02. Reações

Quando lorde Alaude, um loiro alto com duros olhos cinzentos, passou por ele com cara de poucos amigos, Fon soube que havia algo de errado com seu cunhado. Quando Alaude ignorou completamente o pedido do chinês para tomar chá, Fon soube que uma tempestade se abateria sobre o castelo de Nebula.

Colocando a xícara sobre o pires adornado com desenhos de dragões e flores de cerejeira, levanta-se e segue o outro a passos rápidos, mantendo o rosto sereno, enquanto jogava a trança longa por sobre o ombro e dá um suspiro ao ver o lorde entrar sem cerimônia no quarto do único filho.

-Kyoya, precisamos conversar. – fala Alaude encarando o rapaz sentado no parapeito da janela, que poderia ser considerado uma cópia do pai se não fosse pelos cabelos negros.

E com apenas essa frase, Fon sabia que Kyoya e Alaude entrariam numa discussão monossilábica que acarretaria na futura destruição do quarto do mais novo.

-Vou fazer mais chá. – fala calmamente e faz uma breve reverência antes de se retirar do quarto, fechando a porta atrás de si.

A apenas alguns passos para chegar ao fim do corredor ouve seu sobrinho gritar "O QUE?!" a plenas pulmões, o que por si só era algo preocupante considerando que Kyoya nunca, e deve-se dar ênfase a isso, nunca levantou a voz. Uma das empregadas que estava recolocando um dos jarros de porcelana de lorde Alaude sobre uma pequena mesa deixou-o cair ao ouvir a voz de seu jovem mestre.

-Perdão milorde. – fala ela colocando os pedaços menores do jarro em um maior

-Não precisa se desculpar. – fala ele com um sorriso tranquilo – Por favor, deixe alguns empregados de prontidão. E mantenha-os longe de Kyoya por enquanto, não queremos que aquele 'incidente' ocorra novamente.

-Sim senhor. – ela arregala um pouco os olhos antes de fazer uma reverência ao chinês e sair às pressas.

Fon observa a empregada à medida que ela descia a escadaria central, apoiando os braços cruzados sobre o parapeito. Escuta um leve assovio e vê que uma bola de penas amarela passa voando baixo ao seu lado, dirigindo-se a saída mais próxima.

-Essa noite vai ser longa. – fala e suspira ao ouvir o som de madeira sendo quebrada, teria sido a cama que havia comprado há duas semanas ou a porta que trocara há um mês? Suspira novamente puxando a trança longa por cima do ombro – Muito, muito longa.


-Casar? – repete Mukuro, seus olhos heterocromáticos voltaram-se para a cama ao ouvir um gemido baixo e então voltam-se para a Elena, que apenas confirma com um gesto – Mas com quem mãe?

-Daemon não deu muitos detalhes pela carta, mas parece que é uma decisão política. – Elena puxa uma madeixa loira para trás da orelha e segura o robe macio quando uma brisa gelada passa pelos corredores do castelo.

Mukuro olha para a irmã adormecida sobre a cama. Como Daemon pode fazer isso com a própria filha sabendo das condições dela?

-Seu pai chegará pela manhã. Descanse um pouco, ainda não é tempo de se preocupar com essas coisas. – dá uma última olhada no rapaz antes de seguir para o quarto ao lado.

Mukuro fecha a porta e deita-se na cama. A irmã abre os olhos violetas esfregando os mesmo para tentar espantar o sono.

-Mukuro-nii? Que horas são?

-Ainda é noite, pode dormir. – fala puxando os lençóis para que cobrisse a irmã, ela boceja e segura à mão dele, deixando ela próxima ao rosto claro como leite. Com a mão livre ele afasta alguns fios que caiam sobre os olhos dela – Minha doce Nagi. Não deixarei que façam mal algum a você.

-Obrigado Mukuro-nii. – fala ela meio adormecida.

Mukuro franze as sobrancelhas olhando o rosto pálido e delicado da irmã, agora adormecida. Uma única pergunta ocupava lhe a mente: por quê?


Asari abre a porta do quarto do primo vendo que este dormia. Viu um par de orelhas levantar-se, e olhos negros mirarem-no com curiosidade. Havia vários objetos largados aqui e ali pelo quarto e sorriu imaginando que novo jogo ele teria inventado naquele dia.

-Ugetsu? – pergunta uma voz firme, ele vira-se vendo ninguém menos que o tio em seu usual kimono azul escuro segurando nas mãos um castiçal com uma única vela acesa.

-Boa noite meu tio. – fala em tom respeitoso. Mesmo sendo o atual lorde de Piogge, Tsuyoshi era alguém que merecia seu respeito especialmente depois de tudo o que fizera.

-Achei que só chegaria pela manhã. – fala franzindo o cenho – Aconteceu algo?

-Vou precisar de sua ajuda meu tio, e de conselhos. – fala fechando a porta do quarto do primo. Tsuyoshi percebe pela expressão séria do sobrinho que não seria algo simples de se resolver.

-Vamos ao meu quarto.

O outro apenas concorda antes de seguir o tio com uma expressão séria. Como poderia dar aquela notícia ao primo?


-Eu não quero me casar! – repete Lambo teimosamente batendo o pé, seus brilhantes olhos verdes repletos de descrença.

-Pare de agir de maneira tão infantil. – replica um homem sentado numa confortável cadeira de couro observando o moreno que estava em frente a sua mesa, uma veia surgiu na sua testa com as atitudes do filho caçula.

-Mas pai porque eu?! Lampo é o mais velho! Ele devia se casar primeiro! – fala apontando acusadoramente para o gêmeo mais velho sentado ao seu lado com as pernas estiradas, ele apenas boceja parte entediado, parte sonolento por ter sido levantado da cama antes das dez da manhã.

-O grande Lampo não se casaria com uma qualquer. – fala Lampo e novamente boceja apoiando o cotovelo no braço do sofá. Lambo ia replicar, mas ambos se calaram ao ver o pai se levantar da cadeira em frente a eles.

-O que eu disse está dito e vocês irão me obedecer! – ele mira os dois filhos com seriedade – Agora saiam daqui.

Lampo se levanta, fazendo um breve gesto com a mão numa saudação preguiçosa enquanto o irmão sai do escritório como um furacão. Lambo estava muito irritado. Como seu pai, seu próprio pai, pudera fazer algo daquele tipo? Seu gêmeo alcança-o, tinha que admitir que apesar da preguiça interminável, Lampo podia ser rápido quando queria.

-Aposto que é uma velha ou muito feia, se não o pai não teria mantido segredo sobre quem ela é. – fala Lampo com um pequeno sorriso ao ver o mais novo bufar irritado antes de entrar no quarto. Segue-o com um pequeno sorriso – Parece que agora sua vida começou a acabar maninho.

Agora Lambo estava realmente irritado. Desistiu de ficar mais um segundo com o irmão mais velho e sai do quarto batendo a porta com o máximo de força que podia, em seguida seguiu para o único lugar em que poderia encontrar algum consolo: os doces na prateleira da cozinha.

Gokudera vê que a irmã, bem meia-irmã, estava prestes a replicar algo, mas conteve-se apertando as mãos em punhos. Não duvidava que ela teria alguns cortes pela maneira como as unhas aprofundavam-se na carne

-Deseja mais alguma coisa ou posso me retirar? – fala ela obviamente tentando, e falhando, em controlar a raiva na voz.

-Pode ir Bianchi. – fala o homem a frente deles e ambos veem a garota virar-se, fazendo os cabelos róseos agitarem-se, e sair do cômodo quase correndo – O mesmo vale para você Gokudera.

-O que? – o rapaz torna os olhos verdes para o homem, achando ter ouvido mal.

-Você se casará com uma duquesa como combinado pelo tratado.

-Eu não quero me casar com uma mulher estúpida que sequer conheço! – fala ele zangado, uma marca se formou entre suas sobrancelhas.

-Eu estou sendo muito gentil conseguindo um casamento desse nível para um filho bastardo.

-Eu não preciso da sua gentileza! – grita em protesto.

-Diminua seu tom de voz comigo rapaz! – grita o homem de volta – Sou lorde de Tempesta e seu pai! Você IRÁ me obedecer!

Gokudera murmura alguns palavrões antes de sair da sala, furioso como uma tempestade. Não iria aceitar as ordens daquele velho estúpido! Não enquanto fosse Gokudera Hayato!


Ryohei olha para o irmão mais velho sem acreditar. Levanta-se da cadeira num salto

-Isso é extremamente errado! – grita fechando as mãos em punho mirando Knuckle com raiva – Mesmo que seja uma guerra, eu... – ele para ao sentir uma mão em seu ombro.

-Onii-chan, está tudo bem. – fala Kyoko com um sorriso apesar disso conseguia ver a tristeza nos olhos castanhos da irmã mais nova – Se meu casamento puder poupar a vida de cidadãos inocentes, não importo em casar.

-Mas Kyoko, você...

-Eu vou ficar bem onii-chan. – ela vira-se para o mais velho, Ryohei e Knuckle eram extremamente parecidos a única diferença que possuíam era a cor do cabelo. – Quando vou conhecê-lo aniki?

-Muito em breve. – fala com um sorriso um tanto orgulhoso ao ver que a irmã aceitara a responsabilidade – Vocês irão ao palácio da família Vongola em Caelum e passarão dois meses lá com nobres das outras regiões. Apenas depois disso você saberá quem é seu futuro marido.

Ela apenas confirma com um aceno firme e solta o braço do irmão.

-Ryohei, você também irá com Kyoko.

-E Hana? – pergunta quase automaticamente.

-Ela é sua esposa. Se ambos concordarem, não vejo porque não.

-Aniki. – chama Kyoko e vê que ela mordia o lábio – Ele é muito mais velho que eu? – Knuckle ri brevemente.

-Ele tem a sua idade minha irmã e é um ótimo rapaz. Tenho certeza que vocês se darão bem.

Ela sorri um pouco mais aliviada e olha para Ryohei com esperança, afinal o irmão também tivera o casamento arranjado e vivia feliz com Hana, apesar das diferenças absurdas de personalidade. Que mal faria ter esperanças?


Fon suspira olhando para a filha. I-Pin era uma garota gentil e sempre fazia o máximo pelos outros, mas sua maior fraqueza era a convivência com o sexo oposto. Ela não conseguia ter uma conversa concreta com qualquer homem ou rapaz que não fosse de sua família.

-Tem certeza disso Alaude? – pergunta Fon mantendo a calma e vê que a garota segurava a calça com mãos trêmulas.

-Foi a decisão do rei. – fala Alaude, seus olhos cinzentos deslocam-se para a sobrinha – I-Pin espero que não envergonhe a nossa família.

-Vou fazer meu melhor. – fala ela, mas ainda olhava para os pés.

-Ótimo. E Fon chame alguém para cuidar da bagunça criada por aquele garoto insolente.

-Já chamei. Eles devem terminar antes do jantar.

Alaude apenas confirma. Sabendo que não havia mais o que falar, os dois fazem uma breve reverência e se retiram da sala. Fon olha para sua filha vendo que ela estava com os olhos cheios de lágrimas, mas segurava-as a todo custo.

-Minha flor. – começa Fon colocando uma mão sobre o ombro da garota, ela abraça-o com força, passando as pernas ao redor da cintura do pai. – Calminha, muita calma. – fala ele acariciando os cabelos da garota sentindo a camisa umedecer devido as lágrimas dela, mas não podia se importar menos. Começa a caminhar levando sua garota nos braços.

-Como vou fazer isso pai? – pergunta ela num fio de voz

-Vamos dar um jeito, querida. Vai dar tudo certo. – ele passa pelo corredor, evitando pisar nos destroços que ainda restavam ali devido a luta de seus parentes.

-Nem o Hibari se salvou dessa vez. – fala ela levantando um pouco os olhos para ver sobre o ombro do pai, o corredor estava uma bagunça completa com as janelas e porcelanas quebradas, quadros rasgados e arrancados da parede e partes da porta destroçada ainda jogadas no chão.

-Pois é. Tente não falar disso com seu primo agora querida, ele ainda está emocionalmente abalado com a notícia.

Ela confirma e vê o primo passar saindo de um quarto naquele corredor. Seu rosto continuava tão inexpressivo quanto sempre, mas as tonfas prateadas que ele carregava mostravam que ele espancaria sem dó qualquer um que se aproximasse.


Lambo estava sentado em um de seus esconderijos no castelo. Ele e Lampo sempre encontravam novos lugares para se esconder das lições passadas por seus professores particulares.

-Hahi! Lambo-kun!

Ele levanta os olhos vendo uma garota parada a sua frente. Ela usava uma calça de tecido confortável e uma camisa de blusas longas e tinha os cabelos escuros presos num firme rabo de cavalo.

-Haru-chan. Estava praticando a montaria? – pergunta reconhecendo os trajes que ela usava

-Estava sim. – responde ela com ânimo, mas então franze o cenho ao ver o rosto dele – Aconteceu alguma coisa?

-Terei de me casar para evitar uma guerra. – fala ele colocando outro doce de uva na boca – Vou sair do castelo em algumas semanas e provavelmente não voltarei tão cedo.

-Ah. Eu irei com você Lambo-kun, então não fique triste.

Ele se engasga com o doce e Haru dá algumas tapinhas nas costas do rapaz até que ele parasse de tossir.

-Como assim?

-Eu também terei de me casar Lambo-kun. – fala ela com um olhar tristonho – Então não se preocupe. Vamos passar por essa juntos, tá certo?

-Tá certo – fala ele colocando uma mão sobre o ombro dela.


Espero que gostem (se tiver alguém lendo)! õ/