Hallo. Então, se eu sumi? Sumi sim. Se eu voltei? Estou tentando. Primeiro de tudo, mil desculpas por ter parado de postar. Não sei se ainda tem gente para ler e tal, mas vou seguir postando quando der porque acho injusto largar a fic incompleta. E pq ela é o meu baby. Enfim, se alguém for ler, espero que goste.


.Capítulo 11 – Qual o limite entre amar e temer?

Sweeney Todd continuava inclinado a se dizer não humano, negando diariamente conceber qualquer ideia além de vingança e ódio. Para ele, junto com Benjamin, seus sentimentos morreram. Seu coração só era acalentado por saudade, saudade de sua esposa e filha. Saudade daquilo que um dia fora seu. Nada mais deveria lhe importar.

Então por que tanto o incomodava o recorrente relacionamento da padeira?

Bufou irritado por mais uma vez. Havia passado a noite em claro, andando de um lado para o outro freneticamente. Em seus ouvidos ainda ecoando as vozes sussurradas de Mrs. Lovett e seu amante.

Ele não se sentia mal por ter retornado para a casa da mulher, de forma a bisbilhotar sua vida. Dizia a si mesmo que precisava ter certeza de que aquele homem desconhecido não iria ferir a sua... – droga, qual é a merda do seu problema, Sweeney Todd? – não, ele somente queria se certificar da integridade da padeira. Afinal ela era sua cúmplice na vingança e, por mais que jamais fosse admitir em voz alta, precisava da mulher pelo menos até matar o juiz e depois iria esquecê-la. Precisava esquecer, pelo bem dos dois.

Ele era um barbeiro assassino e sabia muito bem que não podia, em hipótese alguma, se deixar levar por algum tipo de sentimentalismo. Já havia experimentado, quando Benjamin Barker, o terrível fardo que era sentir. Todd, por outro lado, era frio. O coração torturado de um homem gentil que nunca mais poderia voltar a existir, não depois de todos os traumas sofridos.

Entretanto, Sweeney se pegava cada vez mais pensando na padeira. Não conseguindo entender o rebuliço ligeiro que lhe acometia a boca do estômago toda vez que ela vinha à sua mente.

Não seria isso preocupação, certo?

E quem era ele para se importar? O juiz ainda não havia morrido e esse era o seu objetivo principal a alcançar. Nada mais importava além de tal necessidade.

A sua vingança, o assassinato do juiz Turpin e o resgate da filha do homem que um dia fora, era tudo o que desejava e mais nada. Se vinha pensando na padeira de forma diferenciada, não passava de instintos inconscientes de seu lado mais animalesco. Sentir algo por Mrs. Lovett nada mais passava da expressão do desejo carnal há tanto tempo sendo oprimido em seu corpo, ainda mais tendo passado quinze anos encarcerado com homens.

Sweeney balançou a cabeça, satisfeito com sua linha de pensamento e não mais desejando dar chance para o assunto lhe anuviar a consciência, principalmente com as lembranças da prisão tentando ultrapassar suas barreiras protetoras. Ele tinha razão, era apenas luxúria em sua forma mais nua confundindo sua mente. Nada mais que isso.

...ºª°...ºª°...ºª°...

Eleanor Lovett despertou com a mesma sensação de sempre.

Depois de tantos anos vivendo na mesma casa decrépita, diariamente seguindo a mesma rotina e sob o céu nublado típico de Londres, já era mais que habitual o sentimento de solidão que se apoderava da padeira todos os dias. Sempre se questionando o porque de ainda manter-se sã.

Mas será que ainda mantinha a dita sanidade?

- Mãe? – Uma voz vagamente conhecida a chamava, enquanto batidas rítmicas e um pouco urgentes podiam ser ouvidas sendo desferidas contra sua porta. Ela queria responder, avisar a quem quer que fosse que ela certamente não era sua mãe. Nellie tinha plena certeza de que não tinha filho algum. Entretanto, nada conseguiu falar. A névoa restante do sono lhe retirando qualquer força que deveria ter para sequer abrir a boca.

A voz soava cada vez mais distante e a melodia de suas palavras ia deixando de ter sentindo.

- Madame, a senhora está aí? Temos de abrir a loja.

Por que a voz persistia? Não havia necessidade da loja ser aberta se ninguém iria consumir nada no fim das contas. As tortas de gato de Mrs. Mooney eram mais saborosas e ponto.

Ela só queria voltar a dormir e encontrar com ele no mundo dos sonhos, aquele que nunca deixava sua mente em paz. Eleanor sentia tanta falta de seu antigo inquilino, preferindo passar dias e dias sonhando a ter de enfrentar a realidade.

Afinal, de que servia a vida se não tinha mais porque viver?

Restava a ela somente esperar. Esperar pelo retorno dele, pois, sim, ela tinha certeza de que um dia ele voltaria e ela estaria ali o esperando.

Benjamin Barker iria voltar. O seu Benjamin iria voltar logo sem sombra de dúvidas.

E ela estaria ali, pronta para ficar ao seu lado como deveria ser, não aquele projeto de mulher que um dia fora a tão perfeita esposa do homem que a padeira tanto amava. Lucy Barker já não existia mais e dessa vez Eleanor teria sua chance de ficar no conforto dos braços de Benjamin. Um futuro brilhante e agradável a aguardava. Era apenas uma questão de tempo e paciência. A paciência que a doce Lucy não tivera, mas que Nellie – a pequena e desajeitada Nellie – tinha de sobra.

- Mãe, por favor, acorda! – A voz, que ela agora notara ser infantil, pedia desesperada. – O Mr. Todd está vindo mais irritado do que de costume hoje, reclamando sobre algo estúpido como o estúpido café da manhã que ele sempre recebe da senhora. – Ela pode ouvir o menino bufar ao longe. Definitivamente era um menino. – Não consigo entender o porque de tanta reclamações se ele nem mesmo pretende comer... – Continuou a divagar a distante voz, tendo desistido de bater na porta há muito tempo, limitando-se somente a falar de forma incansável.

Todd... Mr. Todd... T-O-D-D...

Sweeney Todd!

Ah, merda! Merda, merda, merda, Nellie!

Toby, Todd, tortas, o juiz Turpin, Johanna, assassinatos, Lucy, vingança, Miranda, Robert...

Droga, ela estava mais que atrasada e precisava levantar com urgência.

Sem mais delongas, Eleanor pulou das cobertas e pôs-se a se arrumar o mais rápido que podia.

Você nunca vai aprender a se desapegar do passado, Nellie?

Não, é óbvio que não...

...ºª°...ºª°...ºª°...

- Mrs. Lovett, eu preciso do meu café da manhã agora! – Sweeney bradou irritado ao entrar na loja de tortas com seguidas passadas pesadas. Havia passado a noite toda praticamente em claro, salvo o breve momento em que fechara os olhos a fim de adormecer e que se arrependia profundamente de tê-lo feito.

Não se lembrava da última vez que tinha sonhado algo tão vívido quanto aquele rápido vislumbre durante a noite passada. Havia visto sua Lucy com os cabelos dourados e os belos olhos azuis que tanto admirava, mas a expressão aterrorizada com que ela o encarou o feriu tanto, como algo que já não julgava mais ser capaz de penetrar a carne com tanta força. Podia lembrar claramente do horror em seus olhos e das palavras ferinas que a mulher gritara para ele, segurando contra seu corpo o bebê que tinha nos braços, como se Sweeney fosse capaz de ferir a pobre Johanna. "Monstro" ela o chamara. Sua Lucy, amedrontada.

Fazia muito tempo desde a última vez em que o barbeiro acordara com o rosto úmido da terra dos sonhos. As mãos tremendo e indo em direção às maçãs molhadas pelo líquido salgado que entregava ao mundo o lado humano que ainda existia no auto intitulado assassino da rua Fleet. A última vez em que chorara ele ainda era Benjamin Barker. Frágil, inocente, gentil, puro e tolo. O mais tolo de todos. Chorara durante as primeiras noites após ser levado para longe de sua família. Mas agora aquilo era passado. Estava morto e enterrado junto com o homem tolo que um dia Todd fora. Sem sentimentos e sem fraquezas, era assim que ele deveria permanecer.

Chacoalhando a mente para longe de tais pensamentos, deixando para os momentos solitários na barbearia em que mais se sentia atormentado, Sweeney passou os olhos pela loja de tortas em busca da padeira. Como de costume, não tinha fome, mas não iria deixar Mrs. Lovett ter o luxo de se esquecer dele nem que fosse por um momento sequer. Precisava mantê-la presa entre seus dedos, sem se distrair por seus assuntos pessoais do momento. Para Todd se Eleanor estava com Robert ou não era indiferente, contanto que ela continuasse com seus afazeres e se mantivesse como cúmplice. Ou pelo menos é o que você vem tentando se fazer acreditar...

- Toby! – Gritou ao avistar o projeto de gente entrando no seu campo de visão. O rosto do menino empalidecendo rapidamente enquanto o rapaz fazia uma expressão que deixava bem claro seu desgosto em ver o barbeiro. Sweeney abriu um sorriso ferino, o canto dos lábios subindo levemente ao formar uma pequena curvatura que dava um ar diabólico ao complexo de linhas sombrias do rosto do assassino. – Onde está a sua mãe com a minha maldita comida? Eu preciso me alimentar e espero que possa o fazer agora! – Exclamou exaltado, talvez até mesmo mais do que o usual, os punhos cerrados batendo em uma das mesas ao fim da fala como que para enfatizar o estado alterado do barbeiro. Tão concentrado estava em sua pequena cena que nem notou o garoto sair da loja correndo e ir atrás da mãe, ou qualquer outra bobagem que poderia pensar em fazer.

Rodou pelo local, os olhos atentos escaneando por algo que lhe fosse útil no momento. Não comida, é claro, pois não daria à Mrs. Lovett o prazer de livrar-se de uma tarefa, ou melhor, obrigação. Afinal, ele era seu tão estimado inquilino e ela deveria o tratar muito bem, já que a clientela dele que permitia que o negócio dela continuasse. E, não obstante, ainda tinham as segundas intenções da mulher. Era óbvio aos olhos do barbeiro a profundidade de sentimentos dela, ele podia ver claramente o quão entregue ela estava.

Mas será que tais sentimentos prevaleciam?

Perguntava, de forma incessante, uma voz incômoda no fundo de sua mente que ele não ousava chamar de consciência, pois não possuía tal. E não, ele não concordava com nada que ela falava. Era inconcebível sequer imaginar que a padeira não nutria mais nada por ele – não que o barbeiro sentisse algo em retorno além de desprezo, ou pelo menos ele dizia isso a si -, mas era fato que quanto mais disposta ela estivesse a ajudá-lo mais fácil seria conquistar seus planos de ter sua vingança.

Quase gargalhou sombriamente ao pensar que talvez tivesse que matar o tal do Robert se a presença dele o atrapalhasse de alguma forma. Afinal, ele não podia correr o risco de perdê-la para outro. Precisava do trabalho da mulher com suas vítimas. Recompôs-se antes que pudesse ter qualquer forma de reação, obviamente não vindo a gargalhar porque, bem, ele prezava a imagem que tinha construído até então e não pretendia mudá-la tão cedo. Era certo que muitas vezes na vida ser temido valia mais a pena do que ter o amor de outros. A chance de ser traído é sempre menor quando se teme pela própria vida.

Enquanto pensava, absorto em suas ideias e nas recentes dúvidas quanto os sentimentos que até pouco tempo tinha certeza não mais possuir, Sweeney encontrou algo que lhe interessou escondido em um dos cantos empoeirados do aposento: Gim!

Segurou-se para não sair correndo atrás da garrafa, ora, ele era um barbeiro demoníaco, afinal, e não podia sair por aí demonstrando qualquer tipo de desespero. Mesmo sendo por algo tão recompensador quanto álcool pela manhã. Mal chegou a tocá-la quando a mais recente causadora de seus pesadelos apareceu.

- Mr. Todd, o menino falou que o senhor queria comer, então por que essa pressa para alcançar a minha garrafa de gim? – Veio a voz de Mrs. Lovett de algum ponto atrás de Sweeney, o pegando de surpresa - não que ele fosse admitir! – o tom da padeira deixando claro que ela tentava esconder o quão divertida ela devia achar aquela cena, o que somente irritou Todd mais ainda do que ela já vinha o fazendo sem nem ao menos saber. Onde estava todo o temor que ela sentia? Aquele tipo de sarcasmo não era bem vindo se ela pretendia manter a garganta intacta.

Sweeney girou os pés, passando a encarar a padeira frente a frente, as mãos segurando possessivamente a garrafa de gim. Quem ela achava que era para tentar repreendê-lo? – Ora, minha cara Mrs. Lovett, será que preciso lhe lembrar que essa garrafa é tão minha quanto sua? Afinal, grande parte do dinheiro que sustenta essa casa e a ti mesma é somente angariado por meus esforços. Então não tem porque... – Ele parou de falar, interrompido por uma Eleanor furiosa, o que o surpreendeu já que ele não tinha reparado o estalo de mudança de humor na padeira. É óbvio que ele não tinha notado algo tão sutil. Quando que Sweeney Todd ia perder tempo pensando em como suas palavras afetavam a padeira?

- Seus esforços e somente isso? – Eleanor quase gritou, segurando-se no último segundo e apenas o cortando em meio a uma frase, os olhos esbugalhados em descrença e as mãos tremendo pelo esforço de conter a vontade de estapeá-lo até a próxima vida. – E eu não faço nada? Sério mesmo que você acredita que tudo o que temos conseguido é por crédito seu e de mais ninguém? Pare de se enganar, Todd, esse esquema é tanto meu quanto seu, quiçá, mais meu e você sabe muito bem disso! – Conforme falava, ela foi andando a passos certeiros em direção ao barbeiro, o encarando com o melhor olhar mortal que conseguiu produzir e descontando nele todas as emoções reprimidas que vinha guardando. Toda a angústia, dúvida e confusão. Tudo concentrado em pura ira. Quem ele pensava que era para falar assim com ela? Depois de tudo o que ela vinha fazendo, todo o esforço para agradá-lo e o fazer se sentir bem vindo em algum lugar ou ao menos por alguém. E ele ali sendo um babaca ignorante e completamente preso ao passado. Não que ela estivesse livre de tal sina. Estava tão presa quanto ele, mesmo que tentasse enxergar o futuro a sua frente, certas lembranças eram doces demais para serem esquecidas. E certos sonhos vinham sendo sua sanidade por tanto tempo que era difícil para ela deixá-los para trás.

Estalou a língua para retirar a mente do fluxo de pensamentos que preferia ignorar por hora, ou para sempre. A irritação se fazendo transparecer até mesmo através do simples gesto. Toda a sua postura corporal, na verdade, era um grito de ódio e fúria contra o tormento que acumulara desde sempre. Aquele estalo de irritação sendo somente uma pequena fração de toda a carga negativa atrelada à sua história de vida. Se Sweeney acreditava carregar uma sede demoníaca de vingança, Eleanor certamente não ficava para trás em sua raiva acumulada.

Realmente, quem era ela para reclamar de alguém preso ao passado? Não era aquela a sina de todos daquela casa? O menino que não conhecia o amor; o homem que fora rejeitado pela família da mulher que amava; a mulher que se envolveu com um homem cuja opção não era pertinente com a aceitável para a época e que, por fim, teve de se rebaixar em tempos de necessidade para sobreviver; o barbeiro ingênuo que perdeu aqueles que amava em função da luxúria de outro homem; e a própria padeira com uma vida tortuosa e cheia de mentiras.

Sweeney manteve-se em um esforço hercúleo para esconder o que ele somente pode classificar como espanto diante das palavras ríspidas da padeira. Não esperava aquele tipo de reação vindo dela depois de acostumar-se com a sua submissão e ficara assustado com tal, a mente se perdendo na fúria da mulher e deixando-o desnorteado no momento - o que ele jamais iria admitir porque ninguém o pegava de surpresa -.

Estava tão distraído com toda a comoção que não notou as mãos apertando a garrafa que havia encontrado, os nós dos dedos brancos com a força empregada. Largou o objeto em um torpor raivoso, o vidro espatifando-se com um estrondo e tirando os dois do transe da discussão.

Em resposta automática, Ms. Lovett logo se agachou para limpar os cacos da garrafa. A velocidade elétrica da mulher fazendo com que ela se cortasse sem nem reparar, a mente perdida em pensamentos profundos e sombrios.

Inebriado com o familiar odor ferruginoso, o barbeiro despertou do transe em que se encontrava e percebeu que sua Nellie - argh, aquilo tinha que parar de acontecer! - não estava mais em sua linha de visão. Perguntou-se onde ela havia ido parar, enquanto, instintivamente, seguia o cheiro dos belos rubis que admirava tanto. Foi quando, ao descer os olhos, a encontrou. O sangue que vertia de um corte na mão manchando o braço ao escorrer sem ser notado pela padeira.

Sweeney quase se perdeu com aquela visão, a mente entrando em um breve choque ao ter contato com dois fatores que detinham um efeito enigmático sobre ele. Sangue e Eleanor Lovett. Não que ele fosse admitir isso, ah não, jamais, para ninguém e muito menos para si. As pessoas não o afetavam, pois ele havia, há muito tempo, deixado sua humanidade para trás. Com exceção, talvez, do juiz, por ser o foco de sua vingança, e da filha que ele sabia estar viva sob as garras daquele monstro.

Enfim, ignorou tudo o que seu corpo tentava sentir e, engolindo um pouco de seu orgulho habitual, resolveu ajudar a padeira. Afinal, precisava dela com as mãos aptas para poderem dar continuidade ao plano. Respirou fundo e se agachou, tomando o devido cuidado para não se machucar, diferente de uma certa pessoa.

Perguntou-se onde estavam os demais ocupantes da casa que não apareceram com o barulho do vidro entrando em contato com o chão. Aquele povo parecia só ser capaz de aparecer em momentos indevidos.

Foi começar a catar os cacos quando a padeira levantou o rosto chocada e o encarou. Era tão impossível assim imaginá-lo tentando ser útil?

- Não preciso da sua ajuda por pena, Mr. T, pode ir buscar sua comida enquanto eu limpo a sua bagunça. Não é isso que sempre fazemos? - Ela perguntou em sombrio, a atitude fria produzindo algo no âmago do barbeiro que ele teve dificuldade de identificar. Parecia ser incômodo, mas não podia ser, podia? Será que ele havia se deixado ser atingido pela indiferença da mulher?

- Não posso preocupar-me o suficiente com a minha senhoria para querer ajudá-la, love? - Retrucou suavemente, a voz baixa saindo quase como um sussurro íntimo aos ouvidos de Eleanor - que, certamente, não reprimiu um pequeno grunhido que era um misto de frustração e contentamento. Por que esse homem tinha que ser tão confuso? - e tornou a falar, pegando a mão ensanguentada dela para examinar o corte. - Ainda mais com um machucado desses que você nem notou ainda, pet. - Concluiu, escrutinado a mão que segurava, os dedos inconscientemente acariciando a pele surpreendentemente macia, apesar de calejada, enquanto observava se tinha algum caco alojado ali.

Achou o dito cujo e buscou o rosto da mulher para averiguar se tinha permissão para retirá-lo (o que geralmente não fazia, obviamente, mas percebia que estava perdendo a admiração incondicional da Mrs. Lovett e, como ela ainda era uma peça essencial para sua vingança, resolveu que talvez fosse melhor não arriscar; pelo menos não enquanto tentava seduzi-la). Uma expressão convencida quase surgindo em seu rosto ao notar o rubor que a padeira tentou esconder ao encontrar seus olhos.

Aha, sabia que não tinha perdido sua Nellie para um qualquer!

Argh, droga! Lá vinha a mente se enganando mais uma vez, Eleanor não era sua e nem era Nellie, ele não estava apegado a ela para chamá-la por um apelido carinhoso há tanto tempo usado por um homem morto.

Piscou os olhos algumas vezes, o rosto ainda voltado para a padeira enquanto tentava concentrar-se em seus pensamentos mais característicos.

Vingança.

Assassinatos.

Sangue!

Voltou a si a tempo de ver o simples menear afirmativo que a mulher lhe dava. Certo, tinha permissão para retirar o caco e, com isso, podia ter alguns momentos a mais segurando sua mão. Não que estivesse contando com aquilo. Ah, não. Não mesmo!

Droga! Por que diabos sua mente não se comportava mais?

Levantou subitamente, então, um dos braços envolvendo a cintura da padeira de forma a puxá-la consigo em conjunto com o movimento.

- Preciso jogar um pouco de álcool para limpar a ferida. - Disse ao notar o olhar inquisidor vindo em sua direção. - Onde você guarda? Banheiro, talvez? - Perguntou enquanto a puxava para a sala da casa com um cuidado que não deixaria transparecer em nenhum outro momento, mas naquela hora estava tão transtornado que mal notara o deslize de sentimento.

Distraiu-se tanto tentando se distanciar da voz que insistia em tentar tirá-lo de lá, lembrando-o constantemente de sua sede de vingança, que não percebeu a expressão surpresa da mulher.

Eleanor ficou genuinamente chocada com toda a situação. Parecia que todo homem caia pelo mesmo cenário, então, uma mulher ferida e pronto algo amolecia. Ela sabia que não durava para sempre, já ouvira muitas histórias de mulheres que haviam acreditado receber algum tipo de misericórdia, porém não foi assim que se desenrolaram os fatos. Era melhor não confiar em homem algum até que o contrário fosse provado, ou que você tivesse perto de si um meio de defesa. Obviamente ela não seguia isso e seu coração despedaçado era prova daquilo.

Não sabia o que tinha amolecido Sweeney, mas não ficaria tentando descobrir. Tinha conhecimento o suficiente sobre ele para saber como seu temperamento funcionava. Logo, se pretendia manter aquela trégua entre os dois (e pretendia mais em função de seus próprios hóspedes do que por si mesma, se fosse ser totalmente honesta), era melhor deixá-lo quieto enquanto não atrapalhasse seus planos.

- Mrs. Lovett, a droga do álcool, onde fica? - Ouviu Sweeney perguntar, a voz começando a retomar seu tom impaciente usual. Era melhor responder logo se pretendia sair dali sem ter sua vida ameaçada.

- Não está no banheiro, love, acho que deixei no meu quarto mais cedo. - Eleanor respondeu pensativa, tentando ter certeza de onde estava a garrafa, para não testar ainda mais a paciência do barbeiro. - É definitivamente foi no quarto. Deixa que eu vou lá e pego.

- Já estamos a caminho. - Foi o comentário que recebeu em retorno, enquanto ainda era guiada pelo braço de Todd. Ele avistou a garrafa assim que entraram no cômodo mal iluminado, os olhos já acostumados a ambiente escuros. Foi estranho o alívio que sentiu ao notar que o quarto parecia o mesmo de sempre, sem ter nada indicando a presença de outro ocupante que não fosse a padeira e o menino. Arquivou a sensação no fundo de sua mente. Talvez mais tarde voltasse para revisitar isso, ou não. Podia ignorar como vinha fazendo com qualquer pontada de sentimento inoportuno que tivesse. Assim era mais saudável, ou pelo menos ele se dizia isso.

Mrs. Lovett pensou em dizer algo enquanto andavam, porém percebeu que estava sem palavras naquele momento, o que era quase impossível vindo de alguém que nunca parava quieta, mas lá estava ela assustada o suficiente para não falar nada. Não por medo, diga-se de passagem, mas espanto genuíno por ver um lado de Sweeney que ela julgava estar reservado somente para os momentos de devaneios sobre a família perdida. Quase se convenceu de que estava sonhando, mas notou que aquilo não poderia ser verdade já que sentia a dor do corte na mão.

Abriu a boca para contestar a bondade suspeita do homem quando ele a guiou até a cama, fazendo com que ela se sentasse apenas ao dar um leve toque em seus ombros para indicar sua intenção. Sem ter muito mais o que fazer, Eleanor sentou então. Era melhor acatar o que ele queria enquanto ainda tinha algum bom humor ali.

- Tem algum pano que eu possa usar, El… uhn, Mrs Lovett? - Mordendo a língua, Sweeney corrigiu-se rapidamente e fechou a expressão na esperança da mulher ignorar a quase escapulida do nome dela. Droga! Não podia se deixar levar pela mente bagunçada no momento. Algum deslize desse tipo dava uma abertura à intimidade que ele preferia não explorar entre os dois. Não queria que a mulher tivesse a impressão errada quanto ao que ele buscava ali.

O que complicava toda a situação era ele mesmo não saber mais o que queria.

- Mr. T., não teria problema se você me tratasse pelo meu primeiro nome, sabe? - Eleanor acabou por comentar, após um instante de silêncio que se passou entre os dois. A voz saindo em um sussurro suave e encoberto de emoções que insistiam em borbulhar dentro da mulher.

A atitude da mulher quase trouxe um sorriso ao rosto do barbeiro. Talvez tratá-la com mais proximidade fosse manter sua lealdade. Apesar de algo no fundo de sua mente persistir em tentar avisá-lo que usar dos sentimentos de alguém assim não era muito saudável, Sweeney precisava ter como objetivo principal sua vingança. Nada além dela importava. Afinal, se matava homens todos os dias para tentar alcançá-la, então qual era o problema em usar sua Nellie daquele jeito?

Lá vinha o sua de novo. Argh! Aquilo estava se tornando extremamente incômodo. Ele podia ser possessivo em muitos aspectos, e até mesmo definido como maníaco, no entanto quando se tratava de Eleanor Lovett suas definições vinham ficando cada vez mais nebulosas.

Sweeney Todd não podia ter sentimentos. Não podia ter nada que atrapalhasse em sua vingança. Dito isso, manipular alguém não contava como uma conexão com essa pessoa. Ou pelo menos era isso que ele tentava se convencer de que estava fazendo, mesmo tendo noção que estava realmente sentindo algo pela padeira. Uma espécie de afeição crescente que ele não tinha a mínima ideia de até onde iria, mas que ele não tinha intenção de deixar seguir em frente.

- Não sei se trabalhar na base de primeiros nomes faz parte de nossa interação, Mrs. Lovett. O que temos aqui é puramente profissional, não se engane. Nossa ajuda é mútua e a preocupação que tenho por ti é em função disso. - Todd acabou falando, por fim. Preferindo fugir da padeira antes que a proximidade com ela o fizesse nutrir mais do que ele já estava tentando evitar. Podia usá-la a vontade, sabia disso, mas não sabia até que ponto aquela atitude iria mexer com a própria mente frágil. - Agora, por favor, pare de me encarar com essa sua expressão de quem acabou de perder as esperanças, porque nem era pra você as ter para início de conversa, e fique quieta para eu poder tirar esse maldito caco de vidro da sua mão. - Foi dizendo em seu costumeiro tom frio. Tendo de se segurar ao máximo para não quebrar a máscara de indiferença como havia feito mais cedo. Esse deslize que os tinha levado até ali no fim das contas. No entanto, a expressão ferida da mulher despertou em si uma vontade quase que agressiva de confortá-la.

Queria poder ter a iniciativa de a abraçar e dizer que tudo ficaria bem. Mas não era o homem para fazer aquilo, ele tinha um objetivo a seguir e não pretendia a arrastar mais do que já vinha fazendo. No fim, Sweeney tinha noção de que a padeira merecia uma felicidade e conforto que ele jamais poderia dar a ela. Não com sua falta de coração e sede de vingança. Não quando ele vinha se comparando com o senhor perfeito Robert Lennington.

Para Nellie aquela resposta era mais que esperada. No entanto, aquilo não diminuía a dor que sentira. Ela nunca iria entender como podia ser tão estúpida a ponto de ainda ter esperanças quanto a Sweeney. Mesmo que estivesse em dúvida sobre seus sentimentos, a padeira nutria um desejo bobo de se entender com o homem. O que a enfurecia porque ela não conseguia entender de onde tirava tanta paciência para correr atrás de uma pessoa que claramente não estava interessada. Que claramente não se importava. Mas o que ela podia fazer se tinha uma tremenda incapacidade de gostar das pessoas certas? Não que ela acreditasse nisso de certo e errado, bom e mal. Ah não, Eleanor certamente estava além desse ponto de pensamento. Ela era uma cúmplice de assassinatos afinal e aquilo não fazia com que perdesse o sono a noite. Outros pesadelos a atormentavam muito mais.

- Mrs. Lovett, sente-se, por favor, que é melhor pra cuidar do seu ferimento. - Ela ouviu ao longe o barbeiro a chamando, a voz já voltando ao seu tom nervoso habitual, mesmo que ele ainda estivesse tentando controlar o temperamento explosivo ao usar "por favor". Eleanor quase bufou com toda a atitude confusa do homem. E depois ele não entendia porque ela tinha esperança.

- Quer saber, Mr. T. - Ela começou a dizer, sentindo uma força irritada subindo em sua garganta. - Acho melhor eu mesma me cuidar. Já estou acostumada a me virar sozinha, não preciso da sua pena. Pode ir matar alguém ou ficar encarando o nada com a sua melhor expressão atormentada. Não me importa.

- Eleanor, - Sweeney sibilou baixinho, um sopro de sua respiração atingindo os lábios da padeira de tão próximos que os rostos deles estavam. Um olhar irritado encarando a padeira, apesar de ter algo mais no fundo que ela não sabia identificar. Algo que nunca vira ali. Naquele momento, com ambos sentados na cama, a garrafa de álcool sendo a única barreira entre eles e os joelhos que se tocavam, um arrepio passar entre os dois foi algo inevitável para eles tamanha a tensão que ali se encontrava. - eu estou tentando fazer algo aqui e você está me atrapalhando. Tem certeza de que pretende seguir com esse tipo de atitude petulante? Ou acha melhor aproveitar que hoje estou me sentindo com bom coração?

Mrs. Lovett estava confusa.

Sweeney tinha acabado de vetar o uso do tratamento pelo primeiro nome e lá vinha ele a chamando de Eleanor. Ela não sabia o que ele pretendia ali, mas tinha certeza de que não era algo bom vindo de quem vinha. Ele podia manipulá-la o quanto fosse, mas tudo tinha limites e ela estava aprendendo a ser menos tola em assuntos em que um certo barbeiro encontrava-se envolvido. Ou não

O que ele dizia mesmo sobre tentar fazer algo?

Aquilo não cheirava bem. Se bem que nada que envolvesse eles dois cheirava bem no fim das contas.

- O que você está tentando fazer, Sweeney? Será que eu devo ficar preocupada? - Ora, se ele podia chamá-la pelo primeiro nome, então nada a impedia de fazer o mesmo. Ali estava a petulância da qual ele reclamara.

- Ah, mas é claro que não, pet. Hoje estou com a melhor das intenções contigo.

- Isso não pode significar algo bom vindo de ti. - Lovett comentou em retorno diante do expressão travessa que cruzou o rosto do barbeiro. Aproximou-se mais dele, a mão ainda ensanguentada, apesar de enrolada num pedaço de pano para contar o sangramento, indo parar numa das coxas do homem. Se ele estava disposto a jogar com flerte, nada a impedia de fazer o mesmo. Eleanor sabia o quanto sangue fascinava Todd, então não viu problema em sujá-lo um pouco com o seu.

Sweeney tinha uma vaga noção de para onde aquela provocação dos dois estava indo, no entanto, não sabia definir se aquilo era inteligente ou não. Se bem que, vindo deles, não sabia se era somente uma forma de lidar com a tensão que sempre houve ali ou se era um jogo como parecia ser. De uma forma ou de outra, aquela interação não era saudável. O que basicamente resumia bem o relacionamento dos dois. Afinal, poucas pessoas definiriam serem cúmplices em assassinatos como algo saudável de se manter.

O barbeiro abriu um sorriso por fim. Talvez um pouco de flerte fosse ajudar na sua missão de manter Eleanor leal a sua jornada em busca de vingança.

Em um movimento rápido e suave de quem já tem as mãos acostumadas a realizar sutis atos sem serem percebidas, Sweeney terminou com a distância existente entre os lábios dos dois, iniciando um beijo tanto antecipado quanto inesperado. Mais tarde, sozinho em seus aposentos, iria debater se aquela atitude teria sido a melhor estratégia ou se tinha feito isso por pura confusão mental. Só sabia que algo o havia dito que aquele era o momento certo, mesmo parecendo ser uma ordem vinda do coração ao invés da mente. E usar emoção no lugar de lógica não estava em seus planos. Ainda mais lidando com Lovett, por quem ele sabia nutrir uma espécie de desejo confuso ou talvez fosse algo além de luxúria, mas que ele nunca iria admitir em voz alta. Nem em sã consciência. E era por isso que a beijara naquele momento de vulnerabilidade dos dois, Sweeney Todd estava longe de ser um homem são. Eleanor também, e ele sabia bem disso. Ambos tinham fantasmas que os prendiam numa mistura delicada entre passado e presente. Tão delicada quanto perigosa. Beirando a insanidade até.

Tão perdidos estavam em meio ao momento, Sweeney sem entender porque fazia aquilo e Eleanor sem entender como aquilo estava acontecendo, que não reparam no barulho dos passos vindo. Nem a batida na porta do quarto. Ou quando ela foi aberta com cuidado.

Acima de tudo não notaram quando um Robert espantado parou na entrada do quarto, ficando sem reação diante da cena que via.


Nem acredito que terminei esse capítulo depois de alguns anos de bloqueio criativo e de umas paradas loucas na vida. Annnnnnnnnnd, sorry pelo final clichê, mas eu empaquei tanto e não queria enrolar mais, então foi o que teve para hoje.