Levanta

Miguel

O garoto estava sentado em um banquinho de madeira, na frente de uma escrivaninha. Ele lia o livro sem título que encontrou em uma biblioteca surreal que situava-se dentro de um dos seus sonhos. Miguel conseguia folhear o livro e lê-lo com a maior facilidade, mesmo a escrita não sendo de um idioma que ele compreendesse. A barreira da linguagem era uma restrição que não existia no plano astral. Ao mesmo tempo em que lia as palavras sentado em seu quarto ele andava por uma floresta verde tão mágica que só poderia ser irreal. O jovem caminhava calmamente maravilhado pela beleza da mata. Árvores grandes de perder de vista, flores e plantas dos mais variados tipos, uma fauna exótica que incluía homenzinhos com asas do tamanho de passarinhos. A medida que uma parte do seu eu lia no quarto o cenário da floresta era preenchido por mais detalhes. A metade sua que explorava a mata acabou encontrando um templo em ruínas tomado por vinhas. O templo parecia asteca, cheio de figuras estranhas e pintado de amarelo, reluzindo quase tanto quanto ouro. Miguel continuou e se aproximou do bendito templo. A entrada estava aberta parecendo que só esperava por ele.

Um homem dormia em cima de um altar de pedra. Deitado de barriga para cima e com os braços cruzados sobre o peito ele bem que poderia estar morto, mas não tinha sinal de decomposição. Sua pele estava corada e parecia bem saudável. O homem, se é que era um homem, tinha orelhas pontudas e uma pele morena. Seus cabelos eram compridos e muito alvos. O elfo vestia uma armadura dourada que parecia ser meio inútil, já que havia um grande "decote" que deixava o peito e parte da barriga desprotegida. Assim que pôs os olhos sobre o elfo Miguel soube qual era seu nome. Sua parte que lia o livro no quarto tinha lido isso em uma das páginas. - Simladris?

Miguel sente que seu dever é despertar aquele sujeito. Ele toca no ombro do elfo e começou a balançá-lo, como se fosse acordar um parente que tirou uma soneca. O garoto desistiu dessa tentativa quando seu eu que lia o livro descobriu que essa não era a forma de acordar uma entidade que repousava por quase dez mil anos.

- O que esta tentando fazer? - Miguel olhou pros lados e viu um outro elfo com armadura dourada. Esse parecia ser mais velho, com uma barba bifurcada em duas tranças. Era um homem mais forte, ruivo e com a maior pose de viking. Isso é, se não fosse as orelhas pontudas. - Quem é você, humano? - Miguel falou seu nome e o motivo que o levava até ali.

- Desde a última era da magia o lorde Simladris dorme. Faz pouco tempo, dez mil anos só. - Miguel achou que o elfo ruivo estava sendo irônico, mas não estava. A contagem do tempo de seres de vida tão longa era diferente. - A primeira era da magia durou de vinte mil anos antes do seu Cristo até dez mil anos antes.

- Como nunca ninguém soube dessa época? - Perguntou Miguel. - Quer dizer, tantos paleontólogos e historiadores examinando o passado um deles ao menos deveria ter descoberto algo sobre isso, não?

- Foi uma era de magia, não material. Quando terminou todas as suas maravilhas sumiram, feito nevoa. Voltaram a Imatéria. Enfim, mudando de assunto, por que você quer despertar Simladris? O mundo esta muito bom sem ele.

Miguel não sabia como responder aquela pergunta. Para ser mais preciso ele não sabia nem o porquê de estar determinado em despertar aquele elfo adormecido. Estava seguindo o que o livro dizia sem nem a menos questioná-lo. Não há muito espaço para duvidas e questionamentos em um sonho, só se segue em frente. Mesmo assim Miguel não gostava da ideia de ser manipulado.

- Já não acho uma boa ideia terem despertado Dracul, o irmão desse aqui. Já basta um rei elfo no mundo, não precisamos de dois.

- O que são esses reis elfos?

- São sete ao todo. Comandam o mundo quando a magia volta a tona. O resto do tempo dormem.

Miguel viu a semelhança nas vestimentas do elfo viking e do elfo que dormia. A dedução não demorou a surgir. - Você é um deles, certo?

- Sim, me chamo Abertofh. O que nunca dorme.

A parte de Miguel que estava no quarto lendo o livro achou o nome de Abertofh, no mesmo instante o Miguel que estava na floresta conversando com o elfo descobriu que precisaria da ajuda dele se quisesse despertar Simladris. Miguel só não saberia dizer se devia.

- Você não gosta muito dos outros seis, não é? - Perguntou Miguel, pois sua parte que lia o livro leu uma menção sobre isso.

- Bando de loucos por controle. Nenhum deles faz a menor falta. Pena que são todos imortais.

- Por causa de Dracul vários morreram, cidades inteiras foram destruídas. - Miguel não sabia como ele sabia daquela informação, ele simplesmente sabia. - Tem que haver alguém para detê-lo. Se não você, tem que ser o irmão dele.

Abertofh botou sua mão direita sobre o peito de Simladris. Desse toque saiu uma luz intensa que começou com uma pequena bolota luminosa, depois foi crescendo até engolir toda aquele templo, depois a floresta. Pela primeira vez Miguel sentiu dor em um sonho. Para sua sorte não durou muito, logo ele acordou. Estava de volta a sua cama, imóvel.

- Nossa, garoto. Mas você dorme, viu!

- Ôh! É a única alegria que me resta.

Dandara chega sentiu uma pontada no peito quando seu sobrinho lhe deu aquela resposta. Depois dessa ele resolveu sair do quarto. Deixando que Miguel voltasse ao seu sono. Algo que não custou a demorar. Em menos de dez minutos o garoto já tinha caído nos braços de Morfeu. Miguel tinha voltado a floresta mística que tinha deixado para trás. O garoto estava de volta ao templo. Dessa vez porém não havia mais nenhum elfo repousando em altar ou nenhum barbudo fazendo a vigília. Essa segunda tentativa de sono não se prolongou muito. Miguel acorda assustado ao ouvir seu pai entrando em seu carro eufórico. Devido ao seu trauma Miguel chegou até a acreditar que estava no meio de uma segunda invasão monstruosa. O motivo do fuzuê, no entanto, era outro. Jorge chorava e ria ao mesmo tempo, Miguel nunca viu seu pai assim antes.

- Meu filho! Você vai voltar a andar!

Se ouvisse isso de outra boca Miguel acreditaria que fosse uma piada de muito mal gosto, e ele já ouviu muitas. Mas era seu pai que estava trazendo a novidade. - Será? - Uma luz de esperança nasceu em seu peito, mesmo ele tendo a impressão que aquele tipo de milagre era impossível. Jorge não deu muitos detalhes, apenas arrumou suas malas e levou seu filho para uma viagem. Dessa vez de avião. Miguel nunca havia viajado de avião na vida. Devido a sua limitação física ele chegou até a acreditar que nunca teria essa experiência. Mesmo que aquela esperança que seu pai trazia fosse vã pelo menos serviu para voar. Após as horas de voo, que foram menos impressionantes do que ele esperava, Miguel foi levado pelo pai até uma grande empresa chamada Cyberdine. Os dois foram de táxi.

Jorge conversava com pessoas que pareciam ser médicas devido aos jalecos brancos que usavam. Entre essas pessoas Miguel reconheceu Ariel. A moça havia o visitado umas duas ou três vezes já tinha algum tempo. A última vez que o garoto viu seu rosto foi em um sonho, a qual ela aparecia dando comida a ele. Jorge não dividiu nenhuma informação com o filho, apenas o acompanhou enquanto ele era levado deitado em uma maca a sala de cirurgia. - O que esta acontecendo? - Perguntou Miguel, meio temeroso. Ninguém respondeu. Mais tarde, já dentro da sala, um dos cirurgiões injetou algo em suas veias que o fez dormir novamente.

Miguel acordou em um leito de hospital. O garoto levantou o braço para coçar a cabeça. Seus membros respondiam aos seus comandos. Por causa disso ele deduziu que ainda dormia. Deduziu errado. Ainda sem perceber que estava acordado Miguel se levantou da cama, estava de pé. A sensação era estranha. Suas pernas doíam um pouco por causa da longa inatividade. Não existia dor em sonhos, por isso que a ficha caiu. Aquilo era real.

O primeiro passo foi meio difícil, ele quase caiu, mas após o quarto já tinha encontrado seu ponto de equilíbrio. Jorge entrou no quarto que servia de leito para seu filho com tanta agressividade que houve um forte baque quando a porta bateu na parede. A alegria que o homem sentia por ver Miguel em pé era tão grande que ele quase teve um início de enfarte. Felizmente aquela alegria não foi obscurecida por nenhuma catástrofe. Jorge ficou parado e esperou que Miguel caminhasse até ele. Como faria um pai que incentivava seu bebê a dar seus primeiros passos. Houve um abraço apertado de urso entre os dois. Era o início de uma nova fase.