu gosto de você. – Giotto afasta alguns fios do rosto do moreno – Tenho certeza que ela também vai gostar.

-Isso não faz sentido primo. – fala e dá um pequeno sorriso ao ouvir o outro rir

-Não se preocupe Tsu, tudo se resolverá a seu tempo. Além do mais você terá um ótimo novo professor.

Tsuna teve que conter a vontade de rodar os olhos. Esse devia ser o trigésimo tutor que o primo conseguia em menos de um ano. A maioria desistia ao perceber a falta de qualidades e a dificuldade de aprender as coisas mais simples, que eram naturais do garoto. O moreno suspira abaixando o lençol para descobrir a cabeça. O primo não desistiria de conseguir um bom professor para ele e garantir-lhe uma boa instrução, mas sinceramente nem tinha muitas esperanças. Giotto deita-se na cama, apoiando a cabeça no braço dobrado.

-Primo.

-Sim?

-E se ainda assim ela não gostar de mim? – o loiro ri brevemente antes de esfregar os cabelos castanhos do mais novo.

-Não se preocupe Tsu. – vê que o mais velho fechou os olhos – Depois que a guerra acabar você pode escolher se quer continuar casado ou não.

-Primo. – chama Tsuna após alguns minutos de silêncio.

-Oi. – ele abre um dos olhos

-Eu sou mais novo e ainda assim vou me casar antes de você. – Giotto pisca duas vezes processando a frase.

-Ah é? – ele dá um sorriso – Por sua insolência, sofra com minha técnica secreta.

Antecipando o ataque do primo, Tsuna tentou sair da cama, mas foi lento demais e Giotto o agarrou. Ao sentir as mãos do primo na sua barriga explodiu em risadas, enquanto tentava se livrar do loiro que de maneira desastrada tentava segurá-lo.

-Eu me rendo, eu me rendo. – fala Tsuna empurrando o primo, mas acaba caindo sentado no chão ainda em meio a risadas.

-Agora que você melhorou, que tal comer algo? – o loiro dá um pequeno sorriso, mas Tsuna conseguiu ver que além do rosto normalmente sorridente do primo havia preocupação.

-Eu não quero. Não estou com fome. – replica com um pequeno sorriso; a ideia de casar ainda o deixava com o estômago embrulhado

-Ah é? Então assim você não terá forças para resistir a minha técnica secreta número dois – Giotto pega um travesseiro da cama e gritando um 'haya!' acerta Tsuna nas costelas

Rindo, o moreno pega outro travesseiro da cama e acerta o primo com ele; a medida que eles se acertavam algumas penas saiam dos travesseiros e espalhavam-se pela cama de dossel, pelo chão e até neles. Param subitamente ao ouvir batidas urgentes na porta.

-Majestade eu sei que está aí. – fala uma voz de mulher firmemente, se bem que Giotto não parecia uma majestade com penas pelos cabelos loiros e pijama amassado.

-É a empregada chefe. – fala o loiro com um risinho em seguida põe o indicador na frente da boca e aponta para o quadro acima da lareira.

-Giotto di Vongola! Não me importa que seja o rei, se não abrir a porta agora mesmo será castigado cruelmente. – fala a mulher batendo na porta de maneira urgente e eles ouvem ela se afastar, o som dos saltos contra o piso de mármore fazendo um barulho alto no silencioso corredor.

-Rápido, antes que ela volte!

Giotto aproveita a oportunidade e vai até um quadro em cima da lareira de Tsuna, após tatear um pouco a lateral direita do quadro este desliza um pouco para o lado antes de abrir como uma porta. O loiro ajuda Tsuna a subir na passagem secreta e em seguida sobe, fechando-a a tempo de não ser pego pela empregada chefe e como bônus ainda ouvi-la dar um gritinho ao ver a situação da cama.

Eles riem baixo antes de seguirem pelas escuras passagens secretas de mãos dadas. Quantas vezes haviam feito isso? Cem? Mil? Lembrava-se que Giotto sempre lhe guiava pela mão através daqueles corredores escuros para escapar da ira da empregada chefe ou roubar doces na cozinha, tateando as paredes de pedra para encontrar o caminho. Na maioria das vezes o loiro se aproveitava das passagens para fugir de seu trabalho, já que apenas ele e Tsuna conheciam os caminhos entre as paredes do palácio e Tsuna dificilmente se colocaria contra o primo.

-A empregada chefe vai nos matar. – fala Tsuna rindo.

-Que nada. – o loiro ri baixo enquanto tateava uma parede em frente a ele – Ela só fica com raiva por algumas horas, depois é só se fingir de inocente.

Tsuna aperta um pouco mais firmemente a mão do primo com um pequeno sorriso. Giotto tinha uma presença reconfortante. Ele nunca exigia ou esperava algo de Tsuna como os outros, queria apenas alguém com quem conversar e se divertir, nunca se importou com a falta de talentos do moreno, pelo contrário, incentivava-o a tentar coisas diferentes para que encontrasse algo com que se identificasse.

Giotto encontra o que procurava na parede e com um suave clic, ela abre-se revelando um quarto grande, cuja única iluminação era o castiçal numa consola próxima a uma cama de dossel que confortavelmente acomodaria três pessoas. Eles entram no quarto e Giotto fecha a porta secreta que faz outro clic suave ao voltar a posição original. Tsuna deita-se na cama puxando os lençóis para cobrir-se.

-Não fique com o lençol todo. – reclama Giotto deitando na cama ao lado dele e puxa o lençol sobre si – Shh, lá vem ela. – ele morde o lábio tentando abafar o riso

-O castiçal. – fala Tsuna apontando para o dito objeto, o primo senta-se na cama e inclina-se para perto do castiçal apagando as velas do castiçal com um sopro em seguida deita-se novamente.

Tsuna cobre a cabeça com o lençol macio rezando para que a empregada chefe não puxasse os lençóis. Fecham os olhos ao ouvir a porta abrir e Tsuna pode jurar que sentiu o calor da vela quando a mulher aproximou-se da cama para verificar se eles realmente dormiam.

-Francamente, fazer essa bagunça toda. – fala ela com um suspiro e ajeita o lençol, descobrindo a cabeça de Tsuna e cobrindo uma das pernas de Giotto que havia ficado para fora do lençol – Ao menos digam boa noite. – ela tira algumas penas que haviam ficado presas ao cabelo de Giotto

-Boa noite Nana. – falam ao mesmo tempo com sorrisos mínimos. Tsuna ouve-a soprar a vela e em seguida abre os olhos vendo a mulher com tranças compridas e o usual uniforme de empregada sair do quarto a passos largos.

Ele e Giotto se entreolham ao mesmo tempo e começam a rir.

-Tsu. – começa o loiro quando eles se controlaram.

-Huum? – pergunta meio sonolento esfregando os olhos

-Posso te pedir um favor? – ao ver o moreno confirmar o loiro continua – Eu sei que você ouviu tudo o que foi dito na reunião então eu queria te pedir algo especial. – Tsuna encara o primo com curiosidade e suspeita – Não conte a nenhum dos outros quem será seu futuro conjugue.

-Por quê? Eles tem o direito de saber.

-E saberão. – afirma Giotto com seriedade – Mas dê a eles tempo de se conhecerem antes de descobrirem isso. E se possível ajude-os a fazer amizade.

-Posso tentar. – fala franzindo um pouco o cenho.

-Obrigado. – Giotto passa um braço ao redor do primo e começa a mexer no cabelo dele com os olhos fechados – Você é um bom garoto Tsu. – ele fala baixo antes de cair no sono.

Tsuna observa o primo por um momento antes de acomodar melhor a cabeça ao travesseiro. Perguntava-se como aquelas pessoas obrigadas a se casar reagiriam. Será que ficariam furiosas ou aceitariam facilmente? Será que algumas já se conheciam? E se algumas não se dessem bem? Talvez fosse melhor não ter dito ao primo que faria aquilo.