O Retorno do Pai

Ele usava uma blusa de manga curta vermelha que revelava seus braços cheios de tatuagens. Por cima da blusa usava uma gravata preta. A cabeça era protegida por um chapéu moderninho. Apesar de parecer mais com um vocalista de banda, aquele cara era um detetive. Muita gente não levaria a sério um detetive com aquele visual, porém, a maioria das pessoas não conseguiam vê-lo e as poucas que conseguiam geralmente eram evoluídas demais para se preocuparem com algo tão pequeno.

Dentro da casa da mulher que acabara de morrer o detetive fantasma vasculhava qualquer coisa que chamasse atenção, afim de fazer um perfil psicológico superficial dos moradores dali. Uma mãe que morava sozinha com seu filho único. Já tinha visto esse formato familiar umas centenas de vezes. Não havia nada de novo para ele ali.

O rabecão estava na porta da casa de três andares, uma multidão de curiosos rondava a cena não fazendo nada de útil, praticamente só atrapalhando o trabalho dos profissionais que se ocupavam recolhendo o corpo sem vida da mulher.

A pequena multidão de moradores empatava o caminho, mas isso não era problema. O detetive fantasma conseguia facilmente atravessar seus corpos com uma leveza maior do que uma lufada de ar. Dentre os que foram "atravessados" aqueles que eram mais sensíveis a influência sobrenatural sentiam um calafrio esquisito quando o morto passava através deles.

O cadáver foi colocado dentro do furgão em um tipo de caixão rústico usado apenas para transporte. O detetive se aproxima do caixão e mete seu rosto lá dentro, atravessando a matéria sólida para poder ver como ficou o estado da morta. Ela estava perfeita, como se apenas dormisse. - Essa aí morreu em paz. - Pensou o detetive.

- O que você esta fazendo aí?! Sai daí?!

O filho da moradora morta olhou para dentro do furgão e fez essa reclamação. Dentro do camburão só eram vistos os funcionários levando o cadáver por isso o pessoal ali presente pensou que o adolescente estava reclamando por estarem levando sua mãe embora. Não era isso.

- Você me vê?! Mas como?! - O detetive não estava acostumado a ser visto quando não era essa sua intenção.

- O que você esta fazendo perto da minha mãe?! Sai daí!

Gregório, que acreditava que o garoto estava tendo uma espécie de ataque, o puxa pelo braço a fim de impedi-lo de fazer uma cena. O coroa o abraça na intenção de passar um pouco de conforto. - Calma, rapaz. Calma.

Marcos Mignola ficou quieto, mas ainda estava incomodado com o fantasma inconveniente.

O detetive some, uma das vantagens em ser uma entidade imaterial era que a locomoção no tempo-espaço era diferente, muito mais livre. Para um fantasma ter um vislumbre do futuro ou ir de um lugar a outro em um piscar de olhos não precisava de muito esforço. O fantasma se teleporta indo parar em um lugar não muito longe dali.

Em um casarão isolado um homem sentava em uma poltrona como se fosse um rei. O detetive fantasma foi ter uma palavra com ele.

- A mãe de Marcos acabou de falecer. Teve um AVC.

- E eu com isso? Nem sei quem é esse tal de Marcos. - O homem que conversava com o morto aparentava ter quase cinquenta anos, mas seu corpo estava em forma. Sua pele era clara e seu cabelo bem negro. Seu rosto era de poucos amigos. Daquele tipo de pessoa que você deveria evitar problema. Ele se vestia de modo desleixado, apesar de usar terno e gravata. Suas roupas eram velhas, amarrotadas e em muitas partes desfiadas.

- Pai desnaturado! Estou falando de um dos seus filhos! O que você teve com a filha da mãe de santo.

O homem sentado na poltrona forçou sua memória, tentou buscar em seu passado alguma das suas conquistas que batesse com a descrição. Não se recordou.

- A mulata de coxa grossa. - Disse o fantasma apelando para uma das coisas que fazia com que a mente do seu mestre trabalhasse mais rápido: sexo.

- Lucinda?! Lucinda morreu?!

- Teve um AVC. Morreu dormindo.

- Puxa, que pena. Ela era tão bonita.

- O filho dela, que também é seu filho, não tem mais ninguém na vida. Então? Vai deixar o garoto na mão uma segunda vez?

- Mas meu rolo com Lucinda já tem tempo. - Pensou o homem enquanto se esparramava na poltrona. - Esse moleque já deve ter mais de dezoito, não?

- Dezesseis.

- Já tem idade para se virar sozinho.

- O garoto ainda estuda, se for obrigado a trabalhar vai ter que largar a escola e aceitar um serviço de merda. Você não pode ser tão frio.

- Botei mais de oitocentos filhos no mundo. Não consigo ter carinho por todos eles.

O fantasma não gostou do que ouviu, apesar de já esperar aquele tipo de resposta. Sendo assim ele lançou uma última cartada. Se não podia manipular seu mestre pelo amor paternal faria isso apelando pelo lado interesseiro dele.

- O garoto é um médium.

- Grandes merdas. Encontro vários deles em qualquer esquina.

- Ele conseguiu me ver sem que eu tivesse deixado. Falava comigo como se material eu fosse. Ele é no mínimo nível três.

O pai desnaturado sorriu, agora com um interesse renovado. - Fale-me mais sobre esse meu amado filho.

XXXXXXX

O casarão onde Guillermo Mignola morava ficava no alto de um morro de uma favela. Também ficava na área rural de uma cidade do interior. Ou poderia ser achada no centro de uma capital movimentada de um país árabe. Ou até mesmo em uma cidade estadunidense pouco conhecida. Arquitetura fantástica, podia ocupar vários lugares ao mesmo tempo. Apesar disso seu visual era feio. Parecia uma mansão assombrada de filme de terror. Seu desenho fora criado no século XVII, e mesmo naquela época seu dono já era absurdamente antigo. Desde então ela mudou pouco. Qualquer um não familiarizado com ela poderia facilmente se perder em seus mais de duzentos cômodos. Vários quartos, salões, laboratórios... Sua área poderia ser usada para algo útil como dar aula para estudantes de nível universitário. Ao invés disso seu espaço era subaproveitado. Toda aquela área só servia para a moradia de um único homem. Um homem com séculos nas costas, sendo assim tão velho ele sentia dificuldade em se apegar a quem quer que fosse. Todos seus relacionamentos eram efêmeros, passageiros.

- Enfim, e o menino? O que vai fazer com ele?

Dilbert acompanha Guillermo desde que faleceu, há uns vinte e poucos anos atrás. Mesmo depois de morto basicamente ele exerce a mesma função, a de detetive particular. Porém, agora ele tinha apenas um cliente. Por algum motivo Dilbert não conseguiu seguir em frente. Guillermo prometeu o ajudar quanto a isso. Esse era o pagamento que o fantasma recebia de seu patrão. Para um espírito errante ter alguém para se amparar fazia muita diferença. Ficar ajudando alguém era bem melhor do que ficar perambulando na rua sem ter o que fazer, acabaria se transformando em um encosto de alguém.

- Vamos fazer uma visita. Estou curioso em rever esse meu rebento.

O fantasma foi na frente, já que não era limitado pela distância. Guillermo precisou demorar um pouco mais para chegar até o endereço. Não muito, pegou seu carro na garagem do casarão e ao sair da casa se deparou com a distância mais próxima para chegar até onde Marcos morava. Uma residência móvel como aquela tinha vantagens.

Uma pessoa normal ao chegar em um prédio anunciaria sua presença interfonando, mas Guillermo não tinha paciência para isso. Com um gesto de mão fez com que o portão se tornasse denso como fumaça fazendo com que ele entrasse sem precisar chamar nenhum morador. O homem sobe até o terceiro andar. Fica de frente a porta e bate nela três vezes.

Marcos atende e ao olhar para o visitante faz uma cara de curiosidade. Não estava esperando ninguém, principalmente um desconhecido. Se bem que, por algum motivo que o garoto não sabia determinar o porquê, o tal desconhecido tinha algo de familiar.

- Talvez você não esteja me reconhecendo, garoto. Mas eu já troquei algumas fraldas suas.

Marcos sorriu, achou que o visitante era um conhecido de sua mãe das antigas, ou um parente distante. A revelação quando veio desmanchou toda a alegria do momento.

- Eu sou seu pai. Como tem passado?

XXXXXXX

Para muitos garotos reencontrar o pai há muito desaparecido seria motivo de alegria, não para Marcos. O primeiro contato após tanto tempo havia sido péssimo, resumido a briga e troca de ofensas. Após tantos anos sumido, do nada, seu pai aparece em sua porta oferecendo um convite para morarem juntos. Um convite que veio com dezesseis anos de atraso. Uma parte de Marcos dizia para não entrar na onda daquele homem. Apesar de ser seu pai era um completo estranho, capaz de abandonar uma mulher com filho no colo.

O problema era que Marcos não tinha muito o que fazer. Sem sua mãe para sustentar a família o garoto teria que trabalhar. Não que isso fosse ruim, mas ele duvidava que conseguiria um emprego que desse para pagar todas as suas despesas com a casa, principalmente o aluguel. Talvez não houvesse outro jeito, talvez Marcos tenha que aceitar o convite de Guillermo. Ele ficou de aceitar ou declinar do convite até o fim de semana.

Em momentos de duvida Marcos gostava de pedir conselhos a sua mãe, mas como ela não estava mais ali, ele resolveu apelar para uma segunda opção.

Os búzios estavam guardados perto da televisão da sala. Usando a mesa de trabalho que sua mãe utilizava para suas sessões Marcos decidiu fazer uma para ele mesmo. Havia tentado uma vez, mas na época não deu muito certo. Veremos agora.

Marcos sacode os búzios com as mãos fechadas e os joga na mesa, em cima de um pano branco. Nada. O garoto não teve nenhum vislumbre do futuro. Sem esperanças que fosse dar certo o garoto tenta uma segunda vez. Só por descargo de consciência.

A mente do jovem é invadido por imagens, como se fossem memórias revividas, mas aquelas memórias não eram dele. Em fração de segundos Marcos descobre tudo o que precisava saber sobre seu pai. Ele ficou parte maravilhado, parte horrorizado. Era coisa demais para assimilar.

Vislumbrar a vida de Guillermo serviu ao menos para uma coisa. Descobrir que sua companhia não era muito saudável.

- Mas e agora? Vou viver de quê?

Marcos ouve um baque forte vindo do quarto de sua mãe, o barulho foi tão alto e breve que o fez ficar assustado. O jovem vai verificar meio ressabiado, com um pé atrás. Chegando lá vê uma página de jornal que ele não tinha visto antes. Eram os classificados. Uma das vagas anunciadas em especifico foi circulada com caneta vermelha. Certa vez Marcos quis procurar um estágio, na época Lucinda se deu ao trabalho de procurar todas as vagas que seriam interessantes ao filho. Emocionado com a ideia de que sua mãe pudesse ainda estar zelando por ele onde quer que estivesse seus olhos ficaram marejados.

Marcos pega o jornal e lê qual era a oportunidade anunciada. O emprego era pouco convencional, assim como os requerimentos pedidos para se candidatar a vaga.

"B.P.R.D – O Bureal de Pesquisa e Defesa Paranormal irá abrir uma filial no país. Precisamos de pessoas que não tenham medo de assombração e de preferência com experiência com qualquer tipo de evento paranormal."

Não dava para discutir com sua mãe, mesmo ela já estando em outro plano. Não tinha como negar que aquela vaga era perfeita para ele.