Despedida

- Nossa! Esse é o mutante mais feio que eu já vi. - Túlio andava ao lado de seu parceiro, Vitor Cerqueira, ele estava checando em seu PC fino como uma folha de papel sua próxima tarefa. Tinham que entregar um mandato de prisão para um pai que deixou de pagar sua pensão alimentícia. Túlio se perguntava que tipo de mulher teria coragem de se relacionar com aquele cara. Pela foto no PC Túlio via um homem que mais parecia um zumbi. Sua pele era azul e seu rosto cadavérico, nem mesmo nariz ele tinha.

Vitor bate na porta do apartamento. O endereço indicado da residência do pai-zumbi era aquele. A porta é entre aberta e o mutante mostra todo seu esplendor. Ao vivo ele ainda era mais feio do que na foto pensou Túlio. - O que é?! - Perguntou o zumbi de modo grosseiro.

- Senhor Samuel Summers. - Disse Vitor. - Temos um mandato para te levar para a delegacia. Quem mandou não se precaver? Sua ex-mulher tá pedindo pensão.

A única resposta que Vitor obteve foi uma rajada de energia que o arremessou até a parede oposta. O impacto foi tamanho que o lupercus quase atravessou a parede, criando uma cratera enorme antes de tombar no chão. Samuel conseguia soltar raios pelos olhos, uma habilidade não muito comum de se encontrar.

Túlio pega seu revolver do coldre, o modelo transparente que adora usar, e aponta para o agressor. Ele comete o erro de não atirar logo e perder tempo gritando "parado". Até parece que um criminoso com canhões atrás dos olhos se sentiria ameaçado com isso. Samuel sai em disparada em direção da janela de sua sala e se joga de lá. Túlio fica espantado, achando que o mutante cometeu suicídio. Ao olhar para o lado de fora a decepção. Samuel não estava estatelado na calçada, mas sim se movendo nos céus. Como se já não bastassem as rajadas ópticas ele ainda conseguia voar. - Mestiço de merda! - Reclamou Túlio.

Naquele instante Vitor tinha acabado de se levantar. Seu peito ainda doía e por isso ele o massageava. - Cadê o miserável? - Perguntou ao se por de pé.

- O sacana saiu voando! Na ficha dele não diz que ele tem esse poder. Diz apenas que o suspeito tem DNA de gorgonoíde.

- Você não viu a cara dele?! O miserável é um mestiço. Só Deus sabe quantas espécies de mutante são ativas em seu DNA.

- E agora?!

- Liga para a central. Eles que arranjem um policial voador. Estou fora dessa.

Como a missão não foi cumprida e nem se preocuparam em finalizá-la, a dupla teve uma hora livre que resolveram gastar no bar. E qual bar melhor para beber do que o Trick & Bear? A dupla estava no balcão esperando que o garçom robô entregasse seus pedidos. Mal começaram a beber e Vitor já disparou sua novidade. Uma novidade que pegou seu colega de surpresa.

- Vou deixar a força policial.

- Como assim? Você nasceu para trabalhar com segurança. Em que outro lugar arranjaria emprego?

- Aceitei uma vaga de segurança na Genext. Eles pagam bem mais.

- Tem certeza? Você vai de policial à guarda.

- Já esta decidido. Até porque quero conhecer melhor o lugar que praticamente me fez.

Túlio ergueu seu copo e o bateu no copo que Vitor segurava, na tentativa de fazer um brinde. - Boa sorte então nessa nova empreitada.

- Hoje é meu último dia.

- Vou sentir saudades. - Disse Túlio não sendo sincero. - Só pergunto quem ficará no seu lugar como meu parceiro. - Túlio não iria confessar isso a Vitor até para não ser indelicado, mas ele torcia para dividir a viatura com alguém que fosse humano. Estava cansado de se envolver em problema de mutantes. Já bastava o que tinha em casa.

Vitor estava bebendo quando sentiu um cheiro familiar, ele olha para a entrada do bar e acaba encontrando quem não imaginava encontrar ali. Era muita coincidência. - Olha só que mundo pequeno! Seu parceiro acabou de entrar no bar.

Túlio olha para a porta e vê um sujeito com aparência humana, se fosse mutante não havia nada em seu visual que o denunciasse. Túlio se sentia esperançoso. - É o cara de camisa vermelha?

- Não é o sujeito que esta atrás dele.

O sorriso em seu rosto e sua esperança se desfizeram assim que Túlio entendeu quem era o substituto de Vitor. O sujeito tinha cabelo branco e pele cinza. Andava sem camisa e usava calça de couro. Como já se não bastasse sua fisionomia mutante, seu visual também era pouco ortodoxo. Para completar o figura tinha asas, que eram coladas aos seus braços. Só havia três dedos em suas mãos, dedos compridos e perigosos como o de aves de rapina.

- Worthington! Vem conhecer seu parceiro! - Gritou Vitor, sem se preocupar em ter se tornado o centro das atenções no bar. O mutante alado se aproximou e foi falar com a dupla. Cordialmente Túlio estendeu o braço para receber seu novo parceiro. Worthingtom rejeitou o gesto. - Cuidado, amigo. Minhas garras não são brincadeira.

- Ótimo! - Pensou Túlio de modo irônico. - O que mais pode piorar?

- O comandante nos colocou para ficar no posto da Baixada dos Morlocks! Isso não é demais?!

A Baixada dos Morlocks era o ponto mais temido da cidade, cheio de mutantes não sociáveis e perigosos. Túlio acenou positivamente com a cabeça enquanto exibia um sorriso amarelo. - Quando esse pesadelo vai acabar?


Dia de Folga

Era seu dia de folga e como tal Túlio Andrade planejava sair da cama mais tarde. Apesar de já ter acordado ele permanecia deitado, sentindo a macies do colchão. O policial curtia sua preguiça e pretendia continuar com isso por pelo menos mais alguns minutos quando seus planos são interrompidos pelo som da campainha. Aturdido, Túlio espia o relógio na cabeceira da cama, são oito horas da manhã. - Que filho da puta vai para a casa dos outros assim tão cedo? - Ainda vestindo sua roupa de dormir, e com o rosto ainda inchado de sono, Túlio vai atender a bendita porta. Quando a abre vê uma garota desconhecida. Uma moça jovem, bonita, com o cabelo comprido e verde, Túlio pensou que era pintura, mas na verdade aquela cor era natural.

- Júnior esta? - Perguntou a adolescente.

- Ele ainda esta dormindo. Menina, você sabe que horas são?

A jovem já estava quase dando meia volta, quando Milena aparece de trás de Túlio com uma outra resposta. - Júnior esta no quarto dele. Pode entrar. - A adolescente abriu um largo sorriso no rosto. Ela entrou na casa toda serelepe e foi direto ao quarto do Júnior. Túlio ficou sem entender nada.

- Não sabia que Júnior estava namorando. - Ele falou para sua esposa.

- A verdade é um pouco mais complicada que isso.

O dia foi passando, Túlio o gastou com coisas triviais. Assistia um pouco de televisão, ia para o mercado comprar alguns produtos que seriam necessários ao almoço, conversava um pouco com os vizinhos... Ele não fez nada de importante e por isso aquele dia era tão bom. Adorava ficar de bobeira. O policial tentou conversar com o filho, mas só conseguiu fazer isso por poucos minutos, no momento em que o menino saia do quarto para comer ou para usar o banheiro.

- Filho, você esta namorando? - Perguntou o pai. Ficou sem resposta.

Mais ou menos duas horas da tarde Túlio ouve a campainha tocar novamente. - Quem será agora? - Esperando do lado de fora da casa estava outra menina, uma garota negra e baixinha, com o quadril bem largo. - Júnior esta? -Túlio ficou tão atônito que ficou sem saber o que responder, apenas olhava para a menina com cara de bobo. Milena, que estava na sala, tratou de falar no lugar dele. - Júnior esta no quarto. - Ela disse apontando para a direção que a menina devia seguir. A garota entrou na casa toda serelepe e seguiu seu rumo.

Túlio sentou no sofá ao lado de sua esposa e tentou fazer uma pergunta. Desistiu dela no meio do caminho. Quando o relógio marcava quatro da tarde a campainha tocou novamente. Túlio dessa vez já estava preparado e não se espantou quando ao abrir a porta viu uma outra jovem. Dessa vez uma mutante de pele azul e orelhas pontudas. - Ele esta no quarto, pode entrar. - A menina entrou toda serelepe também sem dar importância para os adultos da casa.

- Minha casa virou um bordel? - Finalmente conseguiu perguntar Túlio ao sentar ao lado de sua esposa no sofá.

- Você devia estar feliz. Não é o sonho de todo pai coruja ter um filho garanhão? - Disse Milena.

- Não mesmo. Não desse jeito.

- O baccanalian se alimenta de energia sexual, então não tem jeito. Tem que dá vazão a sua luxúria de vez em quando. Foi o que o médico de Júnior disse. Eu sei que ter um mutante líbido na família não é fácil. Mas não é o fim do mundo. - Túlio torceu a boca ao ouvir aquilo, não estava muito certo disso.

A campainha toca uma outra vez. Irritado Túlio dá um tapa no sofá. - Que porra! Quantas mulheres esse moleque precisa para o seu harém?! - O policial se levanta e vai atender a porta. Dessa vez, porém, ele recebe uma surpresa. Não uma garota, mas sim um rapaz esperava do lado de fora. - Júnior esta? - Túlio olha para o garoto como se estivesse vendo o diabo em pessoa. Irritado, o policial dá um empurrão no garoto e o enxota aos berros. - Não, ele não esta! Dá o fora daqui! - De forma ruidosa o policial fecha a porta da casa com um safanão.

- Que maluquice foi essa sua, meu marido?

- Já aceitei muita coisa, mas isso não!

- Isso o quê?! O menino é colega de escola de Júnior, ficou de trazer umas provas para ele. Você estava pensando em quê?!

- Sei não, é melhor não arriscar.

A campainha toca uma quinta vez. Túlio já se aproxima da porta com o corpo tremendo. - O que pode ser agora? - Quando ele atende encontra uma outra jovem segurando um bebê no colo. Um bebê que era parecido demais com ele. Mais do que isso, parecido demais com seu filho. A mãe do recém nascido só tinha uma pergunta:

- Júnior esta?


Imortal

- Ouvi dizer que ele tem séculos de idade. - Vitor ouviu aquilo da boca do porteiro da Genext. Ele imediatamente descartou aquilo como sendo apenas uma lenda urbana boba. Ninguém conseguia viver tanto, achava. Vitor estava vestido com seu uniforme de trabalho, uma roupa azul colante que achava muito espalhafatosa. O tecido foi feito para proteger de grandes ameaças, mas era inferior ao colete que usava na polícia. Não importa, Vitor acreditava que seu fator de cura dava conta de qualquer problema que poderia vir a enfrentar. O mutante esperava na portaria pela presença do homem que o havia contratado. Estava no horário marcado, mas o anfitrião estava atrasado. Ele era o chefe, então podia se dar ao luxo de deixar os outros esperando.

O sujeito finalmente deu as caras, parecia um fugitivo do século XIX com suas roupas bufantes. Sua pele era cinza, seu cabelo bem preto. Na testa ele exibia um losango vermelho, que combinava com seus olhos sinistros. Ele se pôs na frente de Vitor e apertou sua mão. Depois se apresentou.

- Sou Nathaniel Essex, diretor da Genext. É um prazer ter alguém capacitado como você no nosso quadro de funcionários.

Como todo primeiro dia de trabalho Vitor não precisou nem se coçar. Todas as horas foram gastas apenas mostrando a empresa. Como segurança ele tinha que saber o máximo possível do lugar que iria defender. Dentre as instalações mostradas a que mais chamou sua atenção foi o galpão com os códigos genéticos de centenas de tipos de mutantes. Ele discretamente passou os olhos pelas prateleiras tentando encontrar a da sua raça. Não conseguiu. Eram tantas.

- Grande parte dos humanos parcamente sonham com a vida eterna. Isso é uma ilusão. A única chance que temos de atingir a eternidade é através de nossos genes, de nossos descendentes. A Genext tem como missão garantir que o genoma humano consiga atingir todos os cantos do universo, inclusive os mais remotos. Algo que só é possível com a evolução assistida. Não podemos mais deixar que nossa evolução corra de acordo com os caprichos da natureza. Temos que tomar as rédeas de nosso destino.

Vitor gostou do discurso, não que ele tenha prestado atenção no que ele significava. Só achava que soava pomposo o suficiente. No final daquele dia Nathaniel pediu para que seu novo funcionário passasse no laboratório da empresa. Foi coletada uma amostra de sangue, além de outras coisinhas. Colocaram um capacete na cabeça de Vitor e fizeram uma analise que durou apenas poucos minutos. - O que é isso? - Perguntou o ex-policial curioso.

- Estamos gravando a informações de seus neurônios. Em termos leigos, fazendo uma cópia de sua consciência. - Respondeu o médico responsável pelos exames.

- Para que serve isso?

- Mais ou menos como uma apólice de seguros.

A primeira semana no emprego foi bem tranquila. Vitor ficou com a impressão que seu novo trabalho era monótono e fácil. Algo que poderia ser visto como positivo nos primeiros dias, mas que enjoaria logo. Na segunda semana surgiu o primeiro problema. Um grupo de humanos revoltosos começaram a fazer baderna. Com cartazes em mãos eles reclamavam sobre o quão era nefasto "brincar de Deus". Vitor até gostou daquele protesto, serviu como uma boa distração. Botar aqueles homo sapiens para correr foi quase uma brincadeira. A maioria já se mijava todo só de ouvir seus rosnados.

No dia seguinte ao protesto é que Vitor percebeu que seu emprego não era assim tão moleza. Era uma criança, por isso poucos se importaram com ela. Os instintos de Vitor, porém, denunciavam que ela era problema. Por baixo das roupas pesadas do garotinho o mutante sentia um cheiro conhecido. Um cheiro de arma. Vitor se aproxima da criança preparado para atacar no menor sinal de perigo. O lupercus era rápido, mas estava longe demais para se aproximar furtivamente a tempo do menino pressionar o botão do mecanismo que segurava. BOOM! A explosão foi tão intensa que Vitor não sentiu dor. Sua carne foi cauterizada e se desprendeu de seu corpo. Só sobrou ossos. O mutante estava morto. Vitor nunca acreditou em vida após a morte. Mesmo assim o mutante conseguia ver uma luz após aquele evento.

Os seus olhos doíam, se acostumando a nova iluminação do ambiente. Após a dor ceder Vitor olha para os lados. Ele estava em um leito hospitalar. Um bem moderno. Não estava em uma cama, mas sim dentro de um cilindro transparente. Uma espécie de câmara de cura. Era a primeira vez que ele usava uma dessas. A sensação era claustrofóbica e ele a achou horrível. Vitor começa a agredir o vidro até ele rachar e logo em seguida se espatifar. Vitor estava livre.

Do lado de fora da câmara Vitor conseguia ver que haviam várias outras ao seu lado. Todos eles eram funcionários da Genext, todos eles haviam supostamente morrido na explosão. - Que diabos! - Espantado demais com a situação para se importar com sua nudez Vitor saiu correndo sem saber direito para onde. Queria achar algum sentido naquela maluquice toda. Ao abrir uma das portas o mutante se depara com seu empregador. Nathaniel Essex o esperava em seu escritório, sentado calmamente atrás de sua mesa.

- Aquelas câmaras de clonagem são caras. Da próxima vez que despertar da morte vê se tenta não destruir uma delas.

- "Clonagem"?!

- Por favor, Vitor! Como você acha que eu consegui viver tanto?!

- Então quer dizer que eu estou morto?!

- Não seja estupido! Quem morreu foi o Vitor original, você é um clone. Seu corpo é uma cópia, mas como foi implantado nela todo o padrão cerebral do Vitor original você mantém todas as lembranças e experiências dele. Na prática não faz nenhuma diferença. É como atingir a imortalidade.

- Isso é mentira! Não! - Vitor sai do escritório porta afora e começa a correr por uma leva de corredores. Após tanto procurar ele finalmente encontra a saída do complexo. Ao olhar para cima, porém, o mutante se depara com uma surpresa desagradável. No céu dois sóis brilhavam. A mata era diferente de qualquer coisa que ele já tenha visto na vida. Ele poderia estar em qualquer lugar menos na Terra. Vitor respira fundo e se acalma. Demora quase uma hora para que ele se conformasse com sua situação. Derrotado ele volta até o escritório do seu empregador. Apesar disso ele não conseguia esconder a raiva. Sentia-se enganado.

- Para mim já chega! Peço demissão!

- Do que esta falando?! - Perguntou Nathaniel de modo sínico. - O Vitor Cerqueira verdadeiro era funcionário da Genext. Você é nossa propriedade.

O Vitor clone rosna de fúria e se joga na direção daquele homem sinistro. O lupercus consegue feri-lo com um golpe potente na garganta, mas o estrago não durou muito. A ferida se fechou mais rápido do que o tempo gasto em ser feita. Nathaniel era poderoso. Ele ergue o braço esquerdo e emite uma rajada de energia. Vitor é arremessado contra a parede oposta e cai duro no chão em seguida. Desacordado.

Vitor teve um sonho esquisito naquela noite. Sonhou que havia lutado contra o seu novo chefe. Após pensar um pouco no assunto Vitor achou até graça daquilo. Era o primeiro mês de trabalho do mutante na empresa, ou assim ele acreditava. Vitor leu nos jornais sobre o atentado terrorista contra a Genext. - Ainda bem que eu não estava trabalhando no dia. - Pensou assim que leu a matéria. O trabalho permanecia sossegado. Ele só via Nathaniel muito de vez em quando. O lupercus era muito abaixo na hierarquia da empresa para participar de qualquer evento ou reunião. As poucas vezes que via seu chefe Vitor sentia uma raiva enorme no peito que não entendia da onde vinha. Por causa disso ele passou a evitar contato. Fora esse problema Vitor não tinha o que reclamar. Achava seu novo emprego ótimo e estava muito feliz por tê-lo aceitado. - É, a vida na polícia não ia dar em nada mesmo.