Marabô

A entidade lançou para a criança um olhar curioso que foi correspondido, porém, o tipo de curiosidade dos dois era distinto. Enquanto a menina de cinco anos tinha uma curiosidade inocente, ansiosa para descobrir como o mundo funciona, o ser milenar demonstrava uma curiosidade de quem se achava detentor de todos os conhecimentos, mas que mesmo assim foi surpreendido. - Não tem medo de mim, coisa rechonchuda e rosada?

- Nião. - A resposta seca e sincera fez com que o espírito ponderasse. Sua roupa fora de contexto, oriunda do século XIX, era mais do que suficiente para assustar qualquer adulto. Principalmente em um quarto escuro à noite. - Qual seu nome, tio? - A entidade ignorou a pergunta e continuou perdida em reflexões. Sua demora em responder fez com que a criança perdesse a paciência e fizesse birra, dando pulinhos e emitindo um som agudo e arrastado.

- Você não era para estar me vendo. - A criança fez uma careta que expressava sua descompreensão. Como ela deixaria de notar alguém tão alto e forte?

- Maiara, vá dormir! - Disse a mãe da menina em um tom ríspido. Assim que entrou no quarto, ignorando o estranho, a mulher acendeu a luz e carregou a filha nos braços até a cama, onde a deitou. - Amanhã você brinca de boneca, amor. Tá tarde.

- Não tava brincando de boneca, mãe. Tava falando com... - Maiara se deteve ao ver o homem de preto pedir sigilo através de um gesto. Quando a mãe deixou o quarto, os dois voltaram a ficar sozinhos. Maiara então perguntou novamente pelo nome do visitante. A entidade caminhou de costas em direção ao canto mais escuro do quarto até se mesclar as sombras e sumir de vista. Maiara se sentiu frustrada, achando que sua pergunta seria deixada sem resposta. Porém, no meio da noite, enquanto dormia, uma voz sussurrou em seu ouvido fazendo com que ela sentisse um hálito quente. - Marabô.

- O que foi fazer no Aiye? - A entidade superior vestia algo que lembrava uma batina. Mas devido à tonalidade lilas e seus excessivos adornos, qualquer sugestão de sacerdócio era perdida.

- Ela me viu, Ekundaio. - Marabô removeu sua cartola da cabeça para realizar um chiste. O exu batia nela para limpar uma poeira inexistente por dois motivos: poeira era formada por pele, coisa que ele não possuía há um bom tempo e sua cartola não era material.

- Ela quem?

- Uma garotinha de cinco, seis anos. Maiara, ouvi sua mãe dizer.

O olhar de Ekundaio era de superioridade, ele julgava a preocupação do seu subordinado fútil. - Não perca tempo com assuntos mundanos. - Disse o egungun. - Seu lugar é no Orun. Só vá ao Aiye quando ordenado.

- Essa garota é muito novinha para entender o que está acontecendo com ela, mas quando crescer...

- Vai sofrer ao ponto de perder a sanidade? Provavelmente.

- Eu poderia...

- Não ouse desobedecer! Não esqueça quem é seu mestre, escravo.

Um lugar que existia fora do tempo e do espaço, onde tudo acontecia simultaneamente. Passado, presente, futuro e o que poderia ser. Cabanas medievais dividiam espaço com prédios modernos e naves espaciais futuristas. Todas as almas caminhavam por ali. Algumas cientes de sua estadia, geralmente os desencarnados, outras não. O último caso era formado pelos vivos durante o repouso, sua estadia era temporária, assim que acordavam voltavam ao Aiye. O Orun era o espaço atrás do véu, as entretinhas do mundo, o reino dos sonhos e pesadelos, o mundo espiritual, o Céu e o Inferno, a imaginação e a criatividade.

Assim que Ekundaio volitou para outra região, no intuito de resolver assuntos que julgava mais relevantes, Marabô resolveu desobedecê-lo. - Como estará essa menina aos... - Em seu monólogo o exu fez uma pausa enquanto se decidia. - Vinte anos? - A entidade não precisava aguardar quinze anos para ter essa resposta. Bastou cruzar duas ruas e encontrar uma cabine telefônica no meio de um mercado de venda de escravos da roma antiga. Marabô estranhou, antes havia uma casa no local.

- Gostou do que fiz, amigo? - Apesar de estar apresentando uma forma diferente, Marabô nunca deixava de reconhecer Pimenta. Em sua nova aparência ele era um britânico de cabelo castanho e encaracolado cujo pescoço era protegido por um cachecol listrado.

- De onde tirou essa ideia?

- Tem um seriado que...

- Deixa para lá. Preciso que você me leve para o Aiye. Quero visitar uma menina chamada Maiara quando ela tiver vinte anos.

- Espera, deixa eu te contar sobre esse seriado que tem tudo a ver com o meu trabalho. O personagem principal se chama só Doutor e ele viaja no tempo com...

- Devo confessar, não sei se é criatividade ou falta do que fazer. - Disse Marabô ao checar a cabine que mais parecia uma grande caixa azul.

- Nós somos eternos, o que mais temos é tempo livre. - O lado de dentro da cabine telefônica não era maior do que o de fora, Pimenta ainda trabalhava nisso, mas sua função era basicamente a mesma que a de sua contraparte ficcional. Os dois exus sentiram uma sutil pressão para baixo quando a viagem começou, algo que lembrava o descer de um elevador. - Sinto falta do tempo em que nos viam como guerreiros africanos. Agora só nos representam como demônios ou góticos europeus vitorianos. - Mesmo não tendo mais pulmão, pimenta suspirou nostalgia. - Odeio essa combinação vermelha e preta. Quando foi que nossa figura brincalhona se tornou tão... - Enquanto falava, Pimenta examinava seu braço e sua mão direita, mas especificamente sua cor de pele. - Nos consideravam mensageiros dos Céus, lembra? Quando perdemos isso?

- Você é o viajante do tempo. Me diz você.

A cabine telefônica estacionou no Aiye, bem em frente a uma instituição psiquiátrica. Assim que percebeu onde a viagem o havia levado, Marabô colocou a mão no rosto enquanto engolia a descoberta da realização dos seus temores. Um calafrio bem humano subiu pela sua espinha. - Sinto muito, menina. - Perdido em sua preocupação, Marabô se esqueceu do seu colega, só se lembrando dele quando ouviu o som de um prato de barro se partindo.

Um adolescentes que passava pela calçada chutou uma oferenda com o ímpeto de quem chuta uma bola de futebol para o gol. Toda comida espalhou-se no chão. Marabô já antevia a tragédia. - Pimenta, não!

A imagem inofensiva de personagem de programa juvenil deu lugar ao estereótipo do Satanás, uma criatura vermelha com chifres grandes e pretos. Pimenta só precisou de um sopro para lançar o seu agouro. Antes mesmo de virar a esquina, o garoto começou a caminhar estranho. No dia seguinte sua perna estará inchada ao ponto dele não conseguir levantar da cama.

- Meio desproporcional, não? Era só um garoto que não sabia o que estava fazendo.

- Não sabia o meu ovo! Ele tem dezesseis anos, não é mais criança! Se esqueceu da nossa época, Enitan?! Aos doze já íamos para guerra!

- Os tempos mudaram. - Pimenta recuperou sua forma britânica, apesar da raiva ainda estampar seu rosto. Ele entrou na cabine e partiu para o Orun.

O portão do manicômio, apesar de fechado, estava destrancado. Espíritos não podiam atravessar paredes, pessoas ou objetos. Como um vivente, Marabô precisava girar a maçaneta e abrir o portão para entrar. Apesar de estar de frente à entrada, o porteiro da guarita não notou o portão sendo aberto. A culpa não era dele, mas sim do Filtro de Percepção. Seres imateriais podiam mover objetos, mas as pessoas esqueciam de terem visto os objetos serem manipulados assim que desviavam o olhar. Além disso, o efeito da influência de um espírito em um objeto no Aiye cessava assim que ele terminava de manipulá-lo. Por exemplo, um espírito podia pegar uma pedra no chão e jogá-la no vidro de um carro. Porém, assim que terminava de cometer o ato, a pedra jogada voltava ao mesmo lugar de antes e o vidro do carro deixava de estar quebrado. A mesma lógica se aplicava com pessoas. Um espírito podia empurrar alguém, espancá-lo, beijá-lo e até fazer atos mais pesados. Terminada sua ação, a pessoa voltava ao estado inicial. Em se tratando de seres vivos havia uma ressalva. Agressões ou atos libidinosos forçados não provocavam efeitos físicos, mas deixavam marcas.

Em relação ao tratamento dos internos, o Santa Efigênia era dividido em três setores: masculino, feminino e judicial. Marabô torcia para que Maiara não estivesse nesse último. Os grandes portões laranjas de metal que davam acesso às alas não podiam ser deixados destrancados. O exu desejava checar a ala feminina, mas como não conseguiu, descontou sua frustração chutando o portão com força, o que fez seu dedão do pé doer. - MERDA! - Marabô encostou suas costas no portão, tirou o seu sapato lustroso e alisou seu pé dolorido. Vida não é vida sem dor, prazer, fome, sono, alegria, raiva... Inclusive após a morte.

A ala que Marabô evitava foi aberta por um funcionário. Em um breve estágio de negação, o exu se recusou a entrar. Porém, seu lado racional venceu e ele aproveitou a oportunidade de checar aquela área. - Por favor, Maiara, não tenha cometido um crime. - O faxineiro demorou parado na entrada, conversando com o segurança com a porta entreaberta. - Sai da frente, miséra. - Marabô empurrou o rapaz fazendo com que ele caísse aos poucos, andando para frente enquanto se desequilibrava. "Catando ficha". Com a passagem desobstruída, Marabõ conseguiu entrar. Poucos segundos depois, sem se levantar e andar de volta, o faxineiro regressou a sua posição inicial, em frente a porta, e esqueceu a queda.

Era impossível não reconhecê-la. Apesar de ter deixado sua gordura infantil para trás, ela continuava tendo os mesmos traços. Maiara se transformou em uma mulher de corpo voluptuoso, atraente para quem gostava de coxas grossas e quadris largos. Marabô chegou na hora certa de vê-la agredindo outra paciente. A garota conseguiu dar dois socos até ser contida pela equipe de segurança. A mulher agredida sentou encostada em uma parede enquanto abraçava os próprios joelhos. Sua expressão de medo enganava os enfermeiros e seguranças, mas não Marabô. - Não finja que não me vê. Fique longe da menina, kiumba!

A mulher agredida revelou a Marabô sua real face, um rosto felino que lembrava o de uma pantera azulada. - O que você tem a ver com ela? É seu anjo da guarda por acaso? - Por deduzir que a kiumba não o obedeceria, Marabô a segurou pela virilha e pelo ombro direito. Em seguida a ergueu no ar e a jogou longe, no meio do pátio da ala. A cabeça da entidade ao se chocar no chão provocou um som de estampido. Sangue escorreu pelo canto de sua testa. Com uma velocidade compatível com o animal que a representava, a mulher onça se atirou rumo ao seu oponente e descarregou socos e chutes marciais que foram sutilmente evitados. Quando cansou, a kiumba recebeu outro golpe, o antebraço direito de Marabô acertou o seu nariz, quebrando-o. Percebendo que não estava à altura do exu, o espírito ruim se afastou as pressas enquanto suplicava. - Tudo bem, cara. Eu me afasto dela!

- Tarde demais. - Marabô com uma rasteira fez com que a kiumba caísse para trás. Antes que ela tocasse no chão, ele a agarrou, a suspendeu acima de sua cabeça e a abaixou com fúria em seu joelho. O som da coluna vertebral da mulher onça se partindo foi seguido pela entidade se transformando em pó dourado e desaparecendo. A luta que aconteceu diante de uma plateia considerável não será lembrada por nenhum deles. Assim como o espírito materializado que fora despachado.

- O que aconteceu com Maiara? - Perguntou o psicólogo da ala a um dos seguranças. O homem era careca e se aproximava aos setenta anos. Apesar de lidar com internos perigosos, o seu maior medo não eram eles, mas sim a aproximação de sua aposentadoria compulsória. Um profissional que amava o seu trabalho.

- Ela estava socando o ar de modo histérico. Achei por bem colocá-la em uma camisa de força na hora, mas acho que exagerei. Afinal ela não machucou ninguém. Devo soltá-la?

- Não faça isso ainda. Ela não agrediu ninguém, mas poderia ter agredido. É melhor deixar que se acalme primeiro.

- O senhor não está sendo rígido demais?

- As vezes é preciso ser. Não é bom fazer o papel de "legal" o tempo todo.

Após uma pausa breve, o segurança surpreendeu o psicólogo ao mudar o tópico da conversa de maneira brusca. - Doutor, sem ofensas, mas o senhor não quer trocar o computador de sua sala? Peça para abrir uma licitação. Pentium 4 com Windows XP! Ninguém merece.

- Que nada, para quê computador bom se só uso excel?

Enquanto isso, em um quarto de paredes acolchoadas e encardidas, Maiara sentou no canto oposto ao da porta tentando se afastar o máximo possível de um visitante vestido de preto. - Engraçado, aos cinco anos você não tinha medo de mim. - A chave do quarto estava pendurada na sala ao lado, que era do psicólogo. Assim que Marabô entrou no quarto, a chave voltou ao seu lugar de origem e a porta voltou a ficar trancada. Marabô se prendeu, tão impossibilitado de sair quanto sua protegida. Ele não se importava, até gostou da privacidade que teriam.

Maiara fechou os olhos enquanto repetia um mantra pessoal que elaborou para mandar as alucinações embora. - Isso não é real, isso não é real, isso não é real...

- É. Você não era para estar me vendo mesmo. - Marabô sentou encostado nela. - Uma moeda pelo seus pensamentos. O que te aflige? - Essa era a primeira alucinação educada que Maiara se recordava ter tido. Só por isso respondeu. Mesmo achando que na realidade falava sozinha.

- Sou doida, porra, quer coisa pior que isso?

- Loucura é relativo. - Maiara revirou os olhos impaciente enquanto pensava: "ótimo, uma alucinação filosofa". - Não se conta o que viu, ouviu e vivenciou a todo mundo.

- O que isso tem a ver comigo?

- Tudo! Não se lembra daquela noite?! Você quase saia espalhando que conversou comigo! - Ao ouvir a reclamação de Marabô a aparência dele se tornou familiar. Gradativamente a memória daquela parte de sua infância voltou, assim como o nome sussurrado em seu ouvido.

- Mas ela era minha mãe, Marabô.

- E daí?! Só por isso ela é obrigada a entender tudo? Um dos funcionários daqui já foi abduzido três vezes e ficou pianinho. Se ele contasse sua experiência para Deus e o mundo provavelmente estaria internado aqui ao invés de trabalhando. Olhando para ele ninguém imagina. Siga o exemplo dele. O Aiye foi feito para iludir.

- "Ai" quem?

- Curso relâmpago: Aiye é o "mundo" da matéria, Orun o espiritual. Os dois não ficam em planos diferentes, ocupam o mesmo lugar ao mesmo tempo (alias esses dois tópicos dariam uma outra aula). Há quem chame os dois de Entremundos, Véu de Maya, enfim, varia de acordo à cultura. Entidades espirituais não são como nos filmes, não atravessam paredes. Um espírito pode ser visto por quem ele quiser, mover o que desejar, quebrar o que quiser e fazer qualquer coisa com qualquer ser vivo, mas a ilusão do Orun remove os seus efeitos (superficialmente). Mas você é diferente das outras pessoas, você nos percebe e não se esquece.

- Mediunidade?

- Ninguém consegue enxergar todos os espíritos, o tempo todo. Você é algo que ainda não consigo classificar.

- Pode me encarar como uma alucinação se facilitar para você. Só não se esqueça: fecha o bico. - Após alguns minutos de silêncio, Maiara não aguentou e resolveu puxar assunto.

- Juro que não vou contar para ninguém. Quem é que já foi abduzido aqui?

- Você ainda continua sendo aquela menina gordinha, né? Curioooooosa. Vai ficar sem saber.

Assim que o psicólogo entrou em sua sala, ele notou que uma de suas chaves havia sido manipulada sem sua autorização, apesar dela continuar na mesma posição a qual foi deixada. - Quarto 12? Maiara! - O doutor se dirigiu ao quarto acolchoado onde Maiara era mantida e através de uma janelinha de vidro viu o seu estado. Estava bem. Até demais. - Uma a menos. - Murmurou o psicologo satisfeito com o que via.

- Vai soltá-la, agora?

- Talvez seja melhor mantê-la por mais algumas horas.

Ao retornar a sua sala, o psicologo ligou o seu computador que supostamente era defasado. O teclado, o mouse e os botões da CPU eram decorativos, a máquina operava por comando de voz. - Computador, ligar. - A máquina atendeu ao pedido acionando uma imagem de tela que emulava o Windows XP.

- Boa tarde, doutor Jaquison , o que deseja? - O psicologo se acomodou em sua cadeira acolchoada de forma bem relaxada e prosseguiu.

- Listagem dos internos da ala judicial.

- 175.

- Só os humanos.

- 98.

- Mudar o status de Melody para "Desfiliado".

- Uma das kiumbas? O que aconteceu com ela?

- Eu não queria perdê-la. Mas... Talvez tenha sido melhor assim. Que outros se preocupem com ela.

- Só isso?

- Não. Uma notícia boa pelo menos, me passe a lista dos internos humanos e vivos.

- 25.

- Apagar o cadastro e o histórico de Maiara.

- Menina de sorte.

XXX

- Preciso que você me leve para o Aiye. Quero visitar uma menina chamada Maiara quando ela tiver vinte anos.

- Espera, deixa eu te contar sobre esse seriado que tem tudo a ver com o meu trabalho. O personagem principal se chama só Doutor e ele viaja no tempo com...

- Devo confessar, não sei se é criatividade ou falta do que fazer. - Disse Marabô ao checar a cabine que mais parecia uma grande caixa azul.

- Nós somos eternos, o que mais temos é tempo livre. - O lado de dentro da cabine telefônica não era maior do que o de fora, Pimenta ainda trabalhava nisso. Os dois exus sentiram uma sutil pressão para baixo quando a viagem começou (e Marabô um curioso déjà vu). - Sinto falta do tempo em que nos viam como guerreiros africanos. Agora só nos representam como demônios ou góticos europeus vitorianos. - Mesmo não tendo mais pulmão, pimenta suspirou nostalgia. - Odeio essa combinação vermelha e preta. Quando foi que...

- Deixa de ser rabugento! O tempo mudou, aceite!

A cabine telefônica estacionou no Aiye, assim que saiu de dentro dela, Marabô avistou uma casa de classe média. - Será que ela mora aí dentro? - Enquanto o seu colega se mantinha próximo à porta de sua máquina do tempo, ele foi conferir. Olhando pela janela, o exu viu uma mulher de corpo voluptuoso, atraente para quem gostava de coxa grossa e quadril largo, lendo um livro deitada no sofá da sala. Alegria e tristeza se confundiam dentro da entidade. - Ela se esqueceu de mim?

- Eu falei para não me desobedecer, escravo. - Marabô era tão sensível a presença de Ekundaio, seu mestre, que nem precisou se virar para saber que ele estava presente. - Ela cresceu saudável e bem. Não basta?

- Você disse que ela poderia ficar louca! Eu fiquei assustado.

- A toa. Ela teve quem a ensinasse a se virar. A janela está destrancada, tente invadir a casa. - Marabô achou estranho o pedido do seu mestre, mas acatou sua ordem. Assim que tocou no ferrolho, ele sentiu sua mão arder como se encostasse em ferro em brasa.

- Aaaaahh! O que é isso?

- Corpo Fechado, a ensinaram bem.

- Foi você?

Ekundaio abraçou Marabô pelo ombro, incomodando o exu pela intimidade exagerada. - Você ainda se confunde todo com a visão de tempo não linear, é por isso que sou o mestre e você o escravo.

- Vaaaaleu.

- Não estava te ofendendo. Se lembra da última coisa que te disse?

- Só vá ao Aiye quando for ordenado.

- Pois bem, você acaba de receber essa ordem. Tenho uma missão para você. Não agora. Quero que se preocupe com a Maiara rechonchuda e rosada. Não com a de vinte anos. Seja o professor dela e faça com que essa versão dos fatos aconteça.

A animação de Marabô estampada no seu olhar fez com que perdesse um pouco suas inibições. - Eu poderia beijá-lo, sabia.

Imediatamente Ekundaio se desvencilhou do abraço. - Eu sou da baixa idade média, lembra? Não vai rolar.

XXX

- Minha vida virou um inferno por causa daquela putinha! Ela vai pagar! - Quinze anos antes da conversa a qual Marabô foi agraciado com sua missão, Melody se materializou em um beco escuro. Os raios elementais que formaram seu novo corpo físico provocaram um derretimento no asfalto. Nessa nova forma ela decidira por se tornar uma morena atraente ao ponto de poder estampar uma capa de revista masculina. Após ser despachada por Marabô, a kiumba retornou ao Orun onde ficou detida em uma instituição correcional muito mais rigorosa do que a Santa Efigênia. Após um século, ela foi liberada. Seu sofrimento, porém, não foi em vão. Ela aprendera vários truques novos.

Pela calçada de uma avenida ela caminhava nua, desfilando como se estivesse em uma passarela. Só duas pessoas a viram. Uma mulher que parou o seu conversível em um sinal vermelho e um mendigo deitado em uma cama de papelão. Deles, um estava vivo e o outro não.

- Querida, quer que eu chame a polícia?

- Gostei de sua roupa e do seu carro. - O mendigo assistiu enojado à kiumba arrancar a motorista do carro, espancá-la e despi-la. Isso não o assustou. Espíritos violentos não eram incomuns nas ruas. O que o deixou assustado foi o que aconteceu em seguida. Ou melhor, o que não aconteceu.

- Sua influência não se desfez! Como?!