Nova Era

Um véu místico esconde a existência do imaterial. Há milênios o véu da realidade era fraco e a humanidade vivia em contato com a magia. Com o passar dos séculos o véu foi ficando mais forte, sem mais contato com o sobrenatural o homem trocou as maravilhas pela razão. No entanto uma nova era se aproxima e com ela o fim do véu. A magia e o sobrenatural irão voltar e se unir as maravilhas da ciência futurista criando um novo mundo cheio de possibilidades!


Miguel

Assim que se levanta da cama ele vê uma janela na parede do seu quarto que não estava lá antes. Sem pensar a respeito, até porque enquanto se dorme não há opções a serem tomadas, apenas se segue em frente, o garoto pula a janela, passando primeiro sua perna direita e depois a outra. Apesar de ser um movimento tão simples o garoto só conseguia realizar tal feito em seus momentos de sonho. Um motivo que transformou essas ocasiões em algo tão especial.

O cômodo a qual o garoto se encontrava agora, a sala de estar da casa, até lembrava um pouco o equivalente do "mundo real", mas era ligeiramente diferente. Mudanças sutis, a sala era um pouco mais comprida e mais estreita, os móveis estavam organizados de uma maneira diferente, além de ter um ou outro detalhe da decoração alterado, um vaso de cerâmica em um lugar da estante que deveria estar vazio, um tapete vermelho ao invés de um roxo... A estante onde ficava a televisão, os DVDs e os enfeites ao invés de estar localizada em uma parede estava em outra. Na versão do sonho a estante ficava na parede mais longa, fazendo com que tal estante parecesse mais comprida que a versão real. A casa estava cheia de gente, rostos que não eram familiares, mesmo assim o sonhador não estranhou. A final aquilo era um sonho, coisas incomuns são normais ali.

Sem saber como, o sonhador chegou do lado de fora da casa. A versão onírica não tinha nada a ver com a material, a casa no sonho era branca e muito grande, parecendo uma casa de veraneio, já a material era azul e pequena, com a pintura da fachada precisando de retoque ao contrário da versão idealizada que tinha uma pintura perfeita. A casa onírica não tinha grades nas portas e janelas, já que não deveriam ter muitos ladrões nos sonhos, ao contrário da versão material. Na rua do lado de fora da casa a estrada era larga, havendo muito verde ao redor, em nada parecia com o bairro popular onde o sonhador vivia onde havia ruas estreitas e casas coladas uma ao lado da outra. Assim como o lado de dentro da casa a rua estava cheia de gente. Não tão lotada que não desse para andar tranquilamente sem se esbarrar, mas ainda assim podia se dizer que estava bem movimentada.

Dentre as pessoas que estavam andando na rua o sonhador foi em direção de uma especifica. Não que tivesse feito isso por um motivo especial, estava só seguindo o script do sonho. A mulher tinha pele clara e o cabelo cacheado castanho, a parte direita do seu corpo estava queimada, mas isso não assustou o sonhador, já que ali as coisas mais absurdas podiam ser vistas com naturalidade. A mulher falou com ele, mas o rapaz não conseguiu se lembrar da breve conversa após ela ter terminado. Só se lembrava da informação que havia recebido. A mulher disse que merecia seu destino e por isso estava indo ao inferno. O sonhador olha para trás e vê uma figura cinza, parecendo um vampiro, morder o seu ombro. Não havia dor, nem sangue.

De repente o garoto sonhador não se encontrava mais na rua ou perto da sua casa. Parecia estar em uma casa de show chique onde para se entrar tinha que subir um lance de escadas. Assim que a pessoa entrava na casa dava de cara com o palco, mas para ver os músicos era preciso olhar para cima, pois esse palco, que ficava ao lado da escada de entrada, era bem alto. O sonhador não chegou a discernir qual era o estilo de música da banda, já que não ouviu música alguma, a banda era formada por um guitarrista, um violinista e ao fundo um baterista e um violoncelista. A formação era estranha, parecia ser uma do tipo bem experimental, do tipo que o sonhador gostava.

O salão de dança era grande e comprido, as paredes do local eram douradas. Ninguém dançava, pois um homem com um microfone na mão pediu a palavra e foi fazer um tipo de discurso no centro do salão. O sonhador viu seu pai que começou a falar sobre ele, incluindo seus pontos positivos e decepções.

Aquele salão foi deixado para trás, como em um passe de mágica, o sonhador agora se encontrava de volta em sua casa. Uma garota conhecida sua cozinhava algo e perguntava se o sonhador queria que ela preparasse alguma coisa para ele comer. Uma pergunta que seria meio estranha se fosse feita no mundo desperto, já que aquela menina não era nada sua e não era assim tão intima.

Houve mais "cenas" naquele sonho, mas a memória do sonhador não conseguiu agarrá-las. O rapaz acabou se esquecendo delas logo após terem se passado poucos segundos de acordado. Desperto, o garoto tinha que lidar com sua dura realidade. Miguel Santana tem quatorze anos. Bem magro, seus joelhos chegavam a ser ossudos, sua pele era clara e seu cabelo era de um tom de castanho que se aproximava ao de louro. O garoto seria um adolescente como tantos outros se não fosse um detalhe. Um acidente. No ano passado ao brincar em um rio o menino teve a péssima ideia de dar um salto para impressionar seus amigos. Miguel cai na água de cabeça e para sua infelicidade aquele ponto do rio era bem menos fundo do que ele imaginava. Com o choque Miguel perde os sentidos e quase se afoga, sendo resgatado por pouco. Ele não dizia isso ao seu pai, pois não queria fazer com que sofresse, mas as vezes ele xingava internamente o homem que o tirou da água e que salvou sua vida. As vezes morrer afogado parecia uma opção melhor do que viver prisioneiro do próprio corpo. Miguel a partir daquele acidente não conseguiu mais mover os braços e as pernas.

Miguel vivia com o pai, Jorge Santana, que era policial. Como não podia cuidar do seu filho vinte e quatro horas por dia Jorge pagava uma enfermeira particular para tomar conta do garoto enquanto ele tinha que ficar ausente. O salário que Jorge recebia não era muito, por isso ele tinha que se virar para pagar as contas e proporcionar o mínimo de conforto a Miguel. Jorge sentia que seu filho era um rapaz triste. Jorge via a tristeza de Miguel como um sinal de fracasso. Um fracasso como pai. Um fracasso como marido. A mãe de Miguel ainda era viva, mas saiu pelo mundo abandonando tudo e ninguém parece saber onde ela foi parar.

- Então, garoto, gosta de circo? - Tornar a vida de Miguel mais agradável era tarefa árdua. Qualquer saída de casa era quase uma batalha. Para trocar a roupa do rapaz dava um pouco de trabalho e tinha que se ter todo o cuidado para ajeitá-lo em sua cadeira de rodas, isso era o mínimo. Qualquer saída tinha que ser feita tendo alguns dias de planejamento. Por isso qualquer passeio era muito bem recebido, seja lá para onde fosse. Miguel não era muito fã de circo, mesmo assim ficou animado com a ideia. Qualquer coisa era melhor do que ficar olhando para o teto do seu quarto ou ficar assistindo a TV. Após banho tomado e roupa trocada, a enfermeira ajudou Jorge a por Miguel na cadeira, uma tarefa que demorou alguns minutos. A cadeira de rodas que o garoto usava era especial para tetraplégicos, bem acolchoada e com protetor de pescoço.

Le Grand Guignol, Miguel ficou interessado no circo só de ouvir seu nome. Se perguntava que tipo de espetáculo se chamaria "O Grande Chifre". Detalhe que passou despercebido por grande parte do publico, já que poucos falavam francês. O circo ficava localizado em uma área nobre da cidade, era grande e as estruturas montadas ao redor eram bem modernas. A grande maioria das pessoas que andavam por lá, que iam assistir ao circo, se vestiam muito bem e eram muito bonitas, pareciam ser no mínimo de classe média alta. O circo parecia ser bem caro e logo quando entrou na área externa Miguel se perguntou quanto seu pai tinha pago por aquele passeio. Em frente a tenda do circo havia alguns estandes que vendiam camisas, bonés e DVDs com a marca Le Grand Guignol. Jorge levou seu filho para olhar os estandes, mas não comprou nada. Era tudo muito caro. Jorge compraria pipoca, mas para Miguel comer ele precisava receber a comida na boca algo que odiava fazer em publico.

- No início da humanidade o véu da realidade que cobria o mundo era fino fazendo com que o contato com o sobrenatural fosse mais intenso, antigamente a magia era forte. Mas isso foi passado. O mundo mudou, o homem trocou as maravilhas pela razão, o véu da realidade esta mais forte do que nunca. Mas isso irá mudar quando a magia voltar ao mundo criando uma nova era.

O apresentador era um anão vestido todo de vermelho, com direito a cartola e paletó. Após sua introdução o show teve início. Seguiram-se duas horas de malabarismo, contorcionismo, ilusionismo, palhaços... O espetáculo era de se encher os olhos, fazendo com que por um breve momento Miguel se esquecesse dos seus problemas e mergulhasse em um mundo de magia induzido pela fala do anão. Jorge olhou para expressão de seu filho e notou maravilhado as reações do garoto ao show. Aqueles pequenos momentos de alegria valiam ouro, principalmente porque eram muito raros e estavam ficando cada vez mais escassos. Quando o show acabou Miguel ficou com um desejo de continuar, mas já era grande o bastante para entender que não podia mais ficar ali. Pai e filho voltaram para casa e ainda animados foram conversando sobre o circo durante todo o caminho.


Evandro

Ele estava vestindo sua roupa de trabalho: terno, gravata, calça social. Roupa impecável para impressionar. Cabelo bem cortado, passado gel. Ele olha para o espelho e ao encarar seu reflexo chega a dar risada, achando graça da própria transformação ao longo dos anos. Desde quando era jovem e havia formado uma banda Punk até agora, em que largou a música para se tornar pastor. Porém não pense que sua conversão foi movida pela busca de elevação espiritual, não passou de pura necessidade mundana. Evandro Martinez nunca teve o que as pessoas chamariam de emprego convencional. Aos dezoito anos montou uma banda chamada Mucosa Cerebral, em que ele era o baixista. Levando em conta seu estilo bem underground o grupo atingiu um bom sucesso comercial, fazendo turnê inclusive no exterior. Evandro permaneceria na banda até hoje se não fosse por uma briga com o produtor e o vocalista fazendo com que Evandro fosse retirado do Mucosa praticamente aos ponta pés. Com quase quarenta anos de idade Evandro não era qualificado para muita coisa, interrompeu seus estudos no ensino médio e nunca foi muito bom em estudar. Evandro chegou a temer ter que trabalhar com "emprego de pião", apelido que ele dava ao tipo de trabalho que não exigia qualificação, mas que era muito cansativo e braçal. A oportunidade veio de maneira inesperada, através de um convite feito por um amigo do tempo da escola. - Você é bom com as palavras, é extrovertido. - Disse o tal amigo. - É só disso que você vai precisar. Com pouco tempo de treinamento você ficará pronto. - Evandro cortou o cabelo de uma maneira bem careta e tirou os piercings. O baixo e o amplificador foram deixados em um canto qualquer da casa e substituídos por uma bíblia, que ele levava para tudo que era canto embaixo do braço.

Evandro agora estava no púlpito, a frente de um grupo de dezenas de fieis que assistiam a sua pregação com muita atenção. O pastor usava sempre um tom de voz alto e a música ao fundo, manipulada pela equipe de sonoplastia da igreja, acompanhava seu tom de voz. Quando ele aumentava o tom o som de fundo aumentava junto. Isso era um dos truques usados para influenciar emocionalmente as pessoas presentes. Dois fiéis acabaram por cair em um choro incontrolável acreditando que foram de alguma forma tocados por alguma força sobrenatural. Isso não era o caso, era apenas um efeito psicológico natural e nada especial.

Chegou o momento mais esperado da noite, Evandro chamou um fiel para se levantar e se juntar a ele, era a hora da cura. O fiel escolhido era um jovem com problema de pele, com marcas por todo o corpo, inclusive no rosto. Evandro pôs a cabeça em cima do garoto e falou qualquer coisa sem sentido. O jovem caiu para trás como se tivesse sido acertado por um choque intenso. No chão ele ficou se tremendo por alguns segundos. Um efeito tão violento que até impressionou Evandro e ainda mais as pessoas que assistiam. - Puta que pariu, que merda eu fiz? - Pensou o pastor. Com o pouco de empatia que ainda tinha Evandro segurou a cabeça do garoto com receio que ela batesse no chão. De repente o fiel para de se debater, ainda respirando forte ele se levantou. - É um milagre! - O jovem gritou, a plateia acompanhou a euforia dele e a igreja se tornou estrondosa.

Quando a confusão inicial apaziguou Evandro olhou para o rosto do fiel em questão e teve uma estranha impressão. Parecia que as marcas que afligiam sua pele estavam levemente reduzidas. Evandro desviou o rosto e pensou em outra coisa. - Calma, rapaz, não acredite na própria mentira.


Ariel

As pernas andavam em uma esteira, seus passos eram tão iguais que chegava a atrapalhar, qualquer mudança na velocidade o fazia perder o equilíbrio e tombar. As pernas não eram humanas, mas sim robóticas. O autômato não tinha uma forma humanoide, na verdade era basicamente uma caixa com duas pernas com formas bem rústicas. O robô era ligado a vários fios que o conectava a um terminal que enviava os comandos. Um movimento simples como andar exigia uma programação incrível.

Do outro lado da sala um grupo de jovens estudantes assistia os passos da máquina com empolgação. O projeto deles estava progredindo. Quando o teste encerrou os jovens ficaram eufóricos, comemorando bastante. Aquilo era o trabalho de mestrado do grupo, que era formado por cinco pessoas entre vinte e trinta anos. Dentre esses estudantes estava a mais jovem do grupo e também a única mulher, Ariel Andrade.

Ariel tinha vinte e um anos, desde jovem ela era fascinada por tecnologia e acabou optando por se formar em uma de suas áreas de estudo, no caso a robótica. No mundo há um estereotipo que esculacha as mulheres que optam por estudar exatas, Ariel em nada tinha a ver com ele. Era muito feminina e bonita, fazendo com que se tornasse a "princesinha" das classes onde cursava. Seu cabelo era curto e sua pele negra. Seu cabelo era crespo e ela fazia questão de mantê-lo natural, se negando a usar muitos produtos nele.

O celular de Ariel começa a tocar uma balada Pop da década passada, alguém estava ligando para ela. A moça atende a chamada e se afasta dos seus colegas para fugir do barulho que faziam. - Alô? - No outro lado da linha uma voz familiar, o homem nem precisou se apresentar, pois ela já sabia quem era. Vitor Almeida tinha sessenta anos, desde muito cedo se enveredou na politica e conseguiu um grande avanço na carreira, assegurando uma cadeira no senado, com a benção de um partido importante. Vitor era padrinho de Ariel e devido sua posição se tornou um contato muito importante e que naquele instante estava revelando seu valor.

- Ariel, conheço uma agência governamental que esta precisando de profissionais na área de robótica. Advinha qual nome veio em minha mente?

- Sério, dindo?!

- Soube que você esta precisando de emprego, que tal? Eles pagam muito bem. Nada mal para início de carreira, né?

- Mas não precisa de concurso, não?

- Até precisa, mas não se preocupe com isso. Dou um jeito para empurrar seu nome e você não vai precisar nem fazer prova. - Nem precisa dizer que esse "empurrãozinho" é totalmente ilegal. Geralmente Ariel era contra esse tipo de coisa, mas aquilo era tentação demais para ignorar. Ela não iria deixar passar uma oportunidade dessa só por causa de algum código ético.

- O que eu preciso fazer?

- A empresa se chama Cyberdine, ela esta situada no Amazonas. Já até comprei sua passagem, você viaja no sábado. - A notícia pegou Ariel de surpresa, tanto é que ficou sem conseguir falar por alguns segundos. - Ariel? Você ainda esta aí?

- Sim, dindo.

- Então esta confirmado, né? Você vai querer o emprego mesmo?

- Claro, dindo!

Ariel interrompeu os estudos do seu mestrado sobre os protestos dos seus colegas de projeto, porém ela não arredou. Não podia dar as costas para uma oportunidade como aquela que com certeza mudaria para sempre sua vida. Na madrugada de sexta-feira para sábado Ariel estava no avião viajando rumo a uma nova fase para sua vida. O voo durou duas horas, ao chegar no aeroporto a moça ficou surpresa por ver seu padrasto, ou dindo como ela gosta de chamar, esperando por ela. Ariel foi recebida com um abraço caloroso, há muitos anos os dois não se viam, naquele tempo Ariel ainda era uma adolescente.

- Meu Deus, mas você se transformou em uma mulher e tanto!

- Obrigada. - Disse Ariel meio sem jeito. - Não esperava te ver aqui, pensei que você estava em Brasília.

- Tirei alguns dias de folga, passei aqui só para te ajudar a se familiarizar com a cidade. - Ariel tinha separado o dinheiro para o táxi, porém não vai precisar usá-lo. Ela acabou pegando uma carona no carro alugado do seu padrinho. Vitor dirigia um Sedan prateado. Ele acabou levando a moça para uma propriedade sua, uma casa bem localizada e bonita, apesar de não ser muito grande. - Não se preocupe com aluguel, essa casa eu tinha comprado há alguns anos e nunca cheguei a usá-la direito. É sua. - Ariel regalou os olhos, por essa não esperava.

- Nossa, dindo. Obrigada.

A moça entrou na casa carregando suas malas, Vitor ia na frente, ele abriu a porta da casa e mostrou o lado interno. A casa era toda mobilhada, Ariel não conseguia imaginar algo melhor. Era tanta coisa boa acontecendo de vez que até ela ficou meio desconfiada. - Deve ter alguma pegadinha. - Pensou.

- Toma aqui sua chave. - Vitor entrega a chave da casa na mão de Ariel. - Tenha uma boa noite de sono, amanhã eu te levo a Cyberdine. - Os dois conversaram mais um pouco, trivialidades para porem as novidades em dia. Vitor vai embora deixando Ariel sozinha em sua nova casa. Agora que não tinha mais ninguém perto dela a moça pode extravasar todo o seu contentamento. Ela gritou, pulou, agradeceu aos céus... No fim o cansaço venceu e ela se jogou na cama, dormindo com a mesma roupa que usou no avião.