Seleção de Emprego

Em um bairro comercial da cidade há um prédio que chama a atenção. Maior do que qualquer outro da redondeza, se destacava por ter trinta andares em um bairro onde as maiores construções não passavam de cinco.

O B.P.R.D ou Boreal de Pesquisa e Defesa Paranormal em inglês. É uma empresa internacional de segurança sem fins lucrativos que tem como meta defender a população em geral de ameaças envolvendo o mundo sobrenatural. Fantasmas, demônios, tranca-ruas, espíritos vingativos, encostos, mau olhados, deuses antigos, assombrações, maldições... Pense em uma polícia superespecialização que atua em âmbito internacional, essa era o B.P.R.D. Sua sede é nos EUA, mas desde algum tempo a empresa começou a se espalhar em vários países. Hoje há o B.P.R.D do Canadá, do México, da Espanha, do Japão, da Nova Guiné, de Portugal e, mais recentemente, do Brasil.

Mitchell Krauss é um alemão que conseguiu trabalhar no B.P.R.D brasileiro devido ao fato de seu tio trabalhar no americano, o tio Johann como ele gosta de chamar. Mitchell é um galego de pele bem clara e cabelos longos tão louros que beiram ao branco. Naquele dia ele irá se ocupar fazendo a seleção dos candidatos a uma vaga como agente. O dia promete ser longo, pois segundo ele não havia assunto que atraísse mais gente picareta e/ou maluca do que paranormalidade. E Mitchell não tinha paciência para aqueles dois tipos de gente.

Um homem magro e bem vestido passou pela recepção. Mitchell ficou contente ao vê-lo, pois ele parecia centrado. O primeiro "normal" que havia aparecido no dia. Sua alegria definhou assim que o candidato abriu a boca.

- Prometo fazer o trabalho de Deus até o dia da volta de Jesus! Amém, irmão!

Mitchell olhou com desânimo para a cara do pastor e mecanicamente pegou uma folha de papel que estava em cima de uma pilha sobre a mesa e entregou ao homem.

- Assina essa ficha de inscrição e espere um pouco na sala ao lado.

O pastor abençoou o recepcionista e fez o que ele tinha lhe dito.

Alguns poucos minutos depois chegou um outro candidato. Esse se vestia todo de preto e tinha o rosto pintado de branco, com manchas escuras que cobriam seus olhos e boca.

- Tenho muita experiência com o sobrenatural. Ô se tenho. Cortei muita cabeça de bode em terreno baldio.

- Assina essa ficha de inscrição e espere um pouco na sala ao lado.

Mitchell não aguentava mais. Estava quase pedindo a morte, mas seu sofrimento estava longe de acabar. Um homem louro e com cabelos compridos entrou na recepção. Ele estava vestido com uma roupa de exercito excessivamente colorida. Esse parecia ser o pior de todos.

- Bom dia.

- Bom dia. - Respondeu Mitchell já com tom de desanimo.

- Sou Ashtar Sheran, comandante do nono império galáctico.

- Assina essa ficha de inscrição e espere um pouco na sala ao lado.

Mais candidatos foram aparecendo, um mais exótico e sem noção do que o outro. Até que, como um oásis de sensatez em um deserto de loucura, aparece alguém centrado. Pena que esse parecia ser novo demais para preencher uma vaga.

- Moleque, você tem quantos anos?

- Dezesseis.

- Volte daqui a dois anos, quando for maior de idade.

- Até lá eu já morri de fome.

- Como é?

O adolescente então apelou para o lado emocional de Mitchell, contou uma história triste de uma mãe que lutava para criar o filho sozinha e de que como essa nobre mulher veio a falecer deixando um menor desamparado.

- Eu tenho cara de Madre Tereza? Já disse que você não pode competir.

O menino não aceitou "não" como resposta. Passou o dia inteiro atormentando Mitchell. O alemão dizia sempre as mesmas coisas e cortava todas as investidas do jovem que apelavam para o seu lado emocional. O problema era que o sangue germânico de Mitchell cortava qualquer apelo que não fosse pautado na lógica. Ele odiava coisas melosas, piegas ou emotivas, era um tanto insensível para os nossos padrões.

No final do expediente, já quase de noite, o adolescente permaneceu perto do prédio da empresa, sentado na calçada da rua a frente. Mitchell olhou para o jovem e ficou temeroso com tanta obstinação. - Esse aí deve ser o mais maluco de todos. - Pensou.

- O que foi, galego? Tá olhando para o quê? - Jéferson ficou curioso com o que seu amigo estava olhando pela janela. Jéferson era um dos agentes do B.P.R.D Brasil. Era negro, forte, alto e perito em muitas artes místicas que a maioria das pessoas nem sequer ouviu falar.

- Esse garoto deve ter algum problema. Ficou me atormentando o dia inteiro para conseguir participar da entrevista de emprego. O problema é que ele só tem dezesseis anos. Não pode.

- Pena, um funcionário determinado como esse seria de bom uso.

- Que nada, eu conheço o tipo. Deve ser um daqueles adolescentes fãs de RPG. Deve achar que combater forças sobrenaturais é algum tipo de sonho heroico. Eu teria cuidado com esse rapaz.

- É, acho que você pode ter razão. Mas parece que ele não vai desistir tão fácil.

- Nem me fala.

Jéferson abriu um sorriso malicioso e estalou os dedos. Teve uma ideia. - Cara, você ainda tem aquele pacote de influência ruim que eu te dei no Natal?

- Tenho, por quê?

- Ele tá aqui?

Mitchell pensou um pouco, ele havia levado o pacote para sua casa, mas estava em duvida se trouxe de volta para o emprego. A memória logo veio com a resposta. - Deixei no meu armário.

- Pega uma influência ruim e joga nesse pentelho!

- Que é isso, cara? Quer matar o garoto? - Mitchell fez essa pergunta sorrindo. Havia gostado da ideia, só não queria confessar.

- Porra nenhuma! Joga logo esse negócio para escarreirar esse pivete daqui! Tenho certeza que quando ele encarar um problema sobrenatural de verdade vai borrar as calças.

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Marcos Mignola estava triste. Sentado na calçada ele deitava sua cabeça em seus joelhos enquanto os abraçava. Tinha vontade de chorar, de desistir. Mas ele confiava em sua mãe mais do que tudo. Se ela disse para procurar emprego ali era porquê era para procurar ali.

Marcos estava determinado, tirando forças bem lá do fundo de seu intimo. Passaria a noite ali esperando. No frio, no relento e a deriva de qualquer ameaça noturna. Seja da chuva ou de algum assaltante. O adolescente estava perdido em pensamentos quando uma força invisível o levanta no ar e o joga para longe. Marcos cai de cara no chão, seu rosto ficou dolorido, sua testa ralou um pouco.

Quando o garoto ficou em pé o ser invisível atacou de novo. Dessa vez Marcos foi jogado contra a parede de uma casa. O impacto foi forte, suas costas pareciam que ia rachar.

Perto dali, espiando o espancamento pela janela do B.P.R.D, uma dupla de agentes maldosos se divertia a custa do sofrimento dos outros.

Um terceiro ataque leva Marcos novamente ao chão. O adolescente se concentra tentando encontrar a origem daqueles ataques. Se concentra tanto a ponto de finalmente conseguir enxergar seu agressor.

A influência ruim se tornou visível para ele. O monstro parecia um sangue suga gigante, porém andava com a ajuda de três pares de pernas que se pareciam com braços e mãos humanas. O bicho atacou o adolescente uma quarta vez. Marcos demorou a levantar, fazendo com que Jéferson e Mitchel se perguntassem se não haviam exagerado.

Marcos se levantou tão de supetão que a dupla que assistia a tudo tomou um susto. Eles estavam muito longe para conseguirem ver aquele detalhe, mas Marcos quando levantou não abriu os olhos, os deixando bem fechados. Marcos dá um grito estridente, quase um rosnado. Jéferson e Mitchell tomam um segundo sobressalto.

- Ôxe. - Comenta Mitchell, o alemão mais baiano que você poderia encontrar. - O menino endoidou de vez, foi?

Jéferson sorri, pois percebe que não era esse o caso. - O garoto é dos bons mesmo. Ele não esta lutando sozinho.

Marcos se engalfinha com a influência ruim, tapas e socos são trocados entre eles até que o adolescente consegue derrubar o monstro e ficar por sima dele. Em seguida Marcos dá vários golpes na criatura até ela não aguentar mais. No final ela definha, se tornando uma nuvem de poeira cinza e desaparecendo de vez.

Marcos já havia vencido, mas seu estado alterado não cedeu. Ele se levanta do chão e começa a gritar, além de andar meio cambaleante.

- Traz esse menino para dentro. - Disse Jéferson.

- Eu? Ele tá doidão! Eu é que não vou chegar perto.

- Alguém tem que suspender esse garoto antes que ele cometa uma merda!

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Marcos acordou deitado em um sofá de uma sala desconhecida. Ele não fazia nem ideia de como havia parado ali. Só se lembrava do ataque do monstro e de no meio da surra que levava perder a consciência. Ele tenta se levantar, mas sua cabeça rodava. Além da tontura ele se sentia meio enjoado. Para completar sentia uma leve enxaqueca.

- Calma, garoto. - Disse um homem negro que Marcos não conhecia. Jéferson entrega para o rapaz um copo d´água que ele bebe de um gole só.

- O que estou fazendo aqui?

- Ele não se lembra de nada!? Hahaha! - O alemão cabeludo chato que havia negado todos os pedidos de Marcos estava ali presente. Mitchell se divertia com a situação desconfortável do guri.

- Garoto, você recebe, é? - Perguntou Jéferson.

Marcos achou estranha aquela pergunta. Ficou sem responder nada.

- Ele não sabe nem do que é capaz. - Constatou Jéferson. A medida que o papo se desenrolava mais confuso Marcos ficava.

- Menino, você ainda quer trabalhar com a gente?