Introdução

Lucinda com as duas mãos em formato de concha jogou um punhado de búzios por sobre a mesa, em seguida fingiu interpretar algum significado oculto enquanto ia contando para o seu cliente sua previsão. O futuro que ela previa era vago e podia se encaixar na vida de qualquer pessoa, mesmo assim o cliente ficou fascinado, dando atenção a cada palavra que ela proferia.

Lucinda casou cedo e nunca trabalhou na vida, algo que veio a cobrar seu preço quando seu marido a abandonou. Sem ter nenhuma formação além do ensino médio incompleto, ela precisava improvisar para garantir seu sustendo e a do seu filho. Com um parco conhecimento que tinha sobre algumas religiões alternativas ela abriu um negócio que misturava um pouquinho de tarô com astrologia e espiritualismo. Fazia de tudo um pouco, mas não sabia de quase nada.

Marcos, seu filho, ajudava a mãe assim que voltava da escola. Ele agia praticamente como uma secretária, anotando telefonemas e agendando consultas. Não era um trabalho que ele gostava muito já que não era remunerado. Para piorar não concordava com a ideia de passar a perna nos outros. Mas o que podia fazer? Era com o dinheiro do emprego de sua mãe que ele comia.

Marcos Mignola do pai estrangeiro herdou apenas o sobrenome e o tom de pele levemente mais claro. Era bem magro, ao ponto de ter os joelhos ossudos e o osso do rosto, próximo as bochechas, bem destacado. Não parecia muito saudável, mas ele não ligava para isso.

Quando o seu velho largou a família Marcos era muito novo, por isso não tinha muita recordação dele. As vezes acreditava que foi melhor desse jeito. Sem ser intimo do próprio pai ele não pôde se sentir decepcionado com o abandono.

Eles moravam de aluguel no terceiro andar de uma casa com as paredes pintadas de vermelho. Lucinda atendia na sala, não havia espaço reservado especificamente para o seu trabalho dando a ele um aspecto de amadorismo que impedia o negócio de crescer. Seu expediente era de terça a domingo, das oito as seis.


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Como a maioria dos garotos de dezesseis anos Marcos não tinha carro. Seu colégio ficava a alguns quarteirões de distância, isso o obrigava a pegar um ônibus ao menos na ida, para não chegar atrasado. Para a volta as vezes ele preferia ir andando, o que lhe custava uns quarenta minutos de caminhada.

- Deve ser bom ter um médium na família. Poder ver o futuro e falar com os mortos parece ser "trilegal".

Marcos teve vontade de contar ao seu amigo o maior segredo de sua mãe, que era tudo fingimento, teatrinho. Sua lealdade para com sua família falava alto por isso ele se conteve e não falou nada. Apenas deu um sorriso amarelo. Meio desconfortável com o rumo da conversa.

O ônibus estava lotado, como de costume, Marcos e seu amigo viajavam de pé, segurando os canos de metal para não serem jogados ao chão com o movimento do trajeto.

- Sempre quis aprender mais sobre o assunto, mas acho que minha família não me apoiaria muito. Sobretudo minha mãe, você já deve saber o porquê.

Ricardo por morar na mesma rua de Marcos acabava o acompanhando no caminho até a escola na maioria dos dias. Tal aproximação fez com que não demorassem a se tornar amigos. Ricardo era um menino gordo e alto demais para alguém de sua idade.

- Sei lá, não quero reclamar, mas acho que iria preferir se minha mãe tivesse um emprego normal.

- Do que esta reclamando? Sua mãe sozinha ganha mais no mês do que meus pais juntos.

Marcos não teve resposta para dar para aquela afirmação. As vezes achava que reclamava de barriga cheia. Se não fosse pelo emprego de vidente de sua mãe provavelmente ele estaria com um nível de vida bem inferior, não que o atual fosse lá grande coisa.

O trânsito parou de repente. Um engarrafamento inesperado. - O que esta acontecendo? - Perguntou Ricardo. O garoto estava praticamente pensando alto, mas o motorista do ônibus achou que aquela pergunta foi dirigida a ele.

- Acidente de trânsito. A carreta pegou um motoqueiro de jeito.

Marcos fez cara de dor quando ouviu aquilo, como se pudesse imaginar o sofrimento pelo qual o acidentado passou. Já Ricardo ficou excessivamente animado, se espichou todo onde estava na tentativa de saciar sua curiosidade mórbida e ver algo do acidente.

- Morreu? - Perguntou o adolescente redondo.

- Se ele não conseguir viver sem boa parte do cérebro, que esta no meio da pista, sim.

A rua era estreita, por isso o acidente obrigou uma parada que durou vários minutos. Impacientes, Marcos e Ricardo resolveram terminar o resto do trajeto a pé. Além de não faltar muito Ricardo queria aproveitar a oportunidade para dar uma espiadinha.

Os garotos andaram na calçada, tendo que disputar espaço com uma multidão de curiosos que rodeavam o morto. Ricardo enquanto passava tentava olhar para tudo. Já Marcos tentava desviar o olhar a qualquer custo.

Marcos não se incomodava tanto com o cadáver esparramado no asfalto. O que mais o deixava desconcertado era ver o motoqueiro em pé, perto do próprio corpo com cara de perdido. Gritando por ajuda para uma multidão de ouvidos surdos.

O motoqueiro, a essência dele, não podia ser visto nem ouvido por ninguém, a não ser por Marcos.

O que mais o incomodava presenciando o trabalho de sua mãe, Lucinda, nem era o fato dela enganar os outros, apesar disso também ser chato. O que mais incomodava Marcos era ele ter a certeza que podia fazer bem melhor. Já que seu dom, ao contrário do da mãe, era genuíno.