Alvorada de um Novo Milênio

- Iremos bloquear qualquer chance dele desenvolver alguma dependência como álcool e drogas. Ele também não terá que se preocupar com calvície, nem com tão cedo cabelos brancos. Terá tudo para ter um corpo em forma, já que eliminaremos qualquer tendência a engordar.

- Podemos escolher o sexo do bebê? - Perguntou o pai, torcendo para sair daquela sala já tendo a certeza de que teria um menino.

- Tecnicamente vocês poderiam, mas o governo proibiu esse tipo de manipulação do DNA. Você terá que contar com a sorte.

- Mas por quê? - Perguntou o pai, inconformado com a resposta.

- É que em alguns lugares há muitos pais que preferem meninas e outros que tem muitos que preferem meninos. A medida foi tomada para impedir um desequilíbrio.

O pai continuou desapontado, sua expressão deixava isso claro já que ele chegou a entortar sua boca. Para confortá-lo, sua esposa tocou em sua mão e a alisou levemente.

Os dois estavam casados há um bom tempo. E como muitos que tem um relacionamento longo e estável começaram a planejar o primeiro filho. Já estava mais do que na hora. A mulher já chegava aos quarenta. Porém não havia medo quanto a isso. Com os avanços da medicina seu ovário permanecia tão bom quando o de uma garota de dezoito anos. Eles poderiam fazer um bebê na maneira tradicional e deixar que o acaso decidisse como o rebento iria nascer. Porém decidiram por não fazer dessa maneira, primeiro porque tinham receio de que o garoto pudesse nascer com algum problema. Um medo meio exagerado, mas que era fomentado pela mídia. Depois porque a lei incentivava a se ter filhos através de manipulação genética. Uma criança nascida com essas condições teria mais facilidade em entrar numa faculdade ou ter um melhor emprego. Era até mesmo possível escolher algumas características para a criança melhor se enquadrar em uma função ou carreira. Por exemplo: se fosse do desejo que o bebê seguisse uma área que envolvesse muito raciocínio lógico dava para escolher um maior acréscimo na sua inteligência matemática. Se o proposito fosse criar um artista se poderia elevar a inteligência emocional ou musical.

Isso sem contar com a possibilidade de se adicionar habilidades não inerentes ao ser humano.

- Dá para fazer com que meu menino seja tão esperto quanto eu? Quer dizer, gosto de trabalhar com tecnologia, gostaria que ele tivesse esse apresso pela área também.

- Infelizmente não. Antes fazíamos esse tipo de serviço, mas agora o governo quer ter o poder de decidir quantos músicos, psicólogos, matemáticos, médicos... teremos na sociedade. Essa lei foi criada, pois haviam certas áreas que eram preteridas pelos pais e por causa disso o mercado estava meio em falta.

- Foda-se o governo! - Disse o pai, quase batendo na mesa. A esposa dele dessa vez não se preocupou em acalmá-lo, apenas o olhou com uma cara de reprovação.

- Não se preocupem, o bebê de vocês nascerá saudável e perfeito. - O funcionário pegou uma prancheta digital e entregou para o casal. Os dois colocaram seus dedos sobre a tela, imediatamente o aparelho captou suas digitais. Acabaram de assinar o documento que daria início ao processo.

A fecundação era artificial, era possível inclusive engravidar a mulher sem que ela tivesse sequer algum dia tido alguma relação sexual. Do pai era preciso uma amostra do seu esperma, da mãe foi retirado um óvulo. No laboratório um cientista unia os dois gametas e selecionava o modo como eles iriam interagir. Assim poderia escolher quais informações do DNA dessa combinação iriam ser manifestadas. Para finalizar faltava só um componente externo. Uma outra fonte de DNA que seria introduzida na união dos dois gametas que traziam consigo características extras, não existentes no homem comum. O cientista precisava tirar uma duvida com o seu superior que estava naquele instante em outro estado. Não era necessário celular nem outro aparelho arcaico para estabelecer aquela comunicação, bastava usar sua psique. Através de um elo mental o cientista fez sua pergunta.

- Chefe, desculpa chamar tão tarde. É que preciso saber qual combinação uso nos lotes 354.

- Porra, rapaz! Não dá pra ver isso no sistema?!

- Acho que o pessoal esqueceu de alimentar o sistema com essa informação, pois eu não encontrei nada.

- Bom, o último lote foi de carreira técnica administrativa, escolha algo voltado a tarefa de segurança ou militar. Um DNA bélico ou algo do tipo.

- Ok, chefe. Obrigado. Vai desculpando aí.

- Tudo bem, só faça seu trabalho direito.

O cientista encerrou o elo mental. Em seguida se levantou de sua cadeira e andou até uma sala ao lado que era tão grande quanto um hangar de guardar aviões. O local era amplo e espaçoso, continha apenas várias fileiras de estantes cheias de tubos de ensaio a se perder de vista. Cada um daqueles tubinhos continha um código genético diferente. Os genes artificiais eram divididos por assunto. Mental, Artes, Líbido, Trabalho Braçal, Sobrevivência, Flora, Voo... O cientista parou na estante que exibia uma placa com a palavra Bélico escrita nela. Nessa estante, assim como nas demais, cada um dos tubos vinha com um nome diferente. Na estante Bélico havia tubos intitulados de Damonfeuer, Lupercus, Lowen, Rakshasa, Wolf-shifter, Behemoth e muitos outros. O cientista pegou o primeiro que viu na frente, mas assim que leu a qual gene se referia mudou de ideia. Ele havia pêgo o tubo Damonfeuer. - Coitado dos pais, deve dar trabalho criar um menino que pode por fogo na casa com uma simples baforada. - O tubo é recolocado em seu lugar e é escolhido outro. Lupercus.

No dia seguinte os pais retornaram ao centro médico. Não foi contado a eles qual genoma especial foi atribuído ao bebê, política da empresa. O óvulo fecundado foi introduzido na mãe e agora era só esperar. Depois de nove meses você vê o resultado.


26 anos depois

O carro andava pela estrada sem tocar no chão, flutuando há cerca de dez centímetros. Não havia pneus, pois não eram necessários. Mesmo tendo um visual muito inovador para os nossos padrões dava para se identificar aquele como um veículo policial devido sua cor preta e azul e devido as sirenes giroflex que ficavam presas ao teto. No volante dirigia um sujeito de pele clara, troncudo e alto, parecia um lutador de MMA. Tinha uma cara de invocado, pois sua cabeça era lisa de tão careca e esbanjava uma barba espessa e negra. Para completar o visual em seu braço direito ele ostentava uma tatuagem. Um X negro dentro de um circulo vermelho. O simbolo de um grupo de heróis históricos que há muito tempo já se foram. No banco do carona estava um policial negro e magro, com trinta e seis anos de idade. Um cabo verde, já que seus cabelos eram bem lisos. Esse era a primeira missão em campo a qual os dois trabalhavam juntos por isso ainda não haviam se conhecido bem.

- Que tipo de mutante é você? - Perguntou o policial negro.

- Esse tipo de pergunta é considerada indiscreta no nosso meio. Não se revela as fraquezas e habilidades para alguém que mal se conhece. E "mutante" é um nome depreciativo.

- Qual o termo politicamente correto devo usar então?

- Gostamos de Homo Superior.

- Hahaha! Quanta humildade!

A estrada na qual a viatura passava estava cheia com os mais variados e exóticos veículos, porém naquele mundo todos aqueles designs eram vistos como normais. O carro a frente, se é que dava para chamar aquilo de carro, era um pneu gigante que levava o motorista em uma cabine esférica que ficava no meio. Um outro veículo se assemelhava a uma moto, porém tinha seis canos de descarga extremamente grandes. Havia também modelos de carros que abandonaram qualquer vinculo com o chão e voavam pelos céus.

Naquele instante os policiais passaram ao lado de um monumento que o policial mutante no volante achava a coisa mais ridícula do mundo. No meio de um rio urbano havia uma estátua de trinta metros que era a imagem de um homem nu com barbas e cabelos compridos segurando um raio. Após tantos anos algumas religiões saíram de moda e outras que já começavam a ficar esquecidas voltaram com tudo. Quando você leu o termo "rio urbano" acima não construa em sua mente a figura de esgotos a céu aberto. Aquele rio não tinha nada disso, era muito limpo inclusive. Em suas águas um tipo de bactéria geneticamente alterada consumia qualquer forma de material industrializado que caísse ali. Um saco plástico, por exemplo, duraria séculos para se desintegrar se fosse jogado em um meio natural. Com aquelas bactérias o tempo era reduzido para mais ou menos três meses.

O veículo policial estacionou na frente de uma casa de luxo situada em um dos condomínios mais nobres da cidade. A chamada havia sido feita por vizinhos que já se aglomeravam na porta. - Ele não dá sinal de vida à semanas. - Disse uma velhinha que chegava a ser meio encurvada. Ao lado da senhora havia um sujeito alto e com um rosto meio esquisito, com um queixo muito proeminente e orelhas de abano. No mesmo instante em que pôs os olhos nele o policial mutante o identificou como sendo um Skunk Ape.

- Pode nos dar licença, nós assumimos daí para a frente. - Disse o policial negro. A idosa e o brutamontes acharam o pedido meio ríspido, mas o acataram assim mesmo. - Então? Consegue sentir alguma coisa daqui, Vitor?

Vitor Cerqueira nasceu para ser policial, seus sentidos aguçados permitiam a ele poder analisar uma cena de crime com muito mais profundidade do que um humano convencional conseguiria. O policial careca começa a cheirar o ar com força. Seu nariz capta algo não muito agradável. Uma péssima notícia. - Tem alguém morto aí dentro. - Unhas afiadas começaram a brotar de seus dedos. Com brutalidade Vitor dá um golpe certeiro na maçaneta da porta fazendo com que ela cedesse. Ele entrou na frente, seu colega ia logo atrás já com seu revolver em punho.

A mansão não tinha nada de modesta. Era ampla e cheia de móveis modernos. Porém sua visão dava um certo desconforto por causa do excesso de branco. Além das paredes serem todas alvas, muitos móveis refletiam a mesma cor. Dando a tudo um visual excessivamente monocromático. Seguindo seu faro Vitor foi até o cômodo onde o cheiro era mais intenso. Era uma oficina muito da desorganizada, cheia de peças mecânicas espalhadas pelo chão e com equipamentos estranhos por tudo que era lado. O morto estava ali. Caído no chão. A imagem era grotesca, pois sua cabeça foi separada de seu tronco. Vitor olhou para o morto, mas não se sentiu incomodado apesar da cena. Sua espécie foi feita para não se incomodar com sangue e morte. Pelo contrário. Alguma parte de seus instintos lupinos sugeriam que aquele amontoado de carne poderia ter um gosto bem agradável. Vitor se aproxima para analisar melhor a cena do crime e sem querer acaba fazendo com que a tentação aumentasse. Agachado perto do cadáver Vitor abre sua boca mostrando que seus dentes começaram a ficar pontiagudos. Ele ronrona enquanto aproxima seu rosto do morto. Ele cederia se seu colega não tivesse chegado a tempo.

- Descobriu alguma coisa? - O policial negro perguntou calmamente, pois não tinha visto o estado do morador da casa ainda. Assim que encarou o defunto sentiu seu estômago revirar e uma enorme ânsia por sair logo dali. - Meu Deus, como você consegue ser tão frio? - Perguntou se referindo a capacidade de Vitor de ficar tão próximo do morto sem se sentir incomodado. Se ele soubesse o que seu colega quase ia fazendo ali era bem capaz dele pedir na delegacia por um novo parceiro.

- Sou um Lupercus. Fui feito para não me incomodar com a morte, Túlio.

Túlio Andrade nasceu de forma tradicional, sem a intervenção da manipulação de DNA. Era cem por cento humano, como muitos gostavam de definir quem nascia daquela maneira. Um autêntico Homo Sapiens, sem nenhuma habilidade pós-humana e com características de personalidade, intelecto e capacidade física escolhidas pelo acaso. Apesar de se considerar como alguém fora da comunidade mutante era difícil ver naquela sociedade alguém que mantivesse seu genoma sem nenhum traço transgênico. O pai de Túlio era um Boraro, mesmo sem ter manifestado as características inerentes daquele tipo de mutante, aqueles traços estavam escritos em algum lugar de seu DNA. Talvez a sua futura prole venha a conter um ou outro indivíduo mutante nascido daquele jeito mesmo sem ter passado por uma engenharia genética. Dessas relações podiam nascer o que muitos chamam de mestiços. Indivíduos nascidos com habilidades mutantes combinadas. Era algo arriscado, pois alguns nasciam com aspecto grotesco e bem inumano.

Vitor pegou seu celular do bolso, que era tão fino quanto um cartão, e começou a tirar algumas fotos do cadáver para levar para a perícia. Algumas coisas ele já sabia antes mesmo de enviar as provas para o pessoal do laboratório. Aquela cabeça havia sido arrancada, não cortada. Seja lá quem tivesse feito aquilo tinha uma força absurda. - Um Skunk Ape conseguiria fazer isso? - Se perguntou o policial enquanto decidia se colocava um dos vizinhos da vítima na lista dos suspeitos.

Como se sentia incomodado pelo cadáver, Túlio se afastou e decidiu contribuir de outra maneira. Ele pega de seu bolso algo que parecia uma folha de papel enrolada em forma de cone. Ele abre a folha e acaba revelando que aquilo na verdade era um computador. Com tela incrivelmente fina e maleável, o teclado era virtual e só aparecia quando necessário. A maioria dos comandos eram do tipo point-&-click. Túlio acessa a internet, em menos de um minuto consegue baixar a ficha pessoal da vitima.

- Sebastian Trask. Quarenta e seis anos, solteiro, sem filhos e mora sozinho. Trabalha para a empresa S.H.I.E.L.D construindo autômatos de várias finalidades. Não tem antecedentes criminais e também nunca se envolveu em qualquer tipo de briga, nem mesmo jurídica. Não tem namorada, logo podemos descartar um suposto ex vingativo. Ah, já ia me esquecendo. Ele é um forge.

- Conheço esse tipo. - Falou Vitor. - São muito inteligentes para construir coisas e possuem um poder de concentração incrível, porém geralmente são pouco sociáveis, já que possuem a tendência de quererem se isolar. Não costumam se envolver em confusão. Não imagino o porquê de alguém querer ver um forge morto.

Enquanto ouvia o que seu colega falava Túlio ia examinando aquela oficina. Em uma parede haviam quatro robôs guardados um ao lado do outro. O primeiro da esquerda para a direita estava bem incompleto. Era magro e tinha várias peças internas ainda a mostra, parecia ser um modelo do tipo doméstico usado para trabalhar como faxineiro ou garçom. O segundo não tinha aspecto humanoide, parecia mais uma lata de lixo branca. Era pequeno e tirando o tronco tinha apenas três apêndices, um ficava a frente de seu corpo para dar apoio e os outros dois ficavam no lugar que deveriam ser os braços, no entanto ficavam em contato ao chão e funcionavam mais como pernas. O terceiro era fino e comprido, parecendo um cabide tosco com braços e pernas. O último era o mais impressionante de todos. Nitidamente militar, tinha um corpo robusto e era tão alto que sua cabeça quase batia no teto, tinha quase quatro metros de altura. Era pintado de azul com alguns detalhes em branco. Sua cabeça não exibia nenhum rosto, era lisa e tinha um formato meio cone ovalado. Em cada uma de suas poderosas mãos haviam três dedos que davam a impressão que tinham um poder de prensa assustador. Túlio se aproximou daquela máquina para ler uma palavra escrita no lado esquerdo de seu peitoral. As letras eram pequenas e tinham uma formatação artística demais que dificultava a leitura. Após muito pelejar o policial acaba conseguindo ler o nome do robô. Sentinela.

Movido por sua curiosidade Túlio toca no Sentinela, no mesmo instante o robô dá sinal de vida e o policial pula para trás sob o efeito do susto que havia levado. Com a palma de trás da sua mão a máquina de guerra dá um tapa em Túlio fazendo com que ele caísse a vários metros de distância. Ele desmaia, o golpe foi duro demais e se não fosse por sua roupa protetora o estrago seria bem pior e irreversível.

Vitor deixa o morto para lá e se põe de pé. O policial começa a rosnar como uma fera, exibe seus dentes tão pontiagudos como os de um vampiro e expeli suas garras. Ainda sofrendo o efeito do frenesi Vitor tira sua camisa para exibir seus músculos. Uma atitude meio imprudente, pois sua camisa de policial apesar de ser fina e maleável funcionava como um colete.

O Sentinela é o primeiro a tomar a iniciativa. Ele move seu corpo metálico com rapidez na intenção de desferir um potente soco. Vitor desvia do golpe e se joga no pescoço da criatura. Tal como a maioria dos predadores naturais, como leões e lobos, o instinto de Vitor o impelia a atacar primeiro a garganta dos seus adversários. Porém máquinas não sentiam necessidade de respirar, um corte ali com suas potentes garras não provocou muitos estragos. O segundo soco do colosso de metal foi certeiro. O corpo de Vitor com o golpe é arremessado até o outro lado da oficina onde acerta a parede oposta. O impacto foi tão forte que uma cratera é provocada na parede. Um golpe desses mataria um humano comum, mas Vitor não era nenhum homem comum. Aquilo só serviu para deixar o mutante ainda mais furioso. Mal estava pronto para atacar novamente e suas feridas já começavam a se curar. Um poder de recuperação impressionante.

Vitor já quase se jogava contra o robô novamente quando atingiram o Sentinela com vários disparos. Cinco tiros. As balas potentes atravessaram a couraça e transformaram o maquinário em sucata. O Sentinela fica jogado no chão tão morto quanto o seu criador, o azarado senhor Trask.

Túlio ainda estava sem conseguir se levantar, mesmo assim ergueu o corpo o suficiente para acertar a criatura com sua pistola. A arma que usava parecia ser feita de plástico e era meio transparente. Não era muito ameaçadora e até lembrava um revólver de brinquedo. Mas não se engane, aquela arma era fatal. O que acabou sendo comprovado naquele instante.


O bar, depois do expediente.

Túlio andava com alguma dificuldade, uma costela havia sido danificada, por isso se mover causava desconforto, ele havia sido medicado e só por isso é que a dor era suportável. Apesar do médico da delegacia sugerir repouso, o policial preferiu ignorar a recomendação e resolveu dar uma passadinha no bar Trick & Bear, o point de encontro mais usado naquela área da cidade. Como o lugar era próximo da delegacia muitos policiais nas vésperas de fim de semana gostavam de tomar umas ali. Assim que entrou Túlio viu uma mesa com alguns de seus colegas, ele foi convidado a se juntar ao grupo. Em meio a risadas e bebidas os homens da lei conversavam trivialidades.

- O sujeito construiu um robô que acaba se voltando contra ele e o mata! Nossa, que loucura! - Comenta um dos policiais que estava na mesa, um quarentão louro e com barriga saliente.

- Nem de perto é a coisa mais bizarra que eu já vi. Sei lá, as vezes acho que o mundo seria bem mais simples se não existissem esses mutantes. - Comentou Túlio.

- Olha o racismo, rapaz. - Comentou um outro policial, meio que em tom de brincadeira. - Além do mais há pelo menos um lado bom desses mutantes. - Com um gesto de cabeça o policial apontou para uma mulher que havia acabado de entrar no bar. Ela era alta, morena e com o quadril avantajado, para aumentar a tentação a moça se apoiava no balcão de uma maneira a empinar seu traseiro. Muito bonita de se ver, porém sua beleza não era natural, mas sim planejada por assim dizer. - O nome dela é Soraia. Ela é uma lilin. Dizem que são incríveis na cama. - Lilin é um tipo de mutante que meche com o líbido. Geralmente são mulheres, os homens da espécie recebem outro nome.

- Cuidado se for se envolver com uma dessas! - Comentou o louro barrigudo. - Se irritadas elas podem te jogar uma doença capaz de deixar seu pau caído pelo resto de sua vida. - O outro policial bateu na mesa três vezes com o punho. De repente sua ideia de ter um momento de amor com uma lilin não pareceu tão boa.

Túlio deu um gole no seu copo de cerveja enquanto pensava no absurdo a qual sua sociedade havia se transformado. - Criam até pessoas destinadas a serviços sexuais hoje em dia. Aonde vamos parar?!

Quando saiu do bar Túlio se sentia meio zonzo, mas não ao ponto de não conseguir voltar para sua casa sozinho. O álcool em suas veias até que prestava um bom serviço, já que suas dores acabaram sendo anestesiadas. Sua esposa o esperava na porta da casa, uma mulher da mesma idade que ele, ruiva e um pouco rechonchuda. Assim que a viu o policial fez uma careta. Estava prevendo que iria ouvir alguma bronca. Ao invés disso ouviu coisa pior.

- Milena, eu só estava tendo um encontro com alguns colegas. Juro que nunca te trocaria por ninguém.

- Cala a boca, porra. Seu filho tá com problema e você vai encher a cara?! Que tipo de pai desnaturado é você?!

Imediatamente Túlio fez uma expressão mais séria. - O que foi que houve com Júnior? - Túlio Andrade Júnior era o filho do casal, um garoto de quinze anos que naquele instante já se encontrava em sua cama dormindo. O menino herdou a pele escura do pai e o cabelo rubro da mãe. Alguns séculos atrás aquela combinação seria impossível, porém com tanta manipulação genética na sociedade fenótipos mais exóticos como aquele começaram a aparecer.

Milena pegou uma folha de papel e a entregou a Túlio de maneira tão ríspida que praticamente esfregou o documento em sua cara. O policial pegou a folha de papel e começou a ler. Era um exame médico.

- Por esses dias Júnior começou a sentir um pouco de tontura e mal estar. Mas você nem se ligou nisso, né? Levei o menino para o médico e taí o resultado.

Túlio leu tudo, mesmo assim não conseguia acreditar naquelas palavras. Seu filho era um mutante. E como se isso já não fosse notícia ruim o suficiente o menino era de uma espécie que Túlio havia aprendido a não apreciar.

- Não! - Disse Túlio, colocando sua mão na boca. - Aqui esta dizendo que Júnior é um...

- Baccanalian. - Completou Milena já percebendo que seu marido não conseguia completar a frase. Baccanalian era uma das espécies de mutante que mexiam com o libido.