Faith No More

O consultório era pequeno, a sala tinha apenas uma mesa e duas cadeiras, uma onde o cliente se sentava, a outra ficava o profissional. As paredes eram de um tom azul claro. Havia um exagero de enfeites ali. Budas, deuses hindus, orixás, símbolos exotéricos... Era muita informação espalhada disputando espaço.

Assim que ela viu quem iria atendê-la ela chegou a pensar em dar meia volta e sair dali, desistindo de sua consulta. Porém ele era sedutor. Com uma conversa mansa conseguiu fazer com que ela relaxasse e esquecesse por um tempo seus preconceitos.

- É difícil falar com o além. - Disse o sensitivo. - Eu sou como um telefone que só recebe e nunca faz ligação.

O homem era alto e muito magro, sua pele muito branca dava a ele um aspecto pouco saudável. Seu cabelo liso tinha um corte comum e sua barba era por fazer. Logo acima da boca ele tinha uma cicatriz discreta de quem nasceu com fissura no palato, mas que consertou com cirurgia.

Seus braços expostos exibiam uma variedade incrível de desenhos diferentes. A maioria das representações eram claramente influenciadas por algum misticismo. Dentre tantas a tatuagem que mais chamou a atenção da mulher era a da mão direita do homem, um olho dentro de uma estrela de quatro pontas estilizada.

O sensitivo fechou os olhos. A mulher achou o gesto meio teatral demais. Ela estava quase convencida de que estava se consultando com um charlatão qualquer, quando ele finalmente abre a boca. Em menos de cinco minutos a mulher ouve um resumo de sua vida. Ela então se convence. - Esse homem tem um dom! - Pensou.

O sensitivo em questão se vestia de maneira muito pouco ortodoxa. Usava uma blusa social vermelha acompanhada por uma gravata e um colete pretos. Na cabeça usava um chapéu moderno. Parecia mais um artista, um músico, um vocalista de banda do que um ser espiritualizado.

Estilo visual não importava mais. Assim que ele começa a prever seu futuro a mulher abre o sorriso e, para alegria do médium, a bolsa.

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- Você foi enganada, minha senhora.

- Não é possível! Ele contou cada detalhe da minha vida...! Como ele podia saber das coisas que me disse?

- Facebook, orkut, yahoo, google, twitter...

A medida que o policial foi contando sua visão dos fatos mais a mulher se sentia estupida. - Como pude ser tão enganada?! - Se questionava. Não era fácil para ninguém ser confrontado com a verdade de que foi ludibriado. A maioria das pessoas preferiam persistir no engano. Não ela.

Da tela de seu computador o policial mostrou uma ficha criminal. A mulher ficou com o coração na mão quando viu o rosto do suposto médium naquele tipo de documentação.

- O nome dele é Marcos Mignola, 30 anos. Quando adolescente foi internado em um sanatório. Dizia Ver vultos e ouvir vozes, o de praxe. Quando saiu resolveu usar de sua maluquice para ganhar dinheiro. Se envolveu em vários pequenos trambiques. Nada muito sério, mesmo assim...

- Não precisa dizer mais nada! Obrigado por me contar a verdade!

Com quase cinquenta anos, aquele policial apesar de não estar no auge de sua forma física tinha uma cara enfezada de poucos amigos que fazia muita gente evitar ter algum problema com ele. O oficial era careca, mas mantinha uma barba espessa na cara. Sua pele tinha um tom corado, apesar dele quase nunca ir a praia.

- O tatuado aprontou mais das suas, Heitor? - Perguntou um colega assim que a mulher saiu após prestar uma queixa.

- Mais uma iludida. Como é que tanta gente se deixa enganar assim?

- Acreditar em algo especial é tentador. Encarar a dura realidade de que não há nada além desse mundo faz com que as pessoas prefiram ser enganadas. Te contei sobre o paraplégico que voltou a andar?

- Não, essa é nova.

- Minha esposa me obrigou a ir a um culto naquela igreja dela. Enfim, o pastor curou as pernas de um rapaz na vista de todos. O problema era que eu conhecia o rapaz em questão há muito tempo e ele nunca foi paraplégico.

Heitor Sacramento riu, não por achar graça, mas por ser uma opção melhor do que chorar. - Só tem esperto nesse mundo.

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Sua morada ficava um andar a cima do seu ponto de atendimento. A casa de dois andares era estreita e comprida, uma arquitetura incomum, feita para uma pessoa igualmente exótica. Não havia televisão, nem computador. Tirando as lampadas de cada cômodo e alguns utensílios essenciais como geladeira ali quase não eram usados aparelhos eletrônicos. Na sala ao invés da tevê você viria uma estante comprida cheia de livros. Livros esses em sua maioria que você não encontraria em qualquer livraria ou biblioteca. Eram títulos raros, especiais e seriam considerados polêmicos se fossem mais populares.

Marcos estava em seu quarto sentado em uma cadeira de recostar. Despreocupadamente, ele fazia a contabilidade do faturado naquele dia. Um montante de mil e seiscentos reais em menos de seis horas de trabalho.

Aquele emprego era incerto. Você poderia ganhar muito em um dia trabalhando pouco ou se matar de trabalhar e não ganhar quase nada.

Em uma gaveta de um criado mudo, Marcos guardava seu rendimento. No final do mês ele iria até o banco e depositaria todo o faturado. Não era um lugar muito seguro para se guardar seu ordenado, principalmente em uma vizinhança como aquela. Porém Marcos achava que sua casa tinha toda a proteção necessária. Não uma providenciada por sistemas de segurança ou portões de ferro. Uma proteção de outro mundo.

A campainha toca.

- Quem será procurando consulta a essa hora? - Se pergunta Marcos ao ir atender a chamada.

Esse suposto novo cliente estava praticamente agredindo o botão da campainha, estava com pressa.

- Já vai!

Marcos abre a porta e vê dois rostos desconhecidos e um familiar, ele se concentra nesse último.

- Senhora Rebeca? De volta em tão pouco tempo! Algum problema?

Rebeca deu um olhar fulminante para Marcos. A mulher tinha vinte e poucos anos, apesar disso nunca trabalhou na vida e parou de estudar já no ginásio. Se achava poderosa e acima de qualquer problema. Tal certeza vinha do fato dela conseguir se tornar a noiva do traficante mais perigoso da área.

Rebeca sabia falar e se comportar bem, por isso conseguia entrar em vários meios sem que ninguém desconfiasse de sua vida pessoal ligada ao crime. Ela conseguia inclusive entrar em uma delegacia e conversar com um policial sem que esse soubesse do seu envolvimento no trafico. Rebeca era discreta, por isso quando o médium revelou toda a sua vida em uma consulta ela ficou tão impressionada.

Mas aí veio a desconfiança. O policial Heitor Sacramento revelou o truque do médium.

Rebeca não aceitava ser enganada. Principalmente em sua área. Aquilo tinha que ter troco.

- Rapazes... - Rebeca não precisou dizer mais nada. Com um olhar ela ordenou que os armários que faziam sua escolta começassem a se ocupar com Marcos.

Começou com um soco na boca do estômago tão forte que o fez dobrar e cair de joelhos no chão. Depois veio um tapa no pé do ouvido. Caído se seguiu os chutes. O massacre durou uns dez minutos. Longos e insuportáveis dez minutos.

Quando os brutamontes terminaram Rebeca se abaixou para falar no ouvido do suposto sensitivo. Falava quase em sussurro, mas usava um tom ameaçador. - Quero você fora do meu bairro, esta me entendendo? Tem até amanhã.

Rebeca e seus comparsas foram embora, só quando sumiram de vista Marcos se atreveu a se levantar. Seu corpo doía, sua cabeça latejava, sentia vontade de vomitar. Marcos cospe no chão e antes que a saliva alcançasse seu destino ele fez uma promessa para si mesmo. Ela ia pagar.

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- Heitor, você não vai acreditar nessa!

- Fala logo, Rogério. Estou sem paciência para mistério.

- Se lembra daquela moça que veio aqui ontem falar sobre o curandeiro que você tanto ama? - Rogério se referia a Marcos quando usava a palavra curandeiro, a referência a uma relação afetiva era puramente irônica.

- Uma tal de Rebeca. Sim, e daí?

- Ela apareceu nua em uma rua movimentada no horário de pico. Estava loucaça!

- Foi dopada?

- O exame de sangue não revelou nenhuma substância psicoativa. Mas vai saber.

Heitor deu um murro na mesa, sabia que aquilo era obra de Marcos, mas como não conseguia fazer nada para provar seu envolvimento estava de mãos atadas. Pelo menos legalmente falando.

- Aquele monstro! Como pôde fazer isso com uma moça tão boa! - Heitor não sabia que Rebeca era considerada a princesinha do trafico, muito menos que ela havia mandado dar uma surra no sensitivo. Mesmo que soubesse disso não faria muita diferença. Ele odiava aquele homem, só precisava de um pretexto para por esse sentimento para fora.

- Ainda pego aquele bruxo de merda! Você verá!

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- "Eu peguei pesado"?! Esta brincando?! Ela me ameaçou! Se eu não mostrasse que sou perigoso ela nunca iria parar. Conheço esse tipo de gente.

- Fica quieto, Garcia! Você não sabe o que diz.

- Vai à merda! Quem cuida da minha vida sou eu!

É até comum em famílias acontecer uma discussão mais acalorada e os vizinhos ouvirem tudo. O que não era tão comum assim era uma briga ser ouvida quando só havia uma pessoa envolvida. Um barraco de uma pessoa só.

Os vizinhos nem mais se incomodavam, pois já se familiarizaram com essa peculiaridade do morador. Era até algo que dava uma credibilidade involuntária para o seu negócio. - Ele esta falando com os espíritos? - Se perguntavam alguns. Outros achavam que ele estava era possuído, uma ideia que era reforçada pelo seu jeito de se vestir e por suas tatuagens. A maioria, porém, acreditava na hipótese mais simples. - Ele é só um maluco.